Literatura Negra,

Cartas para a liberdade

Quadrinho de Marcelo D’Salete conta a história da escravizada Tiodora para mostrar a escravidão urbana do século 19

01nov2023 - 00h00 | Edição #75

Em um momento de Mukanda Tiodora, obra mais recente do quadrinista Marcelo D’Salete, Benê, um dos protagonistas, é avisado que será perigoso continuar pela estrada que percorre. Apesar do aviso, o protagonista segue seu caminho.

No meio da noite, chega a uma paisagem repetitiva como uma fábrica capitalista, mas também rústica e brutal como algo mais ancestral. A opção de D’Salete por situar a cena durante a noite reforça o caráter sombrio da paisagem.

É um cafezal.


Em Mukanda Tiodora, Marcelo D’Salete volta seu olhar para a escravidão urbana do século 19

O protagonista negro ainda não conhecia um cafezal porque era um órfão abandonado nas ruas da São Paulo do século 19. Já não era escravo, mas não teve qualquer chance de se inserir no mundo do trabalho sólido (para não falar da educação) moderno. Vive em uma realidade onde já existe o urbano, e o edifício ideológico da servidão já não é tão concreto. Contudo a violência da escravidão ainda está em toda parte.

Veja o caso da escravizada Tiodora: ela vende frutas pelas ruas de São Paulo. Mas essa atividade “moderna” é realizada ainda dentro das relações de poder da escravidão: seu escravizador é um padre, um representante da velha ordem, que não só toma de Tiodora os frutos de seu trabalho como também a submete a torturas físicas diante da menor indisciplina.

E assim começa nossa história: Tiodora paga um escravizado alfabetizado para redigir uma carta (“mukanda” em quimbundo) para seu marido, que não vê desde que foi vendida para o padre. Na mensagem, Tiodora pede dinheiro a ele para completar o que precisa para comprar sua alforria. Quem leva sua carta Brasil adentro é Benê.

Os documentos não são suficientes para contar a história inteira da escravizada Tiodora

Tiodora é uma personagem real. Suas cartas sobreviveram nos arquivos. A edição da editora Veneta traz não apenas o fac-símile das cartas como também textos explicativos muito bons, elaborados pelo editor Rogério de Campos e pela historiadora Silvana Jeha, além de um posfácio de Cristina Wissenbach, professora de história da África da Universidade de São Paulo (USP).

É suficiente para deixar o leitor com vontade de entender melhor o universo de Tiodora. Por exemplo, nas cartas há um aspecto místico em que parecem conviver elementos de tradições religiosas tanto ocidentais quanto africanas (“a rainha é a maior do mundo e está presa no mal/ e não pode se salvar porque São Benedito perdeu ela no mar”). Fiquei curioso em imaginar como esses trechos — que nos parecem uma sequência de imagens fortemente poéticas, difíceis de serem entendidas literalmente — seriam lidos por um outro escravizado do período. Que códigos eles desvendariam naqueles textos?

Os documentos não são suficientes para contar a história inteira de Tiodora. Sabemos que, na vida real, as cartas não foram entregues. O que D’Salete faz em Mukanda Tiodora é dar às mukandas algo da história que Tiodora merecia que elas tivessem.

Rachaduras

Mukanda Tiodora assinala um novo momento da obra do quadrinista paulista, cujas obras anteriores lidavam sobretudo com a escravidão rural e colonial. Cumbe, obra vencedora do prêmio Eisner de melhor edição estrangeira, reuniu histórias de resistência, coletiva ou individual, de escravizados que tentavam conduzir vidas humanas em meio a um sistema que os coisificava sempre que podia. Em Angola Janga, D’Salete contou a derrota do quilombo de Palmares: uma história de heroísmo e de disputas políticas internas intensas entre os quilombolas e entre eles e os administradores portugueses. No final, a engrenagem escravista se revela pesada demais para esses esforços rebeldes.

Em Mukanda Tiodora, D’Salete volta seu olhar para a escravidão urbana do século 19, em que o sistema já apresentava suas rachaduras: o Brasil já era urbano e a política brasileira apresentava frestas para a atuação de abolicionistas como Luiz Gama, que, aliás, é personagem de destaque na história.

Essas frestas ainda eram pequenas: Tiodora ainda recebia punições físicas e precisava pedir autorização de seu escravizador para pedir esmolas no domingo. Mas já acreditava que suas cartas poderiam acelerar a conquista de sua liberdade, como os quilombolas aceleravam a liberdade dos fugitivos, ou como Luiz Gama brigava para destruir o sistema na nascente esfera pública. Como diz o abolicionista em uma das páginas da HQ, “As nossas armas serão todas as armas possíveis”.


Quadro da HQ Mukanda Tiodora, de Marcelo D'Salete [Divulgação]

A arte de D’Salete, composta em um estilo que lembra sequências de xilogravuras, resgata em seus protagonistas complexidade humana, poesia, estilo e espiritualidade que a escravidão tentava lhes negar. As páginas que abrem e fecham os capítulos são quase abstratas, e belíssimas, como já era o caso em Cumbe e Angola Janga. E o autor conhece os recursos da nona arte. Em uma cena especialmente bem construída, o mecanismo da escravidão é ilustrado por uma sequência de imagens de caráter quase didático. Elas aparecem refletidas na bebida que Luiz Gama toma enquanto discursa, em uma taverna, a favor da abolição. Ao fim do discurso, ele golpeia a mesa: com o abalo resultante, o copo em que se acumulavam as imagens de sofrimento se despedaça no chão.

Mas além de mestre de sua arte, D’Salete é claramente um leitor da discussão sobre a escravidão brasileira, representada em suas diversas vertentes na bibliografia que acompanha a obra. Mukanda Tiodora não é uma monografia acadêmica, felizmente, mas entre os lugares em que o artista procurou suas referências também está a literatura especializada. Os debates sobre as possibilidades e limites da rebelião escrava, o esforço dos escravizados por preservarem tradições e laços familiares, as diferentes estratégias abolicionistas, personagens que ocupam lugares ambíguos no sistema: quem conhece a bibliografia reconhecerá esses temas. Quem não conhece será apresentado a eles de maneira bastante natural pelo desenrolar da história.

Não cabe a mim dar o veredito: não sou historiador, nem especialista em escravidão brasileira nem descendente de escravizados. Mesmo assim, acho difícil que a obra de D’Salete não seja reconhecida no futuro como uma das grandes representações artísticas da escravidão brasileira.

Quem escreveu esse texto

Celso Rocha de Barros

Sociólogo, é analista do Banco Central, colunista da Folha de S.Paulo e autor de PT, uma história (Companhia das Letras, 2022).

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.