Literatura,

Juro que sou triste

Crítico literário, pai do formalismo russo, escreve suas memórias

28nov2018 - 13h51 | Edição #19 dez.18/fev.19

“Só há duas maneiras de se viver: ou você escreve para si mesmo enquanto ganha dinheiro com alguma outra ocupação, ou se tranca em casa e contempla o sentido da existência. Não há uma terceira via. Eu escolhi a terceira via.” É verdade — em que outro lugar Viktor Chklóvski teria vivido, senão numa terceira via, a inexistente? 

O mundo em que ele nasceu foi a Rússia do final do século 19, a Rússia de Tolstói e dos czares. Viveu a Primeira Guerra Mundial e a Revolução de 1917. Reinventou-se muitas vezes e morreu em 1984, aos 91 anos, num mundo muito diferente daquele onde tinha nascido — e, projetando-se ainda além, disse que amava o futuro, e que era sempre preciso amar o futuro.

Hoje, nós, leitores do futuro, lembramos de Chklóvski como crítico literário, um dos “formalistas russos”, ao mesmo tempo o “patriarca e enfant terrible” do grupo, segundo um comentador. O que não lembramos, ou simplesmente não conhecemos, é o pano de fundo da criação dessa escola de crítica — como ficamos sabendo com esse livro, seus proponentes criaram o “formalismo” passando fome, reunindo-se em casas sem mobília porque, no inverno de São Petersburgo, os móveis já tinham virado lenha. 

Mas esse livro de memórias, publicado na coleção Narrativas da Revolução — organizada por Bruno Barreto Gomide —, não é só para os interessados em crítica literária. Ele fala do período entre 1917 e 1922, anos da Revolução e da Primeira Guerra, e de suas longas consequências. Para Chklóvski, são anos de luta, luto, perdas, exílio… e livros. Ele nos conta que trabalhou como mecânico de blindados, como montador de bombas (explodiu-se apenas uma vez); que participou de uma tentativa de golpe contra os bolcheviques; que foi denunciado, tendo que fugir com os manuscritos desse livro escondidos na mala; conta ter assumido uma identidade falsa e aprendido o ofício de sapateiro; conta das viagens a Pérsia, Ucrânia, Alemanha e Finlândia; conta que escreveu e deu aulas de literatura em meio ao caos; conta dos horrores da guerra e da morte de seus irmãos; conta da convivência com Górki, Mandelstam e Zamiátin; conta dos improvisos com os quais teve que se haver para sua sobrevivência. No final, não ficou cansado demais a
ponto de permitir que suas ideias soassem pesadas ou derivativas. 

Sua escrita tem tanto frescor que, mais do que enfant terrible, Chklóvski parece quase uma criança: desconhece a culpa, vive permanentemente curioso. “É bom viver e farejar a estrada da vida com o focinho./ O último pedaço de açúcar é doce. Embrulhado em seu próprio papelzinho./ O amor é bom./ E atrás das paredes estão o abismo, os automóveis e a nevasca de inverno./ E nós flutuamos em nossa balsa.” O poeta Mandelstam o descreve como “uma abóbora que pensa e ri”. De modo geral, os relatos de quem o conheceu seguem por essa linha: apesar de tudo que viveu, ele parecia sempre feliz. “Eu juro que sou triste”, disse certa vez a uma amiga. Mas era a tristeza de alguém que adorava Dom Quixote e Laurence Sterne, e que contou ter organizado seus livros na estante forçando os autores a viver em contradição uns com os outros.

Os objetos literários nos permitem ver as coisas como se pela primeira vez, sem o véu da familiaridade

A ideia mais conhecida do Chklóvski teórico é que a literatura promove um “estranhamento” (ostraniénie); ela nos faz desconhecer o mundo. Os objetos literários nos permitem ver as coisas como se pela primeira vez, sem o véu da familiaridade. Esse é o livro de um autor que concorda com o que professa. Sua escrita é estranha; Chklóvski parece não saber para que servem parágrafos (então inventa um jeito próprio de usá-los), não explica suas ideias e empilha imagens. “À noite, [o comunista] dormiu no meu sofá./ À noite, eu sempre sonho que uma bomba está explodindo nas minhas mãos./ Uma vez aconteceu um caso desses comigo./ Às vezes, à noite, eu sonho que o chão está caindo, que o mundo está desmoronando, eu corro para a janela e vejo que o último fragmento da lua flutua no céu vazio./ Eu digo para minha mulher, ‘Liússia, não se preocupe, vista-se, o mundo está acabando’./ O comunista dormia muito mal, ele gritava e chorava e delirava no sonho.”  

Esse livro é um original. Ele pertence à terceira via da literatura: a única que vale a pena, a que não existe.

Quem escreveu esse texto

Sofia Nestrovski

É mestre em Teoria Literária pela USP.

Matéria publicada na edição impressa #19 dez.18/fev.19 em novembro de 2018.