Literatura israelense,

Linguagem fraturada, mundo dividido

Gershon Baskin mostra que não haverá paz no Oriente Médio sem a construção de uma cultura compartilhada entre israelenses e palestinos

01jul2021 - 00h51 | Edição #47

Qualquer um que percorra a região de Israel, Palestina e os Territórios Ocupados se perguntará: “Por que não a Paz?” — uma alusão invertida a “Por que a Guerra?”, correspondência histórica entre Freud e Einstein, em 1939. As barreiras de circulação, checagens e placas de advertência sobre acesso a cidades, travessias por zonas brancas, azuis ou vermelhas, criaram uma vida bífida e mutuamente invisível, exceto por explosões emergentes, vividas com surpresa e terror, como os bombardeios de 2021.

Quem estuda percepção de segurança social sabe que a exposição contínua a armas, tanques e câmeras de vigilância cria um sentimento indeterminado de perigo, que depois se transforma em naturalização, quando não em diplopia da violência — como se cada olho visse uma realidade diferente que só pode ser estabilizada se fecharmos, a cada vez, uma das perspectivas. Ativistas e lideranças institucionais dirão que “o outro lado” não é confiável em uma mesa de negociação. Após tantas traições de parte a parte, a palavra se desgastou e só poderia ser reposta com a passagem geracional ou uma redistribuição demográfica.  

Gershon Baskin foi testemunha e porta-voz vivo da formação desse desencontro da palavra. Nascido nos Estados Unidos, formado na efervescência dos movimentos pelos direitos humanos, antirracistas e feministas dos anos 70, nos quais a luta contra a Guerra do Vietnã teve papel decisivo, Baskin fez aliah e tornou-se o dirigente máximo do Israel/Palestine Center for Research and Information (IPCRI), depois renomeado Iniciativas Regionais Criativas Israel-Palestina, um think-and-do-tank, talvez único em sua espécie, dedicado à construção da paz.  

Nos anos 80, ele se tornou mediador secreto em negociações entre Israel e a Organização para Libertação da Palestina (OLP), e depois com o Hamas. Seu papel decisivo na libertação do soldado israeli Gilad Shalit (cinco anos preso em Gaza) mostrou como o discurso institucional-formal de paz é um semblante para práticas que vão desde pequenas corrupções e favorecimentos locais até as peculiaridades psíquicas do rei da Jordânia e a boa vontade dos oficiais de segurança. No fundo, a permanência de Benjamin Netanyahu no poder por mais de doze anos pode ser atribuída à sua habilidade de provocar anomia e dissenso para criar urgência e demanda de tutela.  

Einstein perguntava como é possível que uma pequena súcia consiga levar a maioria a tantas perdas

A forma mais simples de proliferar o mal-entendido é retornar perpetuamente ao desencontro entre geografia e história, adiando e aumentando indefinidamente as precondições da negociação: o protetorado britânico, as fronteiras de 1948, a tomada do Sinai, a ocupação de Golan, o retorno dos refugiados para suas casas. Nisso se pratica o recalcamento dos acordos de Oslo, efeito típico da construção social de um trauma. Por meio dele Yitzhak Rabin continuou a ser assassinado nos doze anos de errância no deserto do medo e do desamparo pré-fabricado. Quem assiste de longe ao desentendimento administrado não consegue ter uma justa medida de como elementos básicos de qualquer negociação estão sendo simplesmente negados no tempo: “Pouquíssimos em ambos os lados assistem à mídia do outro, leem sua literatura, assistem a seus filmes ou sequer sabem muito sobre a sua política interna”. 

