Literatura brasileira,
A serigrafia de Bernardo Carvalho
Novo romance do escritor carioca utiliza moldes anteriores para inventar histórias novas e convidar os leitores a elaborar junto
02out2026 • Atualizado em: 01out2026Uma xilogravura pode ser impressa mais de uma vez. A matriz de madeira recebe tinta, o papel é pressionado contra ela e o desenho reaparece. Há nessa técnica duas operações que ajudam a ler Xilocosmos, novo romance de Bernardo Carvalho: repetição a partir de uma matriz e imagem produzida por subtração. Para que uma parte do papel continue branca, é preciso retirar a madeira. O que foi retirado da matriz não deixa de participar da imagem: aparece nela como ausência de tinta.
Não é a primeira vez que alguém desaparece num romance de Bernardo Carvalho e deixa para outra pessoa a tarefa de contar sua história. Em Nove noites, um escritor tenta reconstruir a vida de Buell Quain a partir de cartas, documentos e depoimentos. Em Mongólia, um diplomata segue os rastros de um fotógrafo desaparecido. Em O sol se põe em São Paulo, um escritor recebe de uma desconhecida uma história que ele não viveu e que deverá escrever.
Agora, em Xilocosmos, o narrador acredita reconhecer, nos e-mails de uma antiga colega, um convite para escrever o libreto de uma história que ela lhe conta. O procedimento reaparece, mas aqui a distância a atravessar é também temporal: o romance vai e volta entre 1971 e o presente, quando o narrador retorna a pessoas e acontecimentos de sua adolescência mais de cinquenta anos depois.
Em 1971, o narrador tem doze anos, mora em Ipanema e vai a pé a um colégio particular. Num único mês, é assaltado três vezes. No primeiro assalto, levam o relógio suíço que ganhou do tio diplomata. O terceiro, ele próprio corrige: “na verdade não foi um assalto”. Um menino pede ou manda que entregue sua sandália; depois, envergonhado, o narrador inventa para o porteiro que havia um canivete. “Nesta história tudo é roubo”, anuncia um narrador que acaba de transformar em roubo aquilo que não sabe como nomear exatamente.
No colégio, um professor de matemática propõe aos alunos o que chama de “uma equação”: representar, por meio de um desenho, uma dimensão além daquilo que conseguem compreender. Dulce, a única aluna negra da turma, desenha um mapa cheio de caminhos e encruzilhadas, o “país da impossibilidade”, segundo Ana Maria, sua amiga e colega de classe. O narrador percebe, então, que havia entre as duas meninas uma dimensão que ele não podia conceber.
O narrador busca um ‘elo perdido’, mas admite estar contando uma história ‘por simples especulação’
Pouco depois, Dulce desaparece da escola. É nesse mesmo período que o professor passa a chamar Ana Maria de “a parda”, apelido que o narrador recorda pelo estranhamento que lhe causou. Nas semanas seguintes, quando a ausência de Dulce já não pode ser ignorada, circula o boato de que ela teria roubado alguma coisa de Ana Maria. Ninguém sabe dizer o quê. As explicações, escreve o narrador, eram “ficções circunscritas à estreiteza da nossa ignorância”. Décadas depois, quando volta ao caso de Dulce, ele descobre que a história do roubo, que circulava entre os alunos, nunca teve lastro algum na realidade.
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Quando Ana Maria reaparece na vida do narrador mais de cinquenta anos depois, a história de Dulce volta com ela. É também por Ana Maria que ele chega a Carlinhos, seu filho adotivo, negro e criado na Alemanha. O episódio que Ingrid, companheira de Ana Maria, conta sobre ele faz a palavra “parda”, usada pelo professor para designar Ana Maria no passado, reaparecer sob outra forma.
Carlinhos decidiu interpretar Hamlet na escola de teatro e foi desaconselhado pelos professores. Segundo Ingrid, ele não pensava estar fazendo um Hamlet negro: Carlinhos queria interpretar Hamlet “como qualquer um, como qualquer alemão”. Assim como o professor havia transformado Ana Maria em “a parda”, agora, diante de Carlinhos, são os professores que enxergam primeiro o negro e só depois Hamlet. Mas também há um problema para quem conta essa história: o narrador não ouviu isso de Carlinhos. O que sabe sobre ele vem sobretudo do relato de outras pessoas.
