Aprender a fluir

Literatura infantojuvenil,

Aprender a fluir

Água, de Suzy Lee, leva crianças e adultos a arriscarem o mergulho para voltarem transformados da leitura imersiva

01out2025 • Atualizado em: 30set2025 | Edição #98

Acompanho o trabalho de Suzy Lee há muito tempo. Ler Onda (Companhia das Letrinhas, 2017)foi como mergulhar pela primeira vez: o livro não estava diante de mim, estava dentro. Ali percebi que a página pode ser mais que suporte — pode ser corpo em movimento, experiência física, mar que insiste em ultrapassar seu limite.

Com Água, essa descoberta retorna de modo mais radical. Inspirado na canção “Dream of Becoming Water”, de Lucid Fall, o livro sanfonado carrega em cada vinco o ritmo de uma melodia líquida. Ao desdobrá-lo, vejo a aquarela azul se espalhar e a criança se lançar ao mergulho, sinto que as páginas respiram comigo.

A narrativa é mínima, porém inesquecível: uma criança encontra o mar, aproxima-se, arrisca o mergulho e volta transformada. O preto do traço, o branco do papel e o azul da aquarela compõem uma partitura em que cada dobra é onda e cada silêncio, respiro.

Lee sempre explorou as margens do livro. Como em Onda, em Espelho e Sombra (Companhia das Letrinhas, 2021 e 2018), a dobra central se apresenta como fronteira entre mundos. Em Água, não há fronteira: apenas uma corrente contínua que se abre diante do leitor. A leitura se torna gesto: quem lê define o tempo, a cadência, a intensidade da imersão. Em certo momento, já não sabemos se conduzimos o livro ou se é ele que nos conduz.

Inventores

Abrir Água, livro desdobrável, é também encarar o mar que se retrai. Cada abertura me lembra que os oceanos não são paisagem, são sobrevivência. A criança que se mistura à água não é apenas metáfora: é alerta. Tornar-se água é assumir o compromisso de preservá-la.

Esse diálogo se estende a artistas que admiro. O escritor e ilustrador australiano Shaun Tan usa a mudez para narrar deslocamentos e perdas: mineral, seu silêncio pesa. O artista brasiliense Roger Mello, ao contrário, explode cor e traço: quando o leio, sinto a página vibrar como desfile, radicalmente brasileiro. Sua exuberância me lembra que o excesso pode ser resistência estética. Lee conversa com ambos, mas prefere conter tudo em azul, branco e suspensão.

Inspirado em canção de Lucid Fall, o livro carrega em cada vinco o ritmo de uma melodia líquida

Também vejo nela a continuidade de uma linhagem de inventores do livro. Bruno Munari fez do papel um brinquedo de oficina, engenho de curiosidade e surpresa. Katsumi Komagata, em outra direção, transformou cada dobra em arquitetura delicada, escultura portátil que só existe nas mãos de quem lê. Suzy Lee herda esse espírito e o devolve em estado líquido: em Água, o livro não descreve, ele acontece.

A edição brasileira preserva esse caráter experimental. Mais que traduzir, oferece um objeto para ser manipulado. Livro, instalação, rito — tudo ao mesmo tempo. Para crianças, é jogo e descoberta. Para adultos, é reencontro com o espanto — e com a responsabilidade de lembrar que a água do papel é a mesma que nos sustenta por dentro.

Água prolonga o gesto que Onda inaugurou: o livro como organismo vivo. Agora, o limite não é mais a margem, mas nossa disposição de nos deixar atravessar por ele. E talvez esta seja a lição mais urgente: ler não é apenas decifrar páginas, é aprender a fluir. Como na canção de Lucid Fall que o inspira, o livro oferece um desejo simples e profundo — sonhar em tornar-se água.

Quem escreveu esse texto

Daniel Kondo

Artista gráfico, é coautor de Eletricista (Elo).

Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025. Com o título “Aprender a fluir”

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