Política,

Um corpo no mundo

Claudia Rankine mistura gêneros literários para descrever entrincheiramento vivido por negros nos Estados Unidos

01maio2021 - 09h28 | Edição #45

Seria impossível enumerar todos os episódios raciais que motivaram Claudia Rankine a escrever Cidadã: uma lírica americana. Dada a natureza com que o racismo está entranhado na sociedade dos Estados Unidos, tais eventos atravessam o corpo negro em situações diversas: ao assistir a uma partida de tênis com uma das melhores jogadoras da história do esporte, na fila de embarque no saguão de um aeroporto ou na cobertura televisiva do desastre causado pelo furacão Katrina, que arrasou o Sul do país, majoritariamente negro, em 2005. 

O amálgama de situações narradas pela escritora e professora de literatura na Universidade Yale, nascida na Jamaica, está registrado em um livro bastante celebrado. Publicado em 2014, Cidadã coleciona mais de dez prêmios, entre eles o National Book Critics Circle Award na categoria poesia. A obra permanecia inédita no Brasil até ser recém-publicada pela Edições Jabuticaba, com tradução de Stephanie Borges.

Cidadã, constituído de fragmentos de prosa, poesia, ensaios, roteiros de videoinstalações, pinturas e frames, aborda, entre outras coisas, o modo como brancos e negros podem dividir o espaço público, entre a invisibilidade e a agressão explícita. Na farmácia, um homem simplesmente ignora a presença de uma mulher negra na fila enquanto aguarda sua vez. “Você deve estar com pressa”, diz a mulher. A resposta é cortante: “Não, não, não, eu realmente não vi você”. No supermercado, um funcionário no caixa pergunta sem rodeios a uma mulher negra se o cartão dela terá saldo para quitar as compras. 

Do ponto de vista da linguagem, Rankine encadeia essas situações utilizando com frequência o “você”. A definição pela segunda pessoa do singular nos excertos que tratam dos episódios cotidianos de racismo reproduz uma espécie de convite feito pela autora. Não há como estar à margem, porque você, leitor, é jogado dentro da cidadania perversa que corrói a vida de pessoas negras sem aviso prévio. Uma coleção de não pertencimentos, que podem criar alguma empatia ou completo estranhamento.

Como apontou o escritor Berttoni Licarião acerca de Cidadã, o diálogo entre a narradora e esse leitor onipresente faz uma provocação sobre qual o lugar do corpo negro no mundo. “Sem subjetividade, sempre um coletivo, um estereótipo, uma massa amorfa.” É como no episódio descrito por Rankine em que um homem branco se aproxima de uma mulher negra no saguão de um aeroporto e, para puxar conversa, mostra o retrato de sua esposa, também negra. Ou o “corpo-incômodo”, quando uma professora branca diz que seu filho não consegue entrar em uma renomada universidade por causa das ações afirmativas para estudantes negros.

O imaginário racial que norteia a relação entre negros e brancos tem sido uma obsessão para Rankine

Rankine dá vazão a uma temática importante em sua obra, que analisa o modo como pessoas brancas lidam com o racismo e o que elas têm feito para minar a discriminação contra negros. Quando escreve sobre a morte de Mark Duggan, jovem negro de 29 anos assassinado por policiais em Londres, em agosto de 2011, Rankine salienta como é “difícil para um corpo sentir a injustiça lançada ao outro”, para em seguida questionar: “São tão estrangeiras as tensões, os reconhecimentos, as decepções?”.

Em uma conversa em novembro de 2019, por ocasião de uma reportagem publicada no jornal Folha de S.Paulo, Rankine falou sobre como a falta de reconhecimento dos brancos acerca dos males do racismo revela uma espécie de proteção das benesses provocadas pelo estado atual da discriminação racial. Presente em Cidadã, a temática também está em Just Us (Apenas nós), publicado nos Estados Unidos em setembro do ano passado e que deve ser trazido ao Brasil pela editora Todavia até o segundo semestre. “Os brancos não querem falar de construção racial porque eles se beneficiam do racismo”, afirmou à época. 

Nesse ponto, Rankine refaz um trajeto de outros escritores negros e que são citados em Cidadã, como o psiquiatra e filósofo Frantz Fanon e o ensaísta e romancista James Baldwin. Baldwin tratou do tema em seu famoso ensaio “O estranho no vilarejo”, publicado em 1951, sobre as percepções de um homem negro na pequena Leukerbad, na Suíça. Ele afirma que “o branco inevitavelmente tem consciência de estar em uma posição melhor no mundo do que o negro, e tampouco consegue ignorar totalmente a suspeita de que é, portanto, odiado pelo negro. O branco não quer ser odiado, mas também não quer trocar de posição”.

Imaginário racial 

Cidadã também discute o papel da memória e do imaginário racial. Na parte derradeira da obra, há uma lista com o nome de trinta pessoas negras assassinadas pela polícia nos Estados Unidos desde 2012. A última vítima inserida na contagem, ao menos na edição brasileira, foi George Floyd, asfixiado por policiais brancos em maio do ano passado na cidade de Minneapolis. A sessão é interrompida por estes versos: 

porque homens brancos não conseguem
policiar sua imaginação
pessoas negras estão morrendo. 

Esse imaginário corrompido pelo racismo que dilacera vidas negras nos Estados Unidos também é visto no Brasil, como no trágico assassinato de Beto Freitas, brutalmente espancado por seguranças brancos de uma unidade do supermercado Carrefour em Porto Alegre, em novembro de 2020. 

A reconstrução desse imaginário racial e que norteia a relação entre negros e brancos tem sido uma verdadeira obsessão para Rankine não apenas no trabalho ficcional. Após ganhar a bolsa para gênios da Fundação MacArthur em 2016, no valor de US$ 625 mil (cerca de R$ 2,6 milhões à época), justamente por sua escrita voltada ao debate racial, a jamaicana criou o Instituto de Imaginário Racial, para discutir os entraves da construção racial na sociedade dos Estados Unidos. As atividades do instituto funcionam como uma espécie de curadoria, às vezes de forma itinerante, com atividades já realizadas em Nova York, Los Angeles, Filadélfia e San Francisco. “Não importa se é nas artes visuais, no cinema, na poesia, na ficção ou mesmo no debate político. Precisamos nos debruçar sobre esse imaginário de qualquer ângulo possível e mudar algo que está em voga com consequências terríveis”, define Rankine.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Henrique

É jornalista.

Matéria publicada na edição impressa #45 em abril de 2021.