Graciliano diante do desenho de Portinari, 1937 (Kurt Klagsbrunn/Divulgação)

Biografia,

Vinte palavras girando ao redor do sol

Com prosa enxuta, especialista em Graciliano Ramos traz uma avaliação lúcida e atualizada do material bibliográfico sobre o escritor alagoano

04set2026

Não gostava de vizinhos, tinha horror a quem falava alto, detestava rádio, telefones e campainhas. Indiferente à música, adorava crianças e esteve na prisão duas vezes. Tinha só cinco ternos de roupa, poucas dívidas, e gostava de beber aguardente. Não apreciava frutas nem doces. Escrevia todos os seus livros pela manhã, sempre à mão, e gostava de palavrões (escritos e falados). Sua leitura predileta: a Bíblia. Era ateu.

Em 1948, poucos anos antes de sua morte, o escritor Graciliano Ramos escreveu um breve “autorretrato” no qual passava a limpo cinquenta anos de uma vida marcada por certa contenção e frieza, por uma espécie de mau humor (que, no conjunto, tinha a sua graça) e, sobretudo, pela quase ausência de fatos extraordinários. Vida que àquela altura parecia caber em menos de duas páginas do caderno cultural de um jornal qualquer.

Escrito em terceira pessoa, o autorretrato de Graciliano abusava de sua representação como um homem comum: casado duas vezes, sete filhos, calçava 41, media 1,75 metro de altura, colarinho 39, usava óculos, meio calvo, poucos amigos e ainda menos desejos. Só mesmo as prisões por motivos políticos destoavam de uma vida que poderia ter sido vivida por qualquer cidadão mais ou menos ordinário de meados do século 20.

No entanto, o cidadão Graciliano Ramos escreveu alguns dos livros mais marcantes da nossa literatura, como Vidas secas, S. Bernardo e Memórias do cárcere. E desde então passou a ser objeto de uma série de relatos a respeito inclusive da sua vida, mas principalmente de análises de sua obra.

Graciliano Ramos lendo Vidas Secas (Acervo Octávio Dias Leite/AEM/UFMG)

Apesar do título — Graciliano Ramos: vida e obra —, o mais recente estudo publicado sobre o autor se concentra mais na ficção que ele produziu — a sua vida servindo, em linhas gerais, como contexto para a compreensão da sua literatura.

Escrito pelo crítico e professor de literatura Wander Melo Miranda, um dos nossos maiores especialistas em Graciliano, o livro reúne mais de cinquenta anos dedicados ao estudo do autor. Pelo menos desde sua tese de doutorado, Corpos escritos, defendida em 1987 e publicada em livro em 1992 pela Edusp, no qual se dedicou aos trabalhos de Graciliano e Silviano Santiago, Melo Miranda nunca deixou de reler e escrever sobre aquele que considera, ao lado de Guimarães Rosa, o maior prosador brasileiro do século 20, como chega a dizer no livro — uma injustiça com Clarice Lispector.

Em meio a tanto desalinho, o livro de Melo Miranda é também feito com humor, com uma prosa solta

Apesar do histórico, Melo Miranda escreveu um livro fácil de ler, com uma prosa solta e enxuta, sem grande pretensão acadêmica, em um volume relativamente magro para um projeto de tal monta — magro como era, aliás, grande parte dos livros do seu objeto de pesquisa. Ou seja, o vasto conhecimento que o estudioso adquiriu sobre a obra de Graciliano não se traduziu em um livro palavroso, mas sóbrio e decantado.

Nem tudo foi dito por Graciliano sobre sua vida no retrato que fez de si mesmo, obviamente. Nele, Graciliano não falou de sua infância truculenta e infeliz, das sucessivas penúrias financeiras ao longo dos anos, do tremendo sofrimento na prisão arbitrária que sofreu em 1936, da perda precoce da primeira esposa, nem da sua hilária mania de limpeza, com a qual o autor do livro se diverte.

Documento assinado por Graciliano Ramos como Inspetor Federal de Ensino no Rio de Janeiro em 1940 (Centro de Estudos Literários e Culturais da UFMG/Divulgação)

Embora a pesquisa de Miranda não seja exaustiva nem busque ineditismo, não se valendo de novas entrevistas ou de grandes descobertas, o autor faz um apanhado e uma avaliação criteriosa, lúcida e atualizada do material bibliográfico já existente sobre o autor — além de reler com destreza o conjunto dos próprios textos de Graciliano, como cartas, memórias e documentos administrativos, além da ficção.

Infância truculenta

Uma história importante do livro é a surra que Graciliano, na primeira infância, leva do pai. Mesmo após o pai ter se dado conta da completa arbitrariedade da situação, não pede desculpas ao menino. Décadas depois, o escritor contou o episódio à própria filha, Clara Ramos, acompanhado de uma conclusão bem ao seu estilo: “Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça”. E confessou: “Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima [], uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro”.

