Listão da Semana,

14 livros e dicas literárias LGBTI+

Grandes autoras e autores indicam livros marcantes, leituras recentes e outras dicas literárias LGBTI+

22dez2021 - 09h08

A Quatro Cinco Um convidou grandes autoras e autores para indicar livros que foram marcantes, leituras recentes e outras dicas literárias LGBTI+ imperdíveis para todos os leitores. As indicações foram dadas no podcast 451 MHz, no bloco O Melhor da Literatura LGBTI+, que tem o apoio do C6 Bank. Confira as dicas dadas no segundo semestre de 2021.

Sobre a terra somos belos por um instante. Ocean Vuong. (Rocco, 2020, trad. Rogério W. Galindo)

Indicado por Samir Machado de Machado, autor de Tupinilândia (Todavia, 2018)

“Vuong é um escritor norte-americano de uma família imigrante de vietnamitas, que migraram para os Estados Unidos depois que o lado pró-americano perdeu a Guerra do Vietnã. O livro tem um forte tom autobiográfico nesse sentido, que é sobre como é ser uma minoria enquanto imigrante, mas também sobre como é se descobrir gay na adolescência, sendo de uma minoria imigrante. 

O Vuong é poeta, os primeiros livros dele eram de poesia, mas esse caso aqui é um livro em prosa. Só que essa bagagem poética dele é algo que a gente nota no estilo de escrita dele, em parte porque o livro é simplesmente muito bem escrito. E em termos de sentimentos, o livro também tem algumas das melhores reflexões que eu li em tempos recentes sobre como é se descobrir desejado e descobrir o desejo, descobrir a própria beleza e definir a si mesmo que é melhor se posicionar no mundo. Sobre a terra somos belos por um instante é um grande livro que continua ecoando com a gente mesmo depois de terminada a leitura. E esse livro é um desses.”

 

O essencial de perigosas sapatas. Alison Bechdel. (Todavia, 2021, trad. Carol Bensimon)

Indicado por Clara Rellstab, produtora e editora na Rádio Novelo e colaboradora da Quatro Cinco Um.

O essencial de perigosas sapatas chega no Brasil traduzido pela Carol Bensimon. Esse quadrinho é um compilado das tirinhas que a Bechdel publicou entre os anos 80 e 90. Apesar da Bechdel fazer uma localização histórica superinteressante a partir da percepção dessas personagens com a política americana, com lançamentos de cinema e livros da época também, é divertido observar que mesmo sendo uma coisa que foi escrita há trinta, quarenta anos, as noias e bandeiras sapatonas ainda são bastante parecidas com as que a gente lida hoje em dia. 

É um quadrinho que deveria ser leitura obrigatória pra todas as letras da sigla LGBTQIA+ e para quem se considera feminista também. Inclusive, é nessa tirinha que veio a ficar conhecido como o teste de Bechdel, e mesmo que as graphic novels da Bechdel que já foram publicadas aqui sejam autobiográficas, eu acho que o Perigosas sapatas é a melhor maneira de compreender a genialidade da autora, é a forma mais adequada de a gente celebrar os sessenta anos dessa quadrinista maravilhosa.”

Leia também: Clara Rellstab resenhou o quadrinho para a edição 48 da revista.

 

“Frederico Paciência”. Mário de Andrade.

Indicado por Humberto Werneck, jornalista, escritor e editor-sênior da Quatro Cinco Um.

“O conto ‘Frederico Paciência’ é uma história de amor de dois adolescentes. Não é um texto longo, mas deu um trabalhão ao Mário de Andrade. Ele começou a escrever em 1924 e só terminou em 1942. Está no livro Contos novos (Nova Fronteira, 2015), que foi organizado e publicado depois da morte dele, ocorrida em 1945. É impressionante que depois de tanto tempo o conto não tenha envelhecido, nem desbotado. Agora, se o que você está procurando são cenas de sexo, esqueça. Não é por aqui. Mas fique sabendo que ‘Frederico Paciência’ é uma obra-prima da literatura erótica, nada menos que isso, uma obra-prima.”