Até 2015 a exportação da crise Israel-Palestina servia de bancada para as mais diferentes mesas internacionais de negociação, de Camp David a guerras na Síria, no Iraque, no Kuwait. Negociações de paz precisam contornar obstáculos linguísticos e sociais representados pelo congelamento das relações entre árabes e israelenses, mas a realidade é composta de comunidades que majoritariamente não falam a língua do outro, mesmo que convivam a metros de distância. Uma Israel imaginária nunca poderá conter-se em seus próprios limites, assim como a Palestina imaginária se congela em algum dia de humilhação e desterritorialização infinito, um dia que nunca passa. As narrativas mágicas, míticas e religiosas são mobilizadas como um sintoma para unir no plano simbólico as deliberações, acordos e compromissos cujo marco é Oslo e a realidade da terra impossível de ser partilhada, desse universal fraturado, desse objeto fetichista de gozo chamado Jerusalém.

Medo do outro 

“Uma ideia comum tanto entre israelenses e palestinos é que ‘nós’ (em ambos os lados) queremos a paz, mas ‘nós’ não temos um parceiro para a paz do outro lado”, diz Baskin. Pessoas com medo das quase pessoas, pessoas que não se encontram, não conversam e têm ideias incrivelmente equivocadas sobre os outros. Líderes de parte a parte já disseram que isso só poderá ser resolvido “pelo contato direto entre as populações”. Talvez só assim o desencontro imaginário pode se tornar real, consequentemente tratado pela palavra. O sucesso econômico de Israel contrasta com a relativa estagnação da Palestina, onde a água e os insumos são controlados. Há anexações ilegais e áreas ocupadas sob litígio, mas como compará-las com as gerações de apátridas nascidas nos campos de refugiados na Síria e no Líbano? Gaza bombardeada nunca poderá ser posta em proporção com os mísseis feitos à base de postes de rua enxertados com pólvora e pregos enferrujados. O peso das vidas israelenses parece ser sensivelmente maior do que o das palestinas, mas nisso nos esquecemos da obscenidade que é a contabilidade de vidas. O problema da Israel imaginária e de seu duplo palestino é que isso nos leva ao analogismo pelo qual existe um único objeto e disputamos versões comparativas, perspectivas ou interpretações em torno da verdade da coisa.   

Nas grandes metrópoles brasileiras, com suas extensas periferias, semiadministradas com violência pelo Estado, desenvolvem-se formas de vida autóctones, com baixa convivialidade interseccional e efeitos continuados da segregação. Sua expansão é previsível, mas não simétrica, para seu duplo imaginário — a vida em forma de condomínio, murada, vigiada e atormentada pela violência potencial intrasseccional. Lá e cá o lado mais poderoso está começando a ter sua legitimidade questionada, com o desmascaramento do discurso da segurança. Por isso a situação Israel-Palestina é um paradigma para tratar conflitos no mundo reorganizado pelo capitalismo em chave neoliberal, assim como Auschwitz é um paradigma para pensar processos de segregação.   

Em 1932 a Liga das Nações convidou Albert Einstein e Sigmund Freud para debater o sentido da guerra. Relembremos as perguntas do físico:

1. Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra?
2. Como é possível a essa pequena súcia dobrar a vontade da maioria, que se resigna a perder e a sofrer com uma situação de guerra, a serviço da ambição de poucos?
3. Como esses mecanismos conseguem tão bem despertar nos homens um entusiasmo extremado, a ponto de estes sacrificarem suas vidas?
4. É possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destrutividade?

As perguntas de Einstein são um roteiro sintético das dificuldades enfrentadas ao longo de décadas por Baskin como mediador. A guerra adquire aqui valor da ameaça a ser evitada, não só como atos ou efeitos de bombardeios e ações militares ou paramilitares. Contudo, há um sucedâneo dessa ameaça que é a violência capilarizada, doméstica, endêmica, étnica e racialmente distribuída. Essa forma de vida, tão conhecida dos brasileiros, marcada pela violência, contingente ou colateral, representada pela bala perdida, pelo fogo amigo, pela violência de Estado —  ali onde o Estado nega a si mesmo. A cooptação dos estados de insegurança por uma pequena súcia, disposta a produzir o mal-estar da qual se apresenta como gestora. 

