Literatura japonesa,

Ponte entre mundos

Seiko Ito imagina a reconstrução do Japão pós-tsunami pela conexão entre os que viveram e os que morreram

26jul2023 - 16h15 | Edição #72

No dia 11 de março de 2011, um terremoto deslocou o Japão. Não é modo de dizer: o tremor de 9 graus moveu em 2,4 metros para leste a maior ilha do país. O epicentro foi em um ponto do oceano Pacífico a 130 quilômetros de Sendai, capital da região de Tohoku — a mais afetada pelo maior tremor da história japonesa. Eram 14h46 quando a terra começou a tremer. Três minutos depois, foi disparado o primeiro alerta de risco, mas com uma falha na estimativa do tamanho do tsunami: as autoridades projetavam que as ondas mais altas teriam seis metros, no entanto, elas chegaram a dez e quinze metros. Mais tarde, uma investigação apontaria que um cálculo preciso no alerta inicial poderia ter salvado vidas.

Demorou menos de meia hora para que a água atingisse a costa leste, destruindo cidades litorâneas — algumas foram completamente encobertas. As ondas foram as responsáveis pelo maior número de vítimas. O terremoto seguido de tsunami matou quase 20 mil pessoas. Cerca de 2 mil ainda estão desaparecidas, mais de uma década depois. Para completar o desastre triplo, a usina de Fukushima foi inundada e três reatores derreteram, provocando o maior desastre nuclear desde Tchernóbil, em 1986. A radiação trouxe consequências duradouras, com o adoecimento de pessoas pelo material tóxico que contaminou a água, o solo e o ar. A reconstrução passou por descontaminação, alterações na geografia das cidades, reforço nas medidas de segurança e repetidas iniciativas para lembrar as vítimas da tragédia.

As referências à onda gigante aparecem como metáforas imagéticas que ativam os sentidos do leitor

A destruição comoveu a população e passou a povoar filmes, músicas e livros que tratam da elaboração desse trauma coletivo. Na literatura, o tema é guia de uma corrente de obras lançadas depois de 2011, e alguns pesquisadores tentam entender como o tsunami afetou as narrativas — ainda que as histórias não tenham relação com o evento, há nelas aspectos do luto, da brutalidade súbita e das ausências.

O DJ Ark — apelido adotado desde que começou a ancorar uma transmissão radiofônica do alto de um cedro — é um homem falastrão de 38 anos, que não sabe bem como foi parar no topo da árvore gigante: 

Eu tenho a impressão de estar nessa situação já faz bastante tempo, mas não me lembro de absolutamente nada. Perdi toda a memória do que me aconteceu até chegar aqui, tenho só a sensação física de ser sacudido, jogado de um lado pro outro, e depois flutuar.

É ele quem nos conduz por Rádio imaginação, do escritor, rapper e artista multimídia Seiko Ito, um precursor do hip hop japonês. O personagem não tem microfone, mesa de som ou equipamento de transmissão.
Ainda assim, faz com que seu programa chegue a muita gente por uma conexão imaginária que se mostra vigorosa. Ele sabe que há ouvintes, pois eles mandam mensagens, interagem, contam histórias. O DJ dá risadas exageradas, como para esconder o pavor das incertezas e da solidão que vai se sentindo à vontade para revelar.

A transmissão, em primeira pessoa, começa com informações genéricas sobre Fuyusuke Akutagawa — esse, sim, seu nome. Ele conta que vive em uma cidadezinha à beira-mar, terra de longos invernos; que tem um filho e é casado com uma mulher mais velha; e que narra sob a luz da lua, em um horário em que até as plantas estão dormindo. Mas logo escala na intimidade, como quem não tem nada a perder. Reclama do trabalho de agenciador de bandas e conta de falcatruas que cometeu. Seu roteiro intercala o falatório ansioso e músicas que ele escolhe. Eclético, mistura o pop norte-americano de The Monkees, o punk rock irlandês dos Boomtown Rats e a bossa nova de Tom Jobim com “Águas de março” — uma provocação do DJ. À medida que o programa ganha audiência, Ark passa a dividir lembranças e desabafos sobre o silêncio de seus familiares. Ele se inquieta com o fato de tantos ouvintes se comunicarem com a rádio e nenhum ser sua esposa ou seu filho.

Abstração

A palavra tsunami não é parte do vocabulário, mas as referências à onda gigante aparecem como metáforas imagéticas que ativam os sentidos do leitor. Ark e os ouvintes falam na chegada da escuridão e no acontecimento que levou a luz embora. Em uma escolha sensível, a história usa a abstração imaginativa para dar concretude ao que não existe mais no plano concreto. São as ondas do além, as mensagens transmitidas na programação fantasiada, que permitem que aquelas pessoas existam. 

Não há nenhuma maneira de confirmar que eu existo, exceto, precisamente, a imaginação. […] DJ Ark, você pode transmitir minha voz para muitas pessoas. Falar com você é a única maneira que tenho de confirmar que existo.

O leitor entra pouco no mundo dos vivos. A exceção é o relato de um homem identificado como S., que vai a uma cerimônia budista em memória do pai e não consegue deixar de pensar no DJ Ark. S. esteve na região para um trabalho voluntário e ouviu falar de alguém que ficou preso em um cedro, em uma área isolada pela radiação. S. sabe que há uma voz em potencial a ser ouvida, se esforça para sintonizá-la, mas não consegue. Um colega reforça a crença nas vozes dos que morreram, diz que há uma algazarra que só pode ser escutada por alguns e que isso já aconteceu outras vezes no Japão, como quando uma bomba nuclear foi lançada sobre Hiroshima. Ele também diz que alguns vivos conseguem ouvir as vozes do além.

Para DJ Ark, os que não escutam os mortos são do tipo cabeça-dura, que só conseguem pensar em fenômenos conhecidos e por isso expulsaram toda a imaginação. Seu programa, então, vai tomando forma de convocação, incitando os ouvintes a se fazerem ouvir. Ele entende que vivos e mortos são indissociáveis para que a rádio exista e para que o Japão se refaça. Por um lado, os que morreram não existem sem os que viveram, uma vez que são a extensão de sua memória. Por outro, os que viveram inviabilizam o futuro quando se esquecem dos que morreram.

O locutor, na tentativa de ser a ponte entre dois mundos, sugere estratégias para que a barreira que separa mortos e vivos seja rompida, e a memória dos que morreram seja honrada — única saída possível para a reparação. “O único jeito de reconstruir o país é junto com os mortos. O que a gente está fazendo, tentando tapar a realidade e fingir que não foi nada? O que é que deu nesse país?”

A editoria de Literatura japonesa tem o apoio da Japan House São Paulo.

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Gabriela Mayer

Jornalista e crítica literária, criou o podcast Põe na Estante.

Matéria publicada na edição impressa #72 em julho de 2023.