Repertório 451 MHz,

A equação da identidade

Bernardo Carvalho fala sobre identidade, pertencimento e memória, temas presentes em seu novo romance, Xilocosmos

18set2026

Está no ar o 213º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Esta edição recebe o escritor Bernardo Carvalho para uma conversa sobre Xilocosmos, seu novo romance, que chega às livrarias em outubro.

Carvalho fala sobre sua experiência no jornalismo e na literatura e sobre os riscos que enxerga no avanço da inteligência artificial, assunto de que tem tratado em sua coluna na Folha de S.Paulo. No romance, o autor retoma uma questão que atravessa sua obra, a identidade, em uma investigação que conversa com o racismo e a ideia de pertencimento. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.


Autor de romances como Nove noites (2002), vencedor do Prêmio Portugal Telecom (atual Oceanos), e Mongólia (2003), que recebeu o Prêmio Jabuti, Carvalho lança em 2026 seu décimo quinto livro. Como colunista da Folha de S.Paulo, escreve sobre literatura, política e outros assuntos que movimentam o debate público no Brasil e no mundo.

Identidade 

A identidade é uma das obsessões que acompanham a escrita de Carvalho. “A ideia de identidade é um negócio que volta sempre”. Em Xilocosmos, o tema aparece relacionado à maneira como indivíduos e grupos constroem imagens de si mesmos. 

Para o autor, não há identidade que exista isoladamente. “Não existe identidade separada da sociedade. A identidade é criada na interação social, e essa interação pode ser de opressão, mas também pode ser de emancipação”, explica. O problema, segundo ele, está em perceber como construções que parecem naturais podem produzir exclusões e violências.

Apesar de abordar o racismo, o autor não classifica Xilocosmos como um romance “sobre o racismo”. A questão é parte de uma investigação maior sobre a identidade. “Não dá para dizer que é sobre o racismo porque o livro não vai resolver nada. Mas se propõe a entender o racismo como mais uma dessas ficções de criação de uma identidade que, na verdade, de natureza não tem nada.”

Pertencimento

A ideia de pertencimento também ocupa um lugar central no romance. Carvalho conta que chegou a perceber o próprio conceito como uma “armadilha”. “Lutar por pertencer, para mim, sempre foi o avesso da verdade, como se ali tivesse uma espécie de falsidade.”

A mesma desconfiança aparece na relação do escritor com o consenso. Carvalho o define como uma espécie de “alucinação coletiva” e cita a influência de O outro lado, de Alfred Kubin, romance em que os personagens parecem presos a uma realidade compartilhada, como em Xilocosmos.

Essa recusa, segundo o autor, passa por questões de classe. Ao comentar o retrato da elite brasileira na narrativa, Carvalho afirma que a arte não deveria servir como simples confirmação da identidade de um grupo. 

“A arte entra nesses lugares de contradição, de brecha, não na confirmação de uma espécie de unanimidade ou de um consenso — que ela consiga trabalhar justamente nessas diferenças.”

Referências

Entre as referências presentes em Xilocosmos, Carvalho destaca, além do escritor e desenhista Alfred Kubin, o gravurista Oswaldo Goeldi. A relação com Goeldi passa pela técnica da xilogravura, em que a imagem precisa ser construída de forma invertida na matriz. “Para você ter aquela imagem, você precisa criar o contrário dela”, explica.

O jornalismo aparece como parte da formação do escritor. Carvalho conta que a profissão o colocou em contato com pessoas e situações que não conheceria de outra maneira. “Funcionou como uma experiência de vida, me pôs em contato com o outro”, afirma. 

Carvalho atribui ao trabalho como jornalista o “passe livre” para sair da bolha e ter contato com outras realidades. 

Livro marcador

No quadro em que autores e personalidades das artes e da cultura falam sobre um livro que marcou sua vida de leitor, o episódio traz a sugestão do jornalista e apresentador Pedro Bial. Ele indica Os meninos da rua Paulo (Companhia das Letras, 2017), do escritor húngaro Ferenc Molnár. O livro tem tradução do professor e tradutor húngaro nacionalizado brasileiro Paulo Rónai.

O jornalista e apresentador Pedro Bial (Divulgação)

“Foi um livro que cumpriu uma trajetória muito maior no Brasil graças à tradução do Paulo Rónai, que parece que levou um livro bom a ser excelente”, diz. “Eu era um menino meio desenturmado — naquela época, no Rio de Janeiro, tinha turmas de rua —, eu tinha medo de briga, então me refugiava na leitura. E é um livro sobre turmas de rua, crianças, então eu encontrei a minha turma.”

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.

Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura

Para falar com a equipe: [email protected]