Literatura brasileira,
Em nome do pai
Ernesto Mané relata em diário de viagem a busca pela família paterna e por um país que custa a reconhecer a África como parte de si
22out2025 | Edição #99No começo da década de 1950, um célebre brasileiro viajou para diversos países lusófonos: Portugal, Angola, Cabo Verde, Moçambique e, principalmente, Guiné-Bissau, que, assim como os outros territórios africanos, naquela época era uma colônia portuguesa. Já conhecido por suas publicações, o viajante pretendia estudar como a colonização portuguesa foi mais branda do que a de outras potências europeias, e com isso defender uma tese nova: a de que os camaradas lusitanos estariam criando um mundo novo nos trópicos, algo mais harmônico e pacífico do que o racismo dos Estados Unidos e da África do Sul, por exemplo.
O pesquisador, porém, havia sido convidado pelo ditador António Salazar e, com uma experiência tendenciosa, enxergou a África sem notar os africanos, destacou a glória do colonizador sem se preocupar com o colonizado, endossando a violência de Lisboa. Tratava-se, afinal, de Gilberto Freyre, sociólogo que colaborou com o mito da democracia racial e com um olhar brasileiro que recusou a África.
Muitos anos depois desse périplo, um diplomata brasileiro nos dá a oportunidade de reler a história a partir de outra chave: aquela que vai ao encontro da África para enfrentar os desafios do presente. Uma das tantas belezas de Antes do início, estreia literária de Ernesto Mané, é que a procura do autor por seu tempo inicial traz a voz honesta de um homem que lidou com o abandono e que recusou esse vazio porque sabe que essa dor é um tanto sua, mas sobretudo de um país.
O relato de Mané é um diário de viagem em quatro partes que intercalam cidades e tempos, sempre marcando a posição do narrador. Assim, ora com calma, ora na velocidade de uma escala de voo, passamos por inúmeras paisagens em uma escrita errante, que reflete dois lados do autor: acadêmico da física e diplomata do Itamaraty. No itinerário, há idas e vindas por São Paulo, João Pessoa, Lisboa, Vancouver, Bissau, Nova Délhi. Se a geografia é relativa, o tempo também é, e o diário — que começa em 2022 e termina em 2024 — recua mais de dez anos para compartilhar o sensível contato de Mané com sua família na Guiné-Bissau.
A separação que inquieta o autor se estende como solidariedade racial com a população negra brasileira
O ponto de partida é a inquietude do autor com sua origem. Filho do relacionamento inter-racial de uma brasileira com um guineense, ele vai em direção às origens do patriarca após anos de distância, com a expectativa de compreender melhor o próprio passado. A curiosidade de Mané não é em vão. Ainda criança, ele foi abandonado pelo pai, ficando sob os cuidados da mãe rigorosa com sua criação e amargurada com a negligência do ex-marido. O ressentimento da mãe, embora legítimo, se manifesta como racismo e expõe o filho a situações que ferem sua subjetividade, mas também o empossam numa postura altiva em defesa da negritude.
É o contato com o pai, entretanto, que articula toda a busca sentimental. Ao viver longe dele, Mané herdou uma dívida com a própria identidade. Quem ele era e de onde viera são as perguntas que o interrogam o tempo todo, movimentando sua curiosidade por reconstituir uma memória pessoal. A ausência paterna era também desconhecer os avós, primos e tios, uma perda da África.
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A separação que inquieta o autor se estende como um tipo de solidariedade racial com a população negra brasileira. A particularidade que dá tons específicos a seu trajeto não impede que espelhe uma demanda política, simbólica e histórica de um Brasil que custa a reconhecer a África como parte de si. “Não fui educado para ter consciência da minha negritude”, relembra Mané.
Guiné-Bissau
A chegada à Guiné-Bissau dá início a um processo complexo de investigação e elaboração que marca o encontro e o desencontro do viajante. Pouco a pouco, a narrativa compõe cenas que explicam as dificuldades passadas pelo pai e pelas pessoas com quem ele se relacionou, no Brasil ou na África. Nesse sentido, o reencontro e a acolhida da família guineense não são uma resolução das feridas abertas, mas a possibilidade de elaborar o presente com novas interpretações, algumas mais indigestas do que outras.
Na pequena São Domingos, onde residiam os avós, entre pratos de ensopado de carne e doses de vinho de palma, Mané não descobre um pai idealizado, e sim o reflexo de alguém repleto de incoerências e contradições. Com o mesmo nome do filho, Ernesto pai abandonou outras crianças que teve em um relacionamento anterior, distanciou-se da família e não manteve contato com ninguém no país africano. A busca também mostra o drama da guerra colonial e das decisões tomadas no calor da hora. Com indignação, um tio resume: “Seu pai não fez muita coisa pela Guiné”.
Um dos efeitos prazerosos dos diários de viagem está em como eles ajudam a consolidar um imaginário a respeito de uma paisagem. Há momentos em que nos confundimos com o observador e compartilhamos a mesma intimidade que rabisca a cartografia do que lemos. O encanto de Antes do ínicio não está apenas na paisagem, mas na geografia sentimental de identificação e estranhamento vivida pelo autor.
Na África, Mané é deslocado para uma posição irreconhecível e passa a ser um outro em busca de si, num feliz desencontro. O físico descobre um legado que precisará carregar, o brasileiro torna-se estrangeiro: “Estão me chamando de branco aqui”. O filho que vai em busca do pai vê fissuras que ressignificam a dor vivida, e até mesmo o estereótipo do continente se rompe diante da vida cotidiana.
Há uma passagem em que Mané vê o Pico do Fogo, vulcão de Cabo Verde também conhecido pelo nome crioulo de Homi Grande. O autor relata que aprendeu com o pai que homem grande é a pessoa que acumula experiências. Na Guiné, entretanto, aprendeu algo diferente: homi grande trata dos que guardam as tradições. O autor conta que o dia em que tomou posse como diplomata foi também o da morte do pai; num curto período de tempo morreria seu avô e nasceria seu filho. Ali, sob o luto, o filho se tornou pai, homem grande com duas pátrias no peito e uma cicatriz para tratar. Não mais o antes, apenas o início.
Nota do editor
A Tinta-da-China Brasil é o selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, que publica a revista dos livros.
Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Em nome do pai”
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