 

A vulva é uma ferida aberta e outros ensaios. Gloria Anzaldúa. (A Bolha, 2021, trad. Tatiana Nascimento)

Indicado por Claudia Holanda, editora de conteúdo da Rádio Novelo e editora do podcast 451 MHz.

“Gloria Anzaldúa nasceu no Texas, Estados Unidos, filha de imigrantes mexicanos e foi uma das grandes responsáveis pela consciência mestiça na história do feminismo. Anzaldúa foi poeta, escritora, ativista feminista e falava sobre suas experiências fronteiriças. Ela se dizia uma mulher da fronteira. Cresceu entre duas culturas, a mexicana e a americana, e se identificava como uma chicana, mas não só isso. Ela também se dizia feminista, terceiro-mundista, com inclinações místicas.

O livro reúne seis ensaios e um poema, que, aliás, dá nome à obra. No artigo de abertura, ‘Falando em línguas – uma carta para mulheres escritoras do Terceiro Mundo’, ela argumenta sobre o poder da palavra escrita e incita mulheres a escrever, encontrando a musa soterrada em cada uma de nós. No livro, Glória fala de temas sensíveis, mas ela nos pega pela mão, nos chama de irmãs e é difícil não se identificar com as coisas que ela nos diz.”

 

Na casa dos sonhos. Carmen Maria Machado. (Companhia das Letras, 2021, trad. Ana Guadalupe)

Indicado por Stephanie Borges, escritora, tradutora e colaboradora da revista.

Na casa dos sonhos, de Carmen Maria Machado, é um livro de memória incomum, não só pela mistura desse relato memorialístico com ensaio — existe uma densa pesquisa sobre relacionamentos homossexuais, sobre abuso psicológico e sobre misoginia misturada às memórias da autora —, mas também pela maneira como o livro é estruturado. Estamos falando de uma narradora que está o tempo todo pensando em como e por que contar a sua história.

É uma pessoa que conta a sua história para sair de um lugar de vítima, para entender as experiências que teve, mas também para contribuir com reflexões sobre por que a nossa sociedade naturaliza uma série de violências nas relações amorosas. É um livro para todo mundo, que faz a gente pensar sobre as nossas expectativas em relação a relacionamentos, a felicidade nas relações amorosas e por que muitas vezes uma relação acaba criando dinâmicas abusivas. É uma leitura muito interessante e que me surpreendeu.”

Leia também: Stephanie Borges resenhou o livro na edição de setembro de 2021 da revista.

 

A cidade e o pilar. Gore Vidal. (Rocco, 1989, trad. Eliana Sabino)

Indicado por Alexandre Vidal Porto, escritor, diplomata e mestre em Direito pela Universidade Harvard.

“O livro conta a história do Jim Willard, um garoto modelo, excelente tenista que, durante a adolescência na Virgínia dos anos 30, se descobre homossexual. O livro vendeu muito e também causou muito escândalo quando foi publicado em 1948. É considerado nos Estados Unidos o primeiro romance do pós-guerra em que o protagonista é abertamente gay e não tem um final trágico. Foram os livros que me mostraram que ser gay não era uma condenação a tragédia e infelicidade. Isso me ajudou muito na minha autoaceitação. A cidade e o pilar, do Gore Vidal, foi um dos primeiros livros que eu li nesse sentido, por isso a dica.”

 

Um homem só. Christopher Isherwood. (Companhia das Letras, 2021, trad. Débora Landsberg)

Indicado por Carlos Adriano, cineasta e colaborador da revista.