A atual “Engenhoca” israelense, como promessa de um governo duplo e partilhado no tempo, recupera o pacto pela palavra, a confiança mesmo na precariedade e o reconhecimento do verdadeiro inimigo dos processos de paz. A questão não é fazer ou não fazer alianças, chegar ao poder puro ou sujo, mas recuperar a aposta na palavra como processo, o que também se chamava antigamente “política”. Políticas de afastamento e redução da diversidade experiencial, o engajamento e instrumentalização de retóricas do ressentimento, pontuadas por entusiasmos indignantes, levam a vidas em estado sacrificial vetorizadas pela violência, ainda que institucionalmente perfeitas.

O pessimismo de Freud 

Freud é pessimista quanto à estabilidade e à extensão da autoridade necessária para manter a paz. Por exemplo, Yitzhak Rabin é um herói nacional em construção porque em sua memória buscaremos cumprir sua palavra formulada em Oslo, ou é um herói da guerra que deve-se vingado contra seus herdeiros, árabes e israelenses? Certas experiências traumáticas têm o efeito de coagulação da realidade. Como se a partir delas o tempo deixasse de passar do passado ao futuro, sendo substituído por uma temporalidade circular, na qual o futuro repete compulsoriamente o passado. 

Mas voltemos à respostas dadas por Freud às questões de Einstein sobre os contextos preventivos da guerra e da paz subornada: 

1. A relação entre direito e poder ou violência não pode ser pensada como eliminação do perdedor.
2. O reconhecimento de que à força superior de um único indivíduo pode se contrapor a união de diversos indivíduos fracos: a violência pode ser derrotada pela união.
3. “A fim de que a transição da violência a esse novo direito ou justiça pudesse ser efetuada, contudo, uma condição psicológica teve de ser preenchida. A união da maioria devia ser estável e duradoura. Se apenas fosse posta em prática com o propósito de combater um indivíduo isolado e dominante, e fosse dissolvida depois da derrota deste, nada se teria realizado.” 
4. “A comunidade abrange elementos de força desigual — homens e mulheres, pais e filhos — e logo, como consequência da guerra e da conquista, também passa a incluir vencedores e vencidos, que se transformam em senhores e escravos.” 

No conjunto, Freud está fornecendo elementos para questionar a tese de Walter Benjamin de que a história é sempre feita pelos vencedores, pois estes jamais se tornam verdadeiros vencedores se não puderem reconhecer e ser reconhecidos pelos vencidos: a relação entre senhores e escravos se desdobra dentro de qualquer comunidade enquanto a violência não for trasladada em pacto de reconhecimento pela palavra. Isso não é feito de uma vez por todas, mas continuamente reeditado em reatualizações periódicas como trabalho da cultura.

O termo comum entre vencedores e vencidos, entre dominados e dominadores, é o sofrimento. Essa lição atravessa o testemunho de Baskin de ponta a ponta. Desde a sua aliah em uma pequena vila árabe até a sua viagem com passaporte falso a Túnis. É a trajetória de alguém capaz de experimentar-se no sofrimento do outro e do um, sem ter que escolher qual deles teria a prerrogativa decisiva.

“O principal motivo para o fim do Movimento Juvenil Pioneiro Árabe era o fato de seus membros árabes terem sido bem-sucedidos demais na absorção dos valores e princípios do movimento socialista-sionista, o Hashomer Hatzair”, afirma Baskin. Atuando na vila de Kufr Qara, ele percebeu os efeitos prolongados da indiferença, que se cristaliza quando a diferença cultural é fonte de sofrimento e segregação, bem como a estereotipia do outro que prospera em tais situações. Narrando por dentro a discriminação de cidadãos em função de sua religião, raça ou etnia, e observando os efeitos continuados da distribuição desigual de recursos simbólicos como saúde e educação, com alunos que respondem com excesso de conformidade e reverência às perguntas do professor judeu, interpretado como autoridade de Estado. Teria sido a continuação dessa política ao longo do tempo que levou cada vez menos jovens israelenses e palestinos a acreditar na solução baseada em dois Estados. Isso aconteceu em razão de uma lógica cultural sobrecarregada pela experiência identitária.

