Literatura brasileira,

A invenção de Mário de Andrade

Acompanhado de vozes de ‘Macunaíma’, romance imagina o autor paulista assumindo sua homossexualidade

28jul2022 - 14h17 | Edição #60

Miss Macunaíma, autointitulado um “romance-invocação”, apresenta aos leitores uma experiência literária performática. O livro lança, na corrente das efemérides modernistas, uma incursão na intimidade, registrada e reinventada, da lenda Mário de Andrade — aliás, apresenta-se aqui, também, uma tentativa de aproximar o leitor de Mário, descendo a lenda do pedestal. Mineiro de nascimento, mas não de morada, o autor Alexandre Rabelo se despe também em uma declaração de admiração não só por Mário e sua obra, mas também por São Paulo e pelos personagens da Pauliceia.

Marcada por ousadias, a narrativa percorre o entorno de Macunaíma e a mitologia do “herói sem nenhum caráter” pelas vozes criadas pelo autor. Ganharam primeira pessoa personagens como Maanape, irmão de Macunaíma, um feiticeiro negro na história de Mário, e Jiguê, irmão do herói do Monte Roraima, que representa os indígenas. O livro não poupa nem mesmo Mário: ao longo de todo o livro leem-se cartas fictícias do modernista a personagens reais, como Manuel Bandeira e Tarsila do Amaral. Com esses recursos narrativos, lembro-me do livro do português José Luis Peixoto, Autobiografia, que transforma em personagem outro mito, Saramago, e do Mario Prata entrevista uns brasileiros, em que o autor mineiro “entrevistou” brasileiros célebres já mortos.

O livro é eficiente ao tirar Mário do armário (perdão pelo trocadilho) de uma forma natural, expondo, ou imaginando, como teria sido assumir-se Miss Macunaíma — a gota d’água para o fim da amizade de Mário e Oswald de Andrade teria se dado quando o segundo publicou na Revista de Antropofagia, em 1929, um artigo cujo título era “Miss Macunaíma”. Oswald já havia provocado o amigo: na mesma revista, referiu-se a Mário como “o nosso Miss São Paulo traduzido em masculino”. Toda essa questão, e o fato de Mário ser considerado “mulato” e, por isso, ter enfrentado racismos de toda sorte, o autor remexe com sutileza, sem deixar de devassar a intimidade de Mário por meio das cartas fictícias.

Cartas

As cartas talvez sejam realmente o ponto alto do livro. Apesar de fictícias, o remetente e os destinatários não são. Não há sequer uma só frase copiada de Mário. Todas foram escritas pelo próprio Rabelo, que estudou o estilo, o vocabulário e a sintaxe do autor paulista. Quanto ao conteúdo, ao fazer a pesquisa e escolher as cartas, imaginou o que poderia ter sido escrito nas lacunas, no que não estava ali. Pensando nesse Mário oculto, com base em fatos e no que se sabe daqueles personagens, Rabelo elenca as cartas em que explora sem medo o que pode haver de mais íntimo no mito e o desvela.

E aqui Macunaíma entra. Cada carta é casada com algum capítulo de Macunaíma, cuja história é recontada — mais uma ousadia de Rabelo, que chega a ponto de imaginar Mário falando de sua própria obra, com revelações em sonhos e reflexões sobre os personagens e o Monte Roraima. 

O livro é eficiente ao tirar Mário do armário, expondo como teria sido assumir-se Miss Macunaíma

A primeira carta, dirigida a Manu (Manuel Bandeira), casa com o nascimento de Macunaíma narrado por Jiguê, o “irmão índio” de Macu. Nessa carta, Mário fala também a Manuel sobre a confusão política em suas convicções: “Sou comunista de circunstância, quando me cabe encarar alguma ignorância mais crescidinha”, diz. O autor também não deixa faltar o Mário festeiro, que gostava de Carnaval, de terreiro, de estar nas ruas. É um Mário por inteiro, com a “bênção” de Macunaíma e seus encantos.

No corpo do texto, o autor monta uma performance literária com recursos narrativos: a fragmentação da trama, num exercício de linguagem na montagem do romance; uma brincadeira entre o real e a ficção e uma mescla de elementos gráficos, como quadrinhos e ilustrações. A narrativa perde a chance, no entanto, de alguns silêncios, linhas que poderiam ficar no não dito em certas passagens das cartas, sobretudo na voz de Maanape — voz essa em que Alexandre Rabelo ousou menos, mas ainda assim dá corpo ao personagem.

O texto evoca também a relação do animal com o homem e deste com a natureza. E isso não é só construído nos momentos em que Rabelo rende invocação ao Brasil terra indígena, mas também na sua visão sincrética dessa relação: o animal que escolheu não vir homem numa nova vida, mas sim como macaco-prego, ainda que possua a vingança e o escárnio do homem.

Quanto a Mário, fica a sensação de ser apresentado a outras versões suas. Não mais corajoso, mas certamente mais real. Um Mário cansado de bancar um macho herói que aguenta ser chamado de “mulato viado”. Um Mário que se esqueceu de si, temendo pôr tudo a perder caso se assumisse Miss Macunaíma. Um Mário que, ao relatar sua passagem pelo Rio, demonstra seu amor pelo Carnaval, mas que abandona uma festa para se recolher depois na Pauliceia, que fazia mais sentido para ele.

