Divulgação Científica, Literatura infantojuvenil,

Ervas mágicas

Biografia ilustrada conta a história da chinesa Tu Youyou, Nobel de Medicina que descobriu nas plantas a cura para a malária

01out2021 - 08h17 | Edição #50

O que faz uma garota se encantar com os saberes tradicionais a ponto de crescer e se tornar uma cientista que deixa uma marca inestimável na história da humanidade? Durante os anos 60 e 70, quando a Ásia e a África enfrentavam a pandemia da malária, foi a paixão pelas ervas medicinais chinesas que fez Tu Youyou transformar sua curiosidade de criança em pesquisa e cura. Espinheiro-da-montanha, tanchagem, rosa-cherokee e artemísia: são esses nomes populares que abrem o livro ilustrado A menina que amava as plantas e convidam o leitor a mergulhar em um mundo unido pela ciência e pela ancestralidade.

A publicação marca a estreia da editora Cai-Cai, que pretende apresentar a produção literária não ocidental a jovens leitores. Escrito pelo premiado autor chinês Xu Lu, ilustrado pela jovem e também premiada autora italiana Alice Coppini e traduzido do chinês pela professora e sinóloga brasileira Verena Veludo, o livro conta como Tu Youyou ajudou a salvar milhões de vidas ao descobrir a cura para a malária, o que lhe rendeu o Nobel de Medicina em 2015.

Hoje com noventa anos, Youyou é apresentada em uma atmosfera calorosa e um contexto urbano e rural. A narrativa a acompanha desde o cotidiano comum ao sucesso tenaz. A curiosidade e o fascínio infantis pelas plantas cativam a cada página, tornando a leitura um lugar de representatividade para as crianças que também se veem atraídas pela magia da natureza, pelas histórias orais e pelos processos científicos, repletos de hipóteses e descobertas — algo tão natural e similar à forma de brincar (ou ser).

O livro mostra como nossas paixões infantis podem motivar verdadeiros feitos históricos

A pequena protagonista observa desde as menores ervas até as árvores mais exuberantes. Fisgada por um ancião que pratica a medicina chinesa e que todos os dias passa por sua rua carregando uma cesta de coleta de ervas, ela também começa a colecionar nomes e propriedades, compartilhando com sua família o que cada espécie representa.

O tempo passa e a garota, única mulher entre cinco filhos de uma família de intelectuais da cidade de Ningbo, província de Zhejiang, decide estudar fitoterapia. Ela se torna pesquisadora na Academia de Medicina Tradicional Chinesa e, em 1969, é contratada pelo governo chinês para buscar nas florestas tropicais do país uma solução para a malária. Após inúmeras buscas e fracassos, ela consegue identificar e sintetizar a planta certa para a cura.

Tradição milenar

Longe de distorções ocidentais que veem a medicina chinesa como uma pseudociência, o livro comunica com rigor e equilíbrio a base dessa tradição milenar. Estão ali o amor pelas plantas, a observação cuidadosa de sua interação com o meio ambiente, os estudos e as pesquisas, o trabalho em equipe e a valorização dos métodos científicos no encontro de remédios eficazes. Elementos textuais e visuais colocam o leitor em contato com a cultura chinesa em diversos momentos.

Uma curiosidade é que na edição brasileira, diferente das versões italiana e norte-americana, o nome das plantas é mantido no idioma original quando aparecem como imagem. As ilustrações de Alice Coppini, que focam tanto as paisagens quanto os grandes detalhes em primeiro plano, combinam esboços e linhas pictóricas e organizam presente e passado.

A admiração pelo ancião, por exemplo, deixa a personagem sozinha na página com ele já no início do livro. A cor do vestido da menina, vermelho, se mantém por dentro do jaleco anos depois, já cientista. A garota que espia com entusiasmo os vidros de plantas catalogadas do mestre mais tarde constrói uma farmácia similar no laboratório onde trabalha.

A obra termina com o autor revelando os três motivos que o motivaram a escrever essa história: a perseverança da cientista que não abandonou seus sonhos de criança nem seus ideais, a valorização dos mestres da medicina e da cultura tradicionais chinesas e as suas próprias experiências — tendo crescido no campo, Xu Lu chegou a vender ervas secas quando criança para comprar gibis, livros e lápis.

A menina que amava as plantas é um bom exemplo de como um tema científico pode ser incluído em uma estrutura narrativa sem diminuir a sabedoria popular. É um livro sensível, que mostra como nossas paixões infantis podem motivar verdadeiros feitos históricos e, mais do que isso, como descreve a editora Thaisa Burani, “comprova que as realizações literárias e científicas nascem da curiosidade e não conhecem fronteiras”.

Este texto foi feito com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Thais H. Caramico

É sócia-fundadora do Estúdio Voador, especialista em Livros e Literatura Infantil e Juvenil e idealizadora do projeto Biblioteca de Fora, onde apresenta sua coleção de livros sobre a natureza (para seres vivos de todas as idades).

Matéria publicada na edição impressa #50 em agosto de 2021.