“A Companhia das Letras lança nova tradução de um livro que é tido pela crítica, e pelo próprio autor, sua obra-prima: Um homem só, de Richard Isherwood. Publicado em 1964, cinco anos antes da insurreição de Stonewall — marco na conquista dos direitos homossexuais —, o livro acompanha 24 horas na vida do gay idoso George, professor de literatura em crise após a morte do seu companheiro. George passa o tempo de seu desencanto entre as aulas na universidade, as confidências com a amiga Charlotte, o flerte com o aluno Kenny e uma proustiana visita ao bar onde conheceu seu companheiro, o marinheiro Jim. 

Escrito em estilo irônico e implacável, sem complacência, nem condescendência, Um homem só é leitura obrigatória, não só por ser grande literatura, mas porque em tempos que tanto prezam questões de gênero, importa saber de revoluções do passado, que até permitiriam a um gay dizer: cheguei aqui.”

Leia também: Carlos Adriano resenhou Um homem só para a edição de dezembro da Quatro Cinco Um.

 

Ricardo e Vânia. Chico Felitti. (Todavia, 2019)

Indicado por Edu Araújo, roteirista e colaborador do podcast 451 MHz.

“O livro que escolhi é quase um filme: Ricardo e Vânia, do Chico Felitti, editado pela Todavia. Não por acaso ele já foi até adquirido por uma produtora de cinema. O livro conta a história do cabeleireiro e maquiador Ricardo Corrêa da Silva, que por conta da sua aparência ficou conhecido em São Paulo como o Fofão da Augusta. Essa história começou a ser contada antes, através de uma reportagem feita pelo próprio Chico, que viralizou. 

O livro é uma versão estendida desta reportagem, com mais detalhes e com uma nova personagem, Vagner, que depois passou a se reconhecer como Vânia, o amor da vida de Ricardo. Eu escolhi esse livro porque o Chico é um autor que joga luz em histórias anônimas, com muito afeto e sensibilidade, além de ser um dos maiores perfiladores da sua geração. Ao lado da mãe, Isabel Dias, ele percorre os mesmos caminhos feitos pelas personagens, dando protagonismo e dignidade para suas vivências. E nos emociona do começo ao fim.”

Vernon Subutex vol.1. Virginie Despentes. (Companhia das Letras, 2019, trad. Marcela Vieira)

Indicado por Marcela Vieira, tradutora e colaboradora do podcast 451 MHz.

“Trata-se de um livro em três tomos, entre os quais apenas o primeiro, até agora, foi lançado. O livro conta a história do Vernon Subutex, um homem hétero de meia-idade, ex-dono de uma loja de discos de rock e que se encontra completamente arruinado financeiramente, desempregado.

Desde o início do livro, o Vernon se vê despejado do apartamento em que morava e a gente acompanha ele numa busca por um canto onde dormir na casa de amigos e para isso ele recorre, muitas vezes, a mentiras para justificar as estadias que às vezes ficam prolongadas. Em uma dessas casas, que ele é recebido, ele conhece a transsexual brasileira Márcia e o Vernon fica perdidamente apaixonado.

O livro tem diversas camadas, outros personagens, outros acontecimentos. O Vernon, diante desses acontecimentos, vai se fortalecendo enquanto personagem. Vale muito a pena observar as camadas de narrativa que tem no livro e que vão permanecer nos próximos tomos. O Vernon é o porta-voz de uma sociedade viciosa, corrompida pelo preconceito, pela violência e pelo capital. É um livro que fez muito sucesso na França e essa é a minha dica.”

 

   

A autobiografia de Alice B. Toklas. Gertrude Stein. (L&PM, 2020, trad. Milton Persson)

O livro de cozinha de Alice B. Toklas. Alice B. Toklas. (Companhia das Letras, 1999, trad. Helena Londres)

Indicado por Flora Thomson-DeVeaux, tradutora e colaboradora da Quatro Cinco Um e do 451 MHz.

