Literatura japonesa,

Monstras que nos habitam

Aoko Matsuda reconta histórias do folclore japonês de uma perspectiva feminista e não menos assombrosa

26out2023 - 14h44 | Edição #75

Tecendo os contos como uma aranha, a premiada escritora Aoko Matsuda conecta os fios quase invisíveis entre uma história e outra neste Onde vivem as monstras, em que mortos convivem naturalmente com vivos, crânios são pescados, árvores produzem leite humano, incensos emulam uma chamada de vídeo com o além e a integridade de uma cadeira da Ikea é ameaçada.

Matsuda escreve os contos a partir do folclore japonês, do teatro kabuki e do rakugo (uma espécie de performance teatral contada com as mãos). As histórias refletem o deslumbre imaginativo da cultura japonesa — a princesa montada num sapo gigante não me sai da cabeça.

Na edição da Gutenberg, selo editorial da Autêntica, podemos ler também os resumos dessas histórias milenares, graças à inclusão da tradutora norte-americana Polly Barton. A autora mama nessa cultura, que surge no contexto de uma civilização ultrapatriarcal. Nas narrativas, que ainda flutuam como fantasmas no Japão, é comum que mulheres sejam vilanizadas, como a jovem que vira serpente porque é rejeitada por um monge ou a mulher que perde o marido por causa de uma espinha no rosto.


Em Onde vivem as monstras, de Aoko Matsuda, o humor e o olhar feminista se entrecruzam

A magia de Matsuda está na interpretação contemporânea do folclore japonês. Como se virasse o tecido pelo avesso, a escritora refaz personagens, reconta as narrativas por uma perspectiva feminista, hilária, colorida e não menos assombrosa. Como se pusesse tudo numa bolsa e sacolejasse seu conteúdo, ela traz esqueletos do período Edo aos tempos atuais. Até uma casual Beyoncé (viva) aparece num dos contos.

Em várias passagens, o leitor tem a impressão de estar num desenho dos mais aterrorizantes do Studio Ghibli, a fantástica fábrica de animações japonesas. Noutros, parece que se está dentro de uma silenciosa indústria onde se produz incensos com excelência máxima. É o caso do conto que dá título à coletânea, em que o personagem Shigeru, já de botas de lona depois de lançar seus All Stars azul-marinhos pelo piso da fábrica, confere as tiras de incenso na última posição da linha de produção. Calado, fantasmal. Quando criança, Shigeru ganhou do pai ausente um exemplar do clássico infantil Onde vivem os monstros. Sua mãe se enforcaria anos depois. Filho único, Shigeru visitou tanto seu túmulo que o próprio espírito da mãe cantarolou para que ele não viesse mais. Afinal, ela precisava descansar.

É nessa solidão, e na excelente tradução de Rita Kohl, que sentimos a cadência elegante do idioma japonês, e a atmosfera do livro se esvanece num ambiente ao mesmo tempo duro e feérico. Um personagem vivo ou morto de um conto se arrasta pelo ar até outra história. Assim, no último conto revemos Shigeru no castelo de Himeji, substituindo seu chefe na fábrica de incensos, o misterioso Tei.

Matsuda faz uma ode à diversidade feminina e uma espécie de vingança ao passado do Japão patriarcal

O castelo de Himeji e a Fábrica de Incenso e de outros produtos, cuja finalidade não sabemos, funcionam como um vórtice dos personagens — que são atraídos também para apartamentos decorados na cor bege, lojinhas de antiguidades, uma floresta. A fábrica, mais presente nas histórias, é majoritariamente composta por mulheres. Mulheres de meia idade, em sua maioria, e provavelmente bruxas. Mas também mulheres fantasmas, mulheres raposas, cabeludas, carecas, cuidadoras, lindas, irascíveis, deformadas. Matsuda faz uma ode à diversidade feminina e uma espécie de vingança ao passado do Japão patriarcal, através de uma prosa irresistível.

São personagens que fisgam já no primeiro conto, “Se cuidar”, que tem algo de almodovariano e não menos japonês: uma tia despachada, pentelha, invade o apartamento da sobrinha chique e grilada com seus próprios pelos. Ao final, não sabemos qual delas é a mais maravilhosamente monstruosa.

Talvez a maior monstra de todas seja a própria Aoko Matsuda, cuja carreira inclui prêmios como o World Fantasy Award em 2021. Também tradutora de autoras contemporâneas como Carmen Maria Machado, a escritora é considerada uma das mais promissoras do Japão e uma importante voz feminista do mundo não ocidental.

Mortos bem resolvidos

Nesse universo fantástico, o humor e o olhar feminista se entrecruzam como na dança tradicional Nihon Buyo. O leque em dezessete contos singelos e potentes assombra mais pela sagacidade da autora e a precisão das imagens absurdas — que brotam vívidas na cabeça — do que pelos fantasmas e monstras que passeiam por ali. Os mortos são mais livres e bem resolvidos do que os vivos, atrelados a problemas terrenos, crises no casamento, pelos debaixo do braço, espinhas e cicatrizes.

Em “Meu superpoder”, a colunista de lifestyle Kumiko Watanabe se compara às monstras Oiwa e Okon, de dois rakugos bastante conhecidos no Japão. A primeira tem a face transfigurada depois de usar um creme envenenado dado pela família do marido, que não a quer mais na família. Já Okon foge de casa por causa de uma espinha no rosto e, quando volta, encontra o parceiro casado com outra mulher. As duas retornam como fantasmas para assombrar seus péssimos maridos.

Kumiko sofre de dermatite tópica e, vendo o filme Os vingadores com o filho de catorze anos, pensa em qual seria seu superpoder. Lembra da adolescência difícil por causa da doença e das vezes em que se “transformou em múmia” com as bandagens para a pele no tratamento numa clínica em Kuchi. Quando a dermatite dava uma trégua, os colegas da escola começavam a tratá-la normalmente. A doença voltava e o distanciamento e caras e bocas vinham juntos. Por causa dessa dinâmica dolorosa, Kumiko desenvolveu seu superpoder:

Consigo ver a natureza real das pessoas, como elas são de verdade. Pois quando estão olhando para alguém que consideram um monstro, as pessoas não se dão conta de que o monstro também as observa.

É nesse jogo de espelhamento, quebra-cabeça e imaginação que Onde vivem as monstras vai despertar assombro e identificação nos seus leitores. Que saiamos das nossas tumbas mais alegres e confiantes porque o mundo está precisando.

 A editoria de Literatura japonesa tem o apoio da Japan House São Paulo.

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Natércia Pontes

É escritora, autora de Os tais caquinhos (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.