A hospitalidade árabe é um outro tipo de dignidade e um outro tipo de honra. A não simetria surge como modelo

Pensando em minha experiência pessoal, Israel e os Territórios Ocupados são uma região caracterizada pelo multiculturalismo que percebe a si mesma como um sistema dual de oposições. Judaísmos de inúmeras raízes e ortodoxias, árabes de diversos credos, beduínos, circassianos, drusos, muçulmanos xiitas e sunitas, cristãos maronitas, cristãos ortodoxos, cristãos romanos. Um país com 27% de imigrantes da Europa e da América e 10% da África e da Ásia, 20% de judeus seculares, 17% de ortodoxos. Tudo isso deveria representar uma experiência de indeterminação identitária, mas sucede o contrário. Os tochavim, megorachim do Magreb e do norte da África, como antes deles os russos do sul, os etíopes e sudaneses, nos dão o exemplo de um enorme esforço de produção do comum. Basta lembrar a existência de um braço dos Panteras Negras em Israel nos anos 70.

“Os judeus israelenses e os árabes palestinos estão presos na visão do inferno de Sartre, ou seja, que o inferno são os outros. Não há saída. A separação não pode funcionar em uma terra tão pequena, não mais do que podia o apartheid […]. Portanto cabe a nós fornecer a resposta que o poder e a paranoia não podem dar. Não é suficiente falar em paz em termos gerais. Devem-se fornecer as bases concretas para isso, e estas só podem vir de uma visão moral, e não do pragmatismo ou da praticidade. Se nós temos que viver devemos conquistar a imaginação, não apenas de nosso povo, mas de nossos opressores. E temos que agir de acordo com os valores democráticos humanos”, afirma Edward Said.

A inversão perspectiva, a suspensão da pressão identitária, acompanhada da imersão cultural e política, surge assim como uma propedêutica a toda solução possível. Ao reunir-se com a olp, ao negociar pessoalmente com Abu Mazen e Yasser Arafat, assim como indiretamente com a equipe de Rabin, Baskin mostra como sem um espaço de experiência compartilhada da cultura não haverá caminho para a paz. Enquanto cada qual demandar que sua própria língua seja o esperanto para qualquer conversa possível, continuaremos a viver de monólogos e a perseverar na desigualdade.

Nesse ponto o livro traz uma preciosa ideia do mundo islâmico: hospitalidade. Ao caminhar pelas vilas palestinas e escutar o fdadel (pode entrar), ao ser incitado a falar hebraico (porque nós queremos entender a língua do outro), ao aprender a deixar um pouco de comida para que o prato não fosse cheio novamente, Baskin descobre como a hospitalidade árabe é um outro tipo de dignidade e um outro tipo de honra. Aqui a não simetria e a intradutibilidade de experiências surgem com um modelo. Em vez da tradução perfeita e do universal da linguagem que fariam todos nos compreendermos sem ruídos e sem ambiguidades, a reparação da palavra. O reconhecimento de zonas de incomensurabilidade, na qual o dualismo das identidades se vê substituído por um perspectivismo da escuta.

Outro caso exemplar é o lugar do diwan, ou seja, algo análogo ao divã dos psicanalistas. Nele entramos deixando os sapatos de fora e acolhendo as mulheres e as crianças. Não é como a sala de estar para ocidentais, onde nossos papéis e posições são respeitados ou postos à prova pela fria diplomacia. O divã é o lugar da mistura e do estrangeiro, da palavra compartilhada como indeterminação produtiva. Foi assim como xamã e diplomata entre mundos que Baskin nos contou sua aventura. Com a hospitalidade daquele que se sabe estrangeiro a si mesmo. 

Este texo foi realizado com o apoio do Instituto Brasil-Israel.

Quem escreveu esse texto

Christian Dunker

Psicanalista, escreveu Reinvenção da intimidade (Ubu).

Matéria publicada na edição impressa #47 em maio de 2021.