“Vim aqui recomendar um livro bonito e peculiar. Eu sempre tive uma queda por narrativas memorialísticas esquisitas, acho que não é à toa que eu quis traduzir Memórias póstumas de Brás Cubas, e esse livro faz boa companhia ao Brás, embora seja bastante diferente. Se chama A autobiografia de Alice B. Toklas

Assim como o Brás Cubas não escreveu as memórias dele, a Alice não escreveu a autobiografia dela. A autora, na verdade, é a companheira da Alice, a escritora Gertrude Stein. E o livro não trata explicitamente do relacionamento delas, mas narra toda a vida delas juntas na Paris do começo do século 20, com mil fofocas deliciosas sobre Picasso, Cézanne, Matisse, um monte de artistas que estavam na turminha delas, passando pela experiência da 1ª Guerra Mundial, transformação da França, tudo isso até 1932, que é quando a Gertrude decide escrever a autobiografia da Alice. 

É um dos textos mais ‘acessíveis’ da Gertrude Stein, foi o livro dela que mais fez sucesso comercial, mas tem as marcas do uso único dela da língua inglesa, com uma pontuação e estilo de escrita que aproximam o texto mais da oralidade. E tá em domínio público, então tem várias traduções por várias editoras, é só procurar. E no final das contas, a Alice nunca escreveu as memórias dela de fato, mas tem um pós-escrito curioso, que é: depois da morte da Gertrude, a Alice escreveu um livro de receitas. Chama O livro de cozinha de Alice B. Toklas, que mistura receitas com histórias da vida dela. Saiu pela Companhia das Letras no Brasil, está esgotado, mas tem alguns exemplares por aí, se alguém quiser garimpar.”

 

   

A fúria do corpo. João Gilberto Noll. (Record, 1981)
Acenos e afagos. João Gilberto Noll. (Record, 2006)

Indicado por Guto Alves, colaborador da revista e roteirista do episódio narrativo do 451 MHz sobre Caio Fernando Abreu.

“Não tem como a gente falar de literatura que trate da diversidade sexual sem lembrar do João Gilberto Noll. O Noll é chamado por muita gente de um transgressor homotextual porque em quase toda a ficção dele a gente consegue ver essa transgressão na forma, no encontro dos corpos masculinos, na interação do sexo, nas descobertas do desejo. Para ter contato com tudo isso, sugiro a leitura de dois títulos: A fúria do corpo, de 1981, e Acenos e afagos, de 2006, os dois da editora Record.

Nesses livros, dá para perceber bem esse erotismo homossexual que o Noll traz, dos corpos em contato, do toque da pele até o estranhamento do desejo, a aceitação do desejo, do próprio sexo. São livros que evidenciam bem esse trabalho de linguagem dele, que atinge tudo isso, esse sistema de ações, de uma forma muito corajosa, despudorada mesmo. Ele falava que a linguagem era um Abre-te Sésamo da ação e esses dois romances são dois ótimos exemplos disso. Eu considero a obra do Noll como um farol que acendeu uma estrada, como uma foice que abriu caminhos, inclusive para ter esse tema hoje de uma forma pop na literatura. É uma revolução tanto se ver nas páginas dele quanto ser apresentado a uma realidade que não é a sua de uma forma tão crua, tão desnudada, tão transgressora.”

 

Nossos ossos. Marcelino Freire. (Record, 2013)

Indicado por Paula Fábrio, autora do premiado Desnorteio e de Um dia toparei comigo.

“Esse livro ganhou o Prêmio Machado de Assis de melhor romance pela Biblioteca Nacional. Por meio de uma prosa poética, leve, divertida, Nossos ossos nos coloca diante de uma cena macabra e original. O livro conta a história de Heleno, um dramaturgo radicado em São Paulo, que resgata o corpo de um michê no necrotério na capital paulista e decide levá-lo ao interior de Pernambuco. Enquanto realiza o traslado, Heleno rememora a sua própria vida, passando por decepções amorosas, relações com michês e a construção de sua carreira no teatro. Além de ser um livro inteligente, bem construído, o que me cativou em Nossos ossos é o diálogo com a tradição literária brasileira, isto é, com os melhores narradores de Machado de Assis, por exemplo, mas não digo mais para não dar spoilers.”