Literatura infantojuvenil,

A cor mais vaidosa

Narrativa visual construída com formas mínimas e cores chapadas lembra “Flicts” e mostra que letra, palavra e texto também são desenhos

27set2023 - 17h44 | Edição #74

PREMER PARA PARAR, era o que dizia o botão rechonchudo vermelho, com letras em caixa alta, que habitava o painel de comando do elevador da minha infância. Encapsulado na cabine espelhada, via e me via com a enorme angústia de conviver com aquela esfinge. premer, o que diabos é “premer”? O texto em maiúsculas impresso sobre o volume cilíndrico vermelho era um convite urgente a uma ação que, intuía, não deveria fazer.

Subir e descer significava lidar com esse conflito que, por sorte, não durava mais do que alguns andares. Porém, por azar, era rotineiro.

Vemos que da angústia à paranoia, da emergência à esperança, o vermelho dá pano para manga

Hoje, como profissional da comunicação, não tenho dúvidas que o vermelho, mais do que as letras em caixa-alta e o mal uso de nosso léxico, era o principal agente de meu tormento. Se o botão fosse azul, não estaríamos tendo essa conversa.

Assombro do patriota

Quarenta anos depois, o senhor enrolado em tecido verde-amarelo no calçadão de Copacabana em 2019 esbraveja: “Nossa bandeira jamais será vermelha”. Cromaticamente falando, o mesmo vermelho que me desafiava na cabine Atlas é o que assombra o senhor patriota. Em tudo mais diferente, vemos que da angústia à paranoia, da emergência à esperança, o vermelho dá pano pra manga.

Vaidade é o principal traço psicológico do vermelho, nos conta o livro de Alejandra González e Daniel Kondo, O vermelho vaidoso, lançado pela wmf Martins Fontes. Ele se gaba por sua força, intensidade e vibração. Jacta-se por tonalizar a maçã, o morango e a cereja; por fazer os carros pararem no semáforo e por ser a cor dos aventurosos caminhões de bombeiro. O vermelho se acha, como diz o meu filho. E pensando no vermelho, e em sua empáfia, me lembrei do Flicts, leitura constante naqueles tempos em que andar de elevador era um tormento.

No clássico livro de Ziraldo, Flicts é um tom, algo como um bege, um amarelo-queimado, que vivia triste por não encontrar o seu lugar no mundo. Nada tinha sua cor, e por isso era rejeitado por todo o espectro cromático. Flicts era, portanto, uma espécie de antípoda de nosso vermelho vaidoso.

Filhote da corrida espacial

Escrito em 1969 e publicado pela editora Expressão e Cultura, Flicts, o personagem, tem um fim a um só tempo feliz e melancólico. Embora acabe se encontrando em algum lugar, esse lugar está a 384 400 quilômetros daqui. Filhote da corrida espacial, Flicts ecoa também o estranhamento geral que vivíamos enquanto nação. Imagino que era mesmo difícil se reconhecer por aqui naquele momento.

Já o vermelho, que se reconhecia a cada esquina, vai ter sua onipotência relativizada pela ciência — e assim nos contar que, felizmente, os tempos são outros. É por meio da física óptica que seus colegas coloridos vão fazê-lo entender que aquilo que vemos como vermelho é tudo, menos vermelho. Assim, compreendendo-se como parte de um coletivo, o vermelho passa a enxergar o seu papel no mundo.

Tudo é desenho

No livro, Daniel Kondo constrói uma narrativa visual por meio de formas mínimas e cores chapadas. Assim, a lembrança de Flicts não me ocorre apenas pela temática. No discurso gráfico de Kondo, que parece ter sido aprendido com Ziraldo, letra, palavra e texto também são desenhos. Entendo a coisa assim, tudo está a serviço, ao fim, do desenho da página.

E, como parece ser nos livros ilustrados mais interessantes, é impossível distinguir projeto gráfico de ilustração em ambos os casos.

De volta à cabine, digo que premi. E ao fazer, senti meu sangue vermelho correr pelas artérias no momento em que, como prometido pelo botão, o elevador parou. Me olhei no espelho, meu rosto era uma versão — mais pálida — de Flicts.

Quem escreveu esse texto

Daniel Trench

É um dos autores do projeto gráfico da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #74 em setembro de 2023.