A história importa não só pelos efeitos que tem sobre a personalidade do escritor, mas também pela marca que o tema imprimiu nos seus livros: a arbitrariedade do poder talvez seja o material mais marcante da obra de Graciliano, presente em quase toda a sua literatura, como notou o próprio Melo Miranda. A história de infância também é exemplar do procedimento do crítico no livro: o relato da vida vale sobretudo pelo que pode dizer e repercutir na literatura.

Graciliano teve outros traumas de infância com profundos ecos em sua produção literária, embora menos doloridos, como a leitura forçada da obra de Camões, com seu vocabulário preciosista, a sintaxe invertida, o tom altissonante, tudo que a literatura do nosso autor passou depois a rejeitar.

‘Peço-lhe que não leia’

Em meio a tanto desalinho, o livro de Melo Miranda é também feito com humor. Crítico implacável da literatura dos outros e principalmente da sua, Graciliano capricha nas dedicatórias que faz em seus livros, como esta a Cassiano Ricardo, em Caetés: “Peço-lhe que não leia essa droga. É pavorosa”. Na prisão, ao se deparar com um companheiro lendo um dos seus romances, diz com repugnância: “Pelo amor de Deus não leia isso, é uma porcaria”. Refere-se a um conto, “A carta”, como “uma coisa horrorosa, uma pinoia”. Sobre S. Bernardo, o que diz chega a ser até um elogio: “É menos ruim do que Caetés, mas não chega a ser um romance”.

Entrevista de Graciliano a José Guilherme Mendes para a Manchete, Rio de Janeiro, de 15 de novembro de 1952 (Divulgação)

Os amigos também não escapavam de sua língua. Miranda conta que o sergipano Joel Silveira, recém-chegado ao Rio, dá para Graciliano um conto seu, em busca de comentários e de uma possível aprovação. Graciliano lê as páginas devagar e, diante do amigo, rasga o texto em pedacinhos, sem fazer nenhum comentário. Então convida: “Vamos tomar uma cachacinha”. Anos depois, ao perguntar ao mestre se o conto era mesmo ruim, Joel Silveira recebe dele a seguinte resposta: “Era uma coisa horrorosa, das piores que já li. Eu te fiz um grande favor ao rasgá-lo”.

A arbitrariedade do poder talvez seja o material mais marcante da obra de Graciliano

A grande contribuição do livro de Melo Miranda consiste, no entanto, em mostrar como a obra de Graciliano foi se consolidando na história da literatura brasileira, ao repassar a recepção do autor livro a livro, estudando desde o início algumas das suas principais leituras, quase sempre vinculado à vida do escritor.

Como lembra a certa altura, o poeta João Cabral de Melo Neto, que viu em Graciliano um mestre, embora os dois tenham atuado em gêneros literários distintos, resumiu assim seu estilo e sua obra: “As mesmas vinte palavras/ girando ao redor do sol”.

Ademais, apesar de o livro não se propor a defender novas teses sobre a obra de Graciliano, ensaia leituras originais, por exemplo ao comparar Vidas secas à obra de Kafka:

Estar aquém da lei: situar‑se num limiar impreciso ou muito nítido, onde a barbárie se mostra tão natural quanto os riachos secos, o sol forte, os animais mortos de fome e sede.

Na sequência, ao tratar da naturalização da violência na sociedade brasileira, “preocupação constante do escritor” em muitos de seus livros, Miranda lembra uma formulação de Hannah Arendt que reflete sobre um senso de justiça e liberdade que se modifica na medida em que é submetido à “consciência intensificada da realidade”.

Lucidez autoirônica

Ao longo do livro, Miranda também destaca dois dos aspectos que considera os mais marcantes da personalidade e da literatura de Graciliano: além da honestidade implacável, também uma rara e notável coerência. Nesse sentido, mesmo a militância política do escritor, coerente do ponto de vista ideológico com a sua atividade literária, conforme Melo Miranda demonstra, “não restringe a necessidade de expressão artística aos limites da ação partidária, em virtude da sua lucidez autoirônica”.

No fim, pelo menos dois depoimentos confirmam o vínculo forte entre vida e obra presente na trajetória de Graciliano, força motriz do livro. Em uma entrevista, o próprio escritor chegou a confessar: “Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou”. E Otto Maria Carpeaux, em obituário, assim definiu Graciliano: “Há casos em que a obra não se pode separar da vida. Em Graciliano Ramos, por exemplo, não sabemos o que é superior: a obra do grande escritor ou a vida de um homem admiravelmente decente”. Para Melo Miranda, aí reside o sentido de urgência pleno de atualidade da vida e da obra de Graciliano Ramos. 

Quem escreveu esse texto

Victor da Rosa

É crítico literário e co-organizador da antologia 99 poemas de Joan Brossa (Demônio Negro).

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