Literatura infantojuvenil,

A beleza e a fragilidade da vida

Clássico infantil é uma boa leitura para pessoas de todas as idades que queiram lidar de forma mais honesta com a radicalidade da morte

19abr2023 - 11h05 | Edição #69

Hanami é uma palavra japonesa que aprendi há alguns anos e que nomeia um costume tradicional do Japão voltado à contemplação da beleza das flores, em especial a da sakura, a flor de cerejeira. Embora belíssimas, criando paisagens densas e delicadas, essas flores costumam ter vida bem curta, em especial se comparada com a nossa. Por isso, a alegria de sua chegada também vem misturada ao anúncio de sua partida, e o hanami, mais do que um reconhecimento da beleza do florescimento, passa a ser também o da beleza da efemeridade.

Na cultura oriental, o tema da morte, ou da finitude, parece menos assustador. Já na ocidental, a ideia da fragilidade da existência vem acompanhada de tamanha angústia que achamos por bem recalcá-la, focar nas histórias de além-vida ou nos dedicar ao empenho hercúleo de transformar essa vida, a nossa vida comezinha, atravessada de um ou de outro acontecimento fantástico, em uma vida memorável, para que sejamos capazes de perdurar. Nas crianças que temos, nos livros que escrevemos, nos projetos que fazemos.

Uma grande parte da ambição que nos impede de viver o presente vem dessa posição, no mínimo desajeitada, diante do enigma que nos desafia. O que significa morrer? Como pode ser concebível a ideia de deixar de existir, depois de ter existido tanto?

Recorrer à religião, ou a qualquer forma de crença que ofereça hipóteses mais reconfortantes, é compreensível e legítimo. Mas será que essa é a única forma possível de conversar sobre a morte? Aderindo a uma descrença de sentido — se vivemos para morrer, qual o propósito? — ou a teorias oferecidas por quem, com sorte, de forma misteriosa, tem um pouco mais de informação extraoficial e pode nos contar como seria?

Talvez possamos aprender algo sobre finitude e beleza, e também sobre luto, com grandes artistas

Penso que nenhum dos dois caminhos enfrenta o assunto de verdade, ainda que não precisemos enfrentá-lo de maneira heroica. Vamos como podemos, titubeantes conforme nos aproximamos do abismo. Mas o esforço que temos que fazer para evitá-lo é exaustivo e fracassado de saída. A morte existe e é quase sempre inoportuna, somos confrontados com isso quando menos esperamos.

Muitos livros oferecem processos para buscar e sustentar um sentido na vida, apesar de sua finitude. Outros fazem promessas de mundos desconhecidos, de experiências intangíveis. E sobre a morte, ela mesma, o que temos é pouquíssimo, em especial nos livros dirigidos às crianças.

No clássico infantil O pato, a morte e a tulipa, do escritor alemão Wolf Erlbruch, a morte é uma das protagonistas e, ainda que o grande tema seja a beleza da vida, é de uma beleza frágil e efêmera que o autor e ilustrador trata. Algo parecido, talvez, com a ideia do hanami. A morte está diante do pato, o pato se debate diante dela e faz perguntas que todos nós nos fazemos, embora encontremos respostas mais sensíveis e desconcertantes do que as que costumamos receber.

Pato e morte se contemplam, e contemplam algo do pouco tempo que compartilham. São tocados um pelo outro sem que, com isso, o autor ceda a uma solução artificial e simplista, sem que precise recorrer à negação. A morte chega, enfim, e é triste, mas o encontro também é bonito, e o corpo do pato segue, acompanhado de uma tulipa, uma flor delicada e frágil como a da cerejeira. Mais importante: a morte não é retratada com vilania, mas como parte da própria vida, indissociável dela.

Freud

É difícil ler Erlbruch sendo psicanalista e não pensar em Sigmund Freud e nos conceitos de pulsão de vida e de pulsão de morte, apresentados no texto “Além do princípio do prazer”. A ideia complexa de que talvez a pulsão de morte possa trabalhar, numa medida equilibrada, em favor da própria vida, foi perturbadora desde o início, e continua sendo um século depois. Talvez seja difícil imaginar que exista em nós uma pulsão, que aqui vou chamar de forma imprecisa de desejo, um desejo de retornar a um estado inorgânico, de inexistência.

Freud diz que talvez a morte nos encontre porque precisamos dela do ponto de vista psíquico. Que a ideia de morte dá contorno e significado à ideia de vida, como um contraponto, sim, mas também como uma máquina engenhosa que trabalha a partir da integração dessas duas forças aparentemente opostas.

Com poucas palavras e com imagens tão lindas quanto melancólicas — uma mistura de técnicas de desenho e colagem que produz um efeito único —, O pato, a morte e a tulipa transporta pessoas de todas as idades para uma espécie de bolha compartilhada entre os personagens, uma bolha afetuosa mas ambígua, confusa, com muitas perguntas e poucas respostas, numa honestidade que é difícil ver dirigida às crianças, talvez porque essas feridas ainda estejam abertas nas pessoas adultas.

O livro de Erlbruch é recomendado para leitores a partir de seis anos — que podem suportar alguma angústia, que não devem ser tratados com condescendência, sob a pena de causar ainda mais sofrimento. Com sua simplicidade comovente, com sua beleza gráfica extraordinária, O pato, a morte e a tulipa pode, quem sabe, ser o começo de uma conversa mais honesta e horizontal — não apenas com nossas crianças, mas também com todo esse “não saber” que carregamos conosco.

É preciso nos libertar dos devaneios egoicos para apreciar a ideia de que, depois de nós, o lago vai continuar existindo, o mundo vai continuar existindo, e que, aos poucos, seremos esquecidos, mas nem por isso nossa existência está sendo negada.

Estivemos aqui, estamos aqui, por quanto tempo quem é que sabe? Como gostaríamos de poder dar garantias às pessoas que amamos, como gostaríamos de poder confortar a nós mesmos diante da ideia assustadora dessa perda maior. Mas talvez possamos aprender algo sobre finitude e beleza, e também sobre luto, não apenas com grandes pensadores como Freud, mas com grandes artistas e almas sensíveis como Erlbruch.

Que presente essa obra, publicada originalmente em 2018, ser agora republicada, depois de um longo hiato em que ficou indisponível no Brasil. Para a nossa sorte, o livro está de volta, desconcertante, acolhedor e verdadeiro como poucas obras são.

Quem escreveu esse texto

Fabiane Secches

É psicanalista e pesquisadora de literatura na Universidade de São Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #69 em abril de 2023.