A escritora e atriz carioca Maria Mariana (Divulgação)

Literatura brasileira,

Diário da adolescência

Marco dos anos 1990, Confissões de adolescente aponta a beleza óbvia de que carregamos pelo resto da vida a menina que fomos

03nov2026

A primeira vez que li Confissões de adolescente, eu era uma. Anos 1990, morando no Recife, minha cidade natal, ainda sem saber que existiria uma coisa chamada internet (essa é uma informação importante). Foi um livro que me marcou tanto que veio comigo de lá para São Paulo e sobreviveu a seis mudanças de endereço. Nas suas páginas amareladas, encontro meu nome assinado com uma letra ainda infantil. Ao lado dele, muitos autógrafos. Reconheço os de Carol Machado, Carolina Dieckmmann, Gabriela Duarte e Luiza Mariani.

Entre as páginas, um recorte de jornal: “A peça Confissões de adolescente, de Maria Mariana, volta ao Teatro do Parque, hoje e amanhã, com um elenco renovado. Ingresso: R$ 25 (inteira) e R$ 12 (estudante)”. Não sei quantas vezes a peça foi encenada no Recife, mas fui em todas as apresentações.

Fiquei obcecada pelo relato de Maria Mariana, assim como uma legião de meninas que fizeram de Confissões de adolescente o marco de uma geração. Pudera. O livro começava assim:

Hoje… cara… acordei cedaço. Fui pra merda do meu colégio. Que meu colégio é uma merda. Fui fazer uma prova de genética… Mi fu. Depois fiquei no colégio para a segunda chamada de álgreba. Mi fu, também… Mi fu legal. Depois fui pro inglês, aula de vídeo… Mor saco… Mi fu. Depois fui pro jazz, mor saco.

Quer coisa mais adolescente que isso?

Quase um romance de formação. Escrito por uma garota. Nos anos 90. Se até hoje a gente luta por espaço — e para o que a gente escreve não ser reduzido ao que se convencionou chamar de “literatura feminina” —, imagina fazer isso no começo da juventude, no Brasil de mais de trinta anos atrás? A gente não tinha nem começado a se insurgir contra a hostilidade de um mercado dominado até hoje pelos homens… E surgia uma menina com caneta afiada para desaguar nas páginas um retrato da vida de muitas adolescentes — com todos os seus privilégios e acessos, vale lembrar.

Uma adolescente hoje conseguiria falar de aborto sem ser alvo de escrutínio nas redes sociais?

Corta para décadas depois: aqui estou com a reedição de Confissões de adolescente. Após 34 anos, “o clássico dos anos 1990 está de volta”, diz a capa. E ler tantos anos depois é reencontrar a adolescente que fui e pensar por onde anda a autora, o que aconteceu não só com as atrizes que fizeram a peça original, mas também com as outras, com as que viveram o sucesso da adaptação para a TV. Ter aquela sensação de que crescemos juntas e que, de alguma forma, nos conhecemos. É isso que faz um livro arrebatador numa fase de formação — parece um pedaço da gente.

Do alto dos meus quarenta mais, tão distante da adolescência, a leitura da nova edição aponta para uma beleza meio óbvia: perceber que a gente carrega pelo resto da vida a menina que foi. Aquela garota cheia de vontade de experimentar a vida continua aqui. Aquela que resolveu escrever um diário para entender tudo o que sentia? Também.

Primeira vez

Na primeira edição, publicada em 1992 pela Relume Dumará, a nota dos editores dizia: “Este livro não é sobre adolescentes. É um livro de adolescentes”. A frase pode soar hoje “chatgptzística”, mas dê um desconto ­— ela aponta para algo inovador naquela época. Uma adolescente conta sua vida, seus dramas, suas descobertas, os corações partidos, os medos… E sobre maconha, a primeira transa, aborto! Uma adolescente hoje conseguiria falar de aborto sem ser alvo de escrutínio nas redes sociais?

As atrizes Georgiana Góes, Maria Mariana, Daniele Valente e Deborah Secco (TV Cultura/Reprodução)

O sucesso foi tão grande que foram vendidas mais de 200 mil cópias. Um número estrondoso tanto para a época quanto para agora. Veio a adaptação para o teatro, a série de TV, com roteiro de Domingos de Oliveira, dramaturgo e cineasta que passou a ser conhecido também como o pai de Maria Mariana. Foi ele, aliás, quem incentivou a filha a colocar no papel suas ideias. Escrever para dar dimensão às coisas que pareciam tão intensas. No novo prefácio, ela relembra:

Vejo a menina de nove anos, no recreio da escola, escrevendo, desenhando e desenhando em sua agenda tão cheia de coisas coladas que mal fechava. Ela nem sabia se vivia para escrever ou se escrevia para viver. Nada fazia sentido se não pudesse fazer parte da criatividade expressa na agenda. […] Então, sempre que precisar, releia suas próprias palavras para entender de que é feita a vida!

A nova edição também reproduz textos de Carol Machado, Ingrid Guimarães e Patrícia Perrone, que estavam na primeira montagem da peça, encenada inicialmente no porão de um teatro carioca.

Vida adulta

Mergulhar de novo em Confissões de adolescente é dar um abraço na adolescente que fomos. Quanta coisa vivemos? Quantas vezes quebramos a cara? Quantas vezes nos deslumbramos? Quantas vezes quisemos tanto ser adultas “logo”, só para depois descobrir que a vida tem muito daquele meme que diz: “Como vim parar aqui? Eu só tenho seis anos”?

A leitura deu vontade de saber também dos filhos de Mariana. Será que leram o livro? Será que ela também os incentivou a contar suas histórias? Ela é mãe de Clara, Laura, Gabriel e Isabel. No Instagram, se apresenta como “mãe-escritora-psicóloga-atriz”. Uma matéria de 2021 no jornal O Globo conta que, depois do sucesso estrondoso, veio o recolhimento, uma vida afastada da cidade e dedicada à família. “A adolescência dos quatro é diferente do que foi a minha, eles têm essa orientação espiritual desde cedo”, contou.

Em outras entrevistas, Mariana diz que se considera a primeira influencer: “Fui lá no palco e expus toda a minha vida. Fiz isso com objetivo de autoconhecimento”. E, com isso, fez dos palcos uma grande rede social. Antes de existir a internet como a conhecemos, Confissões de adolescente virou conversa sobre temas ainda reservados à intimidade ou, no máximo, àquela roda de amigas no recreio.

O livro é uma cápsula do tempo. Um convite para adolescentes de hoje verem que ainda somos os mesmos e vivemos cenas tão mais parecidas do que diferentes. Que até a mãe que está ali tentando relembrar as regras da casa um dia foi uma adolescente meio perdida, cheia de vontade de abraçar a vida e desfrutá-la ao máximo. Porque mãe é tudo igual, só muda de endereço, né? Assim como filho adolescente.

Quem escreveu esse texto

Daniela Arrais

É jornalista, escritora e autora de Para todas as mulheres que não têm coragem (BestSeller).

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