Literatura infantojuvenil,

A personalidade das flores

‘De natura florum’ traz 24 verbetes de Clarice Lispector, delicados e divertidos, nos quais descreve variadas espécies de flores

01jan2022 - 05h51 | Edição #53

Se Clarice Lispector já havia presenteado o leitor infantil com seus contos divertidos, em que coelhos e galinhas pensam e sentem como gente e as histórias são narradas por uma voz autoral que muito respeito possui pela inteligência das crianças, este De natura florum era a obra que faltava para levar ao pequeno leitor uma outra e mais profunda delicadeza, igualmente divertida e respeitosa. São 24 verbetes sobre diferentes espécies de flores, publicados inicialmente como crônica no Jornal do Brasil, na década de 70 — período em que ninguém menos que Marina Colasanti fazia a revisão dos textos da autora para o jornal. Segundo ela, “Clarice sempre quis ser flor e, graças à sua escrita absolutamente inigualável, o conseguiu”.

Neste pequeno dicionário floral, a genialidade da autora assume dicção poética que, ao lado das maravilhosas ilustrações da premiada artista espanhola Elena Odriozola, literalmente dá vida às espécies botânicas. Um certocomportamento atribuído às flores A personalidade das flores literatura brasileira De natura florum traz 24 verbetes de Clarice Lispector, delicados e divertidos, nos quais descreve variadas espécies de flores por Clarice é captado com graça e leveza nos desenhos minimalistas que acompanham cada verbete.

O primeiro, dedicado à rosa, lembra o poema “Borboletas”, de Vinicius de Moraes, já que as cores são atributos essenciais: “As vermelhas ou as príncipe negro são de grande sensualidade. As amarelas dão um alarma alegre. As brancas são a paz. As cor-de-rosa são em geral mais carnudas e têm a cor por excelência. As alaranjadas são sexualmente atraentes”. Acompanhando o verbete, duas mulheres esguias e elegantemente vestidas de verde trazem rosas vermelhas abertas nos chapéus. Destacam-se os corpos entrelaçados, reverberando a sensualidade descrita no texto. São assim as ilustrações de Odriozola: um universo visual paralelo, em sintonia fina com o texto.

Beleza e agressividade

Um dos verbetes parece desafiar a ilustradora, ainda que Clarice e Elena nunca tenham se conhecido. Ao descrever o cravo como flor agressiva e irritada, diz Clarice: “Os cravos vermelhos berram em violenta beleza. Como transplantar o cravo para a tela?”. Pois há na figura humana andrógina, representada na ilustração que acompanha o texto, cabelos vermelhos que muito lembram as pétalas arrebitadas do cravo e um ar de agressividade e irritação que se expressam numa feição facial exata. E quem poderia imaginar o girassol como uma flor masculina, russa e provavelmente ucraniana? Clarice, claro! Para representar esse modo peculiar de ler os girassóis, Odriozola retrata um pequeno exército com homens uniformizados em verde, amarelo e marrom, as cores da flor, devidamente enfileirados.

Na violeta reconhecemos a Clarice existencialista: ‘Ela se esconde para poder entender o seu segredo’

O girassol não é a única flor descrita como masculina pela autora: palma e estrelícia também o são. Estrelícia tem crista de galo, mas não precisa esperar a autora para florescer, “quando se a vê, ela dá seu grito visual de saudação ao mundo e sempre está em aurora”. Na página da estrelícia passeiam beija-flores, besouros e caramujos. O universo paralelo de Odriozola consegue levar a passeio o olhar do leitor, até mesmo dos mais vidrados claricianos. As pequenas criaturas orbitam em torno da poética da autora.

No verbete da violeta reconhecemos a Clarice existencialista e melancólica: “É introvertida, sua introspecção é profunda. Ela não se esconde, como dizem, por modéstia. Ela se esconde para poder entender o seu próprio segredo”. Na ilustração, uma sóbria senhora, de costas para o leitor, veste um casaco florido em tons de azul-violeta, com uma borboleta pousada.

É no verbete da margarida que parecemos encontrar o terreiro onde ciscavam Laura e o galo Luís, personagens do livro infantil A vida íntima de Laura. Há uma alegria vibrante no texto e uma galinha gigante ciscando, ao fundo da imagem de crianças em roda. As referências se ramificam, brotam e se multiplicam. Cada leitor terá sua espécie favorita neste De natura florum. A minha, com licença de compartilhar, é a vitória-régia: “elas são o Brasil grande. Evoluentes. (…) A um tempo majestosas e simples”.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social.

Quem escreveu esse texto

Cristiane Tavares

É crítica literária, coordena a pós-graduação Literatura para crianças e jovens no Instituto Vera Cruz (SP).

Matéria publicada na edição impressa #53 em outubro de 2021.