Literatura infantojuvenil, Meio ambiente,
Reflorestamento do imaginário
Fabulação de Nelson Cruz convida a repensar as formas de convivência entre os seres
01out2025 | Edição #98A emergência climática se agudiza a cada dia. Esforços para lidar com os danos dessas violências, elaborá-los e repará-los são feitos de múltiplas maneiras. A literatura é um desses campos, e nela pode haver um convite para repensarmos formas de convivência com os demais seres. Foi assim que senti A profecia animal, de Nelson Cruz, como um convite à reflexão.
Logo na sequência ao Artigo 2º da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, que abre a fábula, Cruz avisa o leitor:
Acontecerá um dia.
Em algum lugar do planeta, alguém, criança ou adulto, observará que algo incomum ocorre aos animais.
Com essas frases, e a ilustração de uma enorme baleia azul que carrega nas costas uma girafa que carrega nas costas um macaco, Cruz nos apresenta um mundo diferente.
As perspectivas sobre a preservação da biodiversidade no planeta, mesmo que unidas por uma pauta comum, podem ser variadas. Afinal, em um mundo onde há um ecossistema de línguas, costumes e modos de vida, também há um ecossistema de diferentes expressões artísticas.
Ao criticar a devastadora centralidade do humano no planeta, corremos o risco de repetir a mesma centralização
Ao criticar a devastadora centralidade do humano no planeta, corremos o risco de repetir a mesma centralização em nossas críticas. Nesse sentido, gostei muito da provocação do autor quando trouxe, em sua fabulação, um cenário em que os cachorros não perseguem mais os gatos, nem estes os ratos e pássaros. Imaginar uma floresta, uma natureza onde não haja agressão entre os bichos, em que todos os seres convivam em paz e união, é uma possibilidade de algo diferente e subversivo? Ou é uma projeção do que o humano acredita como bom para si?
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Outra cena que toca nesse aspecto foi o momento em que:
animais de diferentes espécies estarão conversando e os humanos entenderão o que eles dizem. Ocorrerá, então, que em vários países, animais não farão mais questão de se esconder e revelarão que desenvolveram uma língua nova e que conversam entre si.
Ao mesmo tempo que o autor nos convoca a considerar um mundo em que os animais conversam em uma linguagem compreensível aos humanos, a cena nos faz refletir sobre outros regimes de inteligibilidade. Seria possível haver comunicação, sensibilidade, empatia e conexão entre seres que não falam a mesma língua? Como poderemos nos cuidar a partir de nossas diferenças? Como reconhecer os demais seres como gente, como pessoas, mesmo que não se comportem como os civilizados? Essa tarefa nos chama para uma implicação ética radical.
Corresponsabilidade
Os exercícios de fabulação, de imaginação e de invenção são parte do que tenho chamado de “reflorestamento do imaginário”. Por meio dessa experimentação, às vezes acabamos por perceber que aquilo que julgamos inexistente já compõe outras realidades.
Quando o autor cita o momento em que “algum animal dirá: ‘não conseguimos conceber a ideia de que um ser humano possa se considerar proprietário de outro ser vivo’”, eu penso: nós, povos indígenas, já temos essa compreensão. Então a fábula, na mesma medida em que projeta um amanhã possível, nos faz olhar para o aqui e agora.
A literatura não é obrigada a ter um compromisso em descrever a realidade, nem com nenhum marcador político e social, mas é possível criar e, ao mesmo tempo, voar com os pés no chão. É um pouco essa beleza que a fábula — direcionada ao público infantojuvenil, mas pertinente a pessoas de qualquer idade — traz.
A quem ler caberá sentir o que as imagens lhe oferecem. Porque, concordemos com o autor ou não, talvez a parte mais preciosa seja justamente o convite a uma corresponsabilidade nesta trama que nos envolve a todos.
Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025.
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