Em entrevista à Quatro Cinco Um, Alexandre Rabelo fala de como foi mergulhar na intimidade de Mário, seu trabalho de pesquisa e das posições políticas do autor paulista.

Em algum momento você teve medo de cruzar a linha da intimidade do personagem?
Quando a gente fala de grandes medalhões como Mário de Andrade sempre existe uma construção oficial sobre seu comportamento. Para mim é importante cruzar essa fronteira justamente para revelar o Mário que sugeriu sutilmente em tantas linhas, com a consciência possível de sua época, que nunca deixou de viver suas raízes africanas e sua sexualidade dissidente, embora tenha sido alvo inúmeras vezes de racismo e homofobia, como alguns pesquisadores mais recentes revelam. 

Além disso, para mim é um ato político querer dialogar com certa tradição literária que impõe limites para a representação dos corpos e afetos diversos. Quando Flaubert fez Madame Bovary já foi um imenso choque ele descrever o sacolejo da transa dentro da carruagem. A literatura ainda não acabou, precisamos expandir esse limite. Meu Mário de Andrade deve ter um pouco de Jean Genet, franco com relação a suas experimentações nas ruas. Mário conhecia o alto e o baixo.

Como foi realizado o trabalho de organização e seleção das cartas que foram para o livro?
No romance, as cartas foram casadas com os capítulos de Macunaíma, recontados historicamente. De uma certa forma, Mário e seu personagem famoso são duplos. O que um vive em 1499 o outro também vive na primeira metade do século 20. Quis remeter a esses ciclos viciosos e violentos da história brasileira. Assim, fui escolhendo os amigos de Mário pelas questões que eu achava que poderiam amplificar mais os capítulos oníricos com Macu e seus irmãos. 

‘Meu Mário de Andrade deve ter um pouco de Jean Genet, franco com relação a suas experimentações nas ruas’

Por exemplo, eu sabia que tinha que começar com o Manuel Bandeira, que era um dos amigos mais íntimos de Mário e para quem ele contaria as coisas mais misteriosas, absurdas e descabidas. Tarsila seria boa para falar da relação de Mário com as mulheres e da polêmica com Oswald. Drummond seria bom para falar da arte, e assim por diante. Existem ainda os remetentes totalmente imaginários, que eu puxei de um fio sugerido em alguma carta, algum livro. Há também personagens reais, como Raimundo, o rapaz que acompanhou Mário na viagem para a Amazônia como ajudante. 

Tentei amplificar essas relações a partir de pequenos indícios encontrados nas discussões de Mário em seu extenso epistolário, principalmente as cartas de 1945, ano de sua morte. A partir daí foi um trabalho elaborado e longo de lapidação das gírias de Mário, seu pensamento irônico, sua justaposição de drama e chiste. Sobretudo suas inquietações sobre os rumos do Brasil. Mário de Andrade é infinito, íntegro, múltiplo. Nenhum de seus pesquisadores conhece sua obra toda. Tentei mostrar faces diferentes de Mário para cada interlocutor.

Como essa relação foi construída com Mário? Você se considera íntimo dele?
Não sei se posso me arrogar estar íntimo de Mário agora, mas quero acreditar bastante que ele ficaria feliz com essa representação que fiz de sua vida complexa e multifacetada. Sinto que contribuo para certa reparação histórica de sua figura. Mas, sim, somos casados há bastante tempo; na adolescência fiquei apaixonado por seu Frederico Paciência, conto brilhante; aos vinte me estatelei por Macunaíma e daí não parei mais de xeretar. A pesquisa do romance levou mais de dois anos, durante a pandemia, muitas vezes pelo dia inteiro. Quis aprender o máximo possível com Mário para tentar sobreviver.

Como você imaginaria Mário hoje no contexto político e cultural que vivemos no Brasil?
Acho que os filhos de Mário estão por aí, grandes personalidades negras, queers, indígenas, femininas, tomando cada vez mais posições importantes nos grandes fóruns de discussão política, social, acadêmica, artística. De certa forma, essa força de resistência torna o projeto de Mário de Andrade vitorioso em nossos dias. Se ele estivesse vivo, acho que continuaria a usar roupas bem acinturadas. Talvez não fumasse mais. Certamente ainda estaria encantado com o Carnaval e todas as manifestações genuinamente populares e brasileiras em suas misturas bastardas. Duvido que ele não dançasse um belo funk.

Dar voz a Jiguê fez parte da construção de linguagens do romance. Onde você encontrou essa voz?
A voz de Jiguê foi uma das mais difíceis de encontrar, por ser aquela que abre o romance e conta um mistério. No livro, Macunaíma e seus irmãos já vivem há quinhentos anos quando nos relatam suas versões da própria história. Misturam diferentes origens, diferentes linguagens. Tem alguns regionalismos, uma pitada de fábula, uma desconstrução das histórias de mistério ao modo de David Lynch, mas principalmente uma brincadeira com certo pensamento nativo, como o perspectivismo indígena que torna cada elemento natural uma força viva comunicante. 

Tudo entra na narrativa. O Brasil no geral é muito místico. Essa narrativa tem muito a nos ensinar sobre nós mesmos. Mário era devoto do Mistério. Quis começar por aí. De modo geral, queria que o reconto de Macunaíma fosse feito por vozes continuamente apagadas de nossa história, do começo ao fim do livro.

Quem escreveu esse texto

Guto Alves

Jornalista e produtor cultural.

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.