É a partir desses relatos que o narrador começa a aproximá-lo de acontecimentos dos quais não sabe se Carlinhos participou. Perto do fim, reconhece que procura um “elo perdido”, uma “equação entre dois tempos desconexos”, embora admita, na mesma passagem, estar construindo uma história “por simples especulação” e “sem provas”. Frente ao que não sabe, o narrador formula uma hipótese e passa a agir a partir dela. É assim que acaba entrando nas histórias que tenta reconstruir.
Equação
Essa equação entre tempos desconexos repete, mais de cinquenta anos depois, o exercício que o professor de matemática havia proposto à turma: representar uma dimensão além daquilo que os alunos conseguiam compreender. Dulce respondeu com seu mapa, e o narrador percebeu que havia entre ela e Ana Maria uma dimensão que o excluía. Agora tenta alcançar o que ficou fora de seu alcance naquela época, juntando lembranças, depoimentos, e-mails e suposições. Em que momento procurar as ligações que faltam começa a significar inventá-las?
Em Onde andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu, também há uma Dulce que desapareceu no passado e um narrador que, anos depois, tenta reconstruir sua história. A procura pela cantora atravessa lembranças, relatos de outras pessoas e tempos separados por muitos anos, até implicar o próprio homem que investiga. Não há razão para transformar a semelhança em influência. Quantas vezes Carvalho repetiu de fato a estrutura do desaparecido reconstruído por quem ficou? E até onde essa matriz é apenas dele?
Procurei a matriz da obra nos romances anteriores de Carvalho e encontrei uma Dulce de Caio Fernando Abreu no caminho
Ao leitor e ao irmão de Ana Maria, o narrador afirma que ela havia perdido a capacidade de cantar e descobre que ela nunca cantou. “De onde eu tinha tirado aquilo?” A pergunta poderia servir também para o que acontece com o libreto. Nos primeiros e-mails de Ana Maria, ele apenas suspeita que ela queira convidá-lo para escrever o texto. O convite nunca chega. Na página seguinte àquela pergunta, porém, já diz ao irmão que Ana Maria queria que ele o escrevesse. Mais tarde, com Ingrid, a hipótese avançou: Ana Maria o teria procurado para lhe propor que escrevesse o libreto.
O narrador não precisa inventar os acontecimentos para construir uma história entre eles. O roubo das serigrafias e das matrizes do irmão de Ana Maria, por exemplo, é uma lembrança que afirma ter conservado perfeitamente, embora diga ter apagado da memória a razão daquele gesto. É essa razão que ele reconstrói muitos anos depois, quando novas informações permitem ligar o roubo a acontecimentos da adolescência que até então permaneciam separados.
Ao reconstituir a cena, o narrador recorda que se deteve diante dos sulcos das placas de madeira e percebeu nos entalhes aquilo que a tinta não alcançava. Foi essa imagem que, ainda durante o roubo, o fez lembrar-se do desafio do professor de matemática e do desenho de Dulce. As serigrafias roubadas haviam sido produzidas a partir de matrizes. A essa altura, o leitor já começa a fazer o mesmo: aproxima cenas, repete palavras e testa hipóteses para ver se alguma delas explica o desenho.
Matriz
Material para essas aproximações não falta. Goeldi leva a Kubin, Dulce a Ana Maria, Ana Maria a Carlinhos, o Brasil à Alemanha: uma correspondência parece autorizar a seguinte, até que a “equação” deixe de ser apenas um procedimento do narrador e passe a descrever também uma maneira de ler o romance. A repetição das cenas de classificação e conflito racial cria outra suspeita: até que ponto Xilocosmos convida o leitor a organizá-las como uma tese sobre o racismo brasileiro?
Em certos momentos, a quantidade de correspondências começa a incomodar: estamos encontrando relações que o romance construiu ou começando a desejá-las tanto quanto seu narrador?
Uma matriz pode receber tinta outra vez. A impressão seguinte repetirá o desenho sem ser a mesma impressão. Passei as páginas procurando a matriz de Xilocosmos nos romances anteriores de Bernardo Carvalho e encontrei uma Dulce de Caio Fernando Abreu no caminho. Ao fazer isso, também retirei cenas de seus lugares, aproximei episódios separados por livros e anos e imprimi com eles uma figura. A serigrafia de Carvalho pode ser a que ele fez, mas pode ser também esta que fiz dele.
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