Literatura,

Doces e bárbaras

Em romance, dezenas de crianças invadem uma cidade tropical e criam uma sociedade paralela, com idioma e costumes próprios

01jun2019 - 01h00 | Edição #23 jun.2019

É comum pessoas quererem ter filhos com o argumento de que adoram crianças. Seria um motivo ingenuamente infantil, não fosse a infância um caso sério. Crianças não são os guardiões da inocência perdida, é sempre bom lembrar. São indivíduos, com personalidade e complexidade afetiva próprias. E têm uma imaginação ampla, que serve tanto à criatividade quanto, em graus variados, à destruição.

República luminosa é um romance de capítulos curtos e prosa precisa que defende essa ideia ambivalente. Ou melhor: não se trata de uma defesa, pois não há nada de programático ou maniqueísta no livro (como em O senhor das moscas, de William Golding, com o qual é frequentemente comparado), mas ele mostra, sem sentimentalismo, como a infância ou pré-adolescência pode virar as costas ao nosso amor exigente e restritivo. No caso, de formas surpreendentes.

Como diz o autor, o espanhol Andrés Barba — que ganhou com esse livro o prêmio Herralde de 2017, um dos principais em língua hispânica- —, “a infância é maior que a ficção”. Talvez por isso recorra a relatórios, colunas de jornal, ensaios, documentários, fotos de câmeras de segurança e até ao diário de uma menina de doze anos para contar a história de 32 jovens com idades entre nove e treze anos que invadem San Cristóbal, cidade tropical inventada, de 20 mil habitantes.

O fato de esses recursos da não ficção já terem sido, eles mesmos, incorporados à escrita ficcional não muda a força da frase de Barba. Mas nós projetamos a ficção que nos agrada em nossos filhos. E eles se sentem presos nela, na maior parte das vezes de forma invisível, tácita. Há segredos e mistérios nessa relação, que não se esgotam nem quando eles crescem e viram adultos.

Daí o fascínio que os 32 “selvagens” provocam nas outras crianças da cidade, que se sentem compelidas a se unirem a eles, seus “amigos”, aos quais tentam escutar, seguindo uma lenda antiga, colando o ouvido no chão para sentir sua reverberação. Daí, igualmente, o medo que causam nos adultos, pois, misturadas à selva e ao rio, surgidas do nada para espalhar alegria, caos e violência, vivem num “não lugar” e parecem “estar em todas as partes”. Ou seja, estão fora de seu controle e compreensão.

As crianças conjugam os verbos no presente, como se não tivessem lembranças nem fossem crescer

Logo no início, o narrador, um funcionário do Serviço Social, nos faz saber que a estranha aventura terminaria em tragédia. As crianças descabeladas, sem gênero evidente nem líder definido, inventoras de uma língua própria, invadem um supermercado, matam e ferem algumas pessoas e, depois de dias desaparecidas, são mortas. Antes disso, eram pequenos arruaceiros, de modos incompreensíveis (como a língua em que se comunicavam), mas que não chegavam a causar terror — apenas temor, curiosidade e receio.

O narrador, ele mesmo padrasto de uma menina, rememora os fatos depois de mais de vinte anos. A distância parece necessária para sedimentar o trauma, como as raízes de uma árvore, indiferentes à agitação humana. Sente-se sua impotência, sua culpa e sua admiração confusa por aqueles que formaram, com liberdade desconcertante, uma república luminosa, de brincadeiras, badulaques brilhantes, rituais espontâneos e impulsos de uma misteriosa coordenação coletiva.

Filologia do lúdico

Não é fortuita a evocação de exércitos infantis na África, de gangues de adolescentes nas favelas brasileiras ou de grupos como aquele mostrado no documentário As crianças da estação Leningradsky (dos poloneses Hanna Polak e Andrzej Celiński, 2005), que vivia numa estação russa de metrô. A discussão sobre diminuição da maioridade penal surge na história, vociferada por uma política conservadora. E o impasse sobre os imigrantes mundo afora paira como presença constante na narrativa. Em certo momento, são enumerados os casos de crianças criadas por animais — mas soam fora de lugar, uma distração curiosa apenas, diante do que está de fato em jogo.

O breve romance tem tons conradianos; não à toa, Barba traduziu, juntamente com sua esposa, a também escritora Carmen Cáceres, a obra do autor de Coração das trevas. Como afirmou em entrevistas, interessam a ele não apenas a interação a um só tempo doce e difícil dos adultos com os mais jovens, mas também a dicotomia entre civilização e barbárie, tão explorada nos romances do célebre autor anglo-polonês. O que é ser civilizado, afinal? E mais: o que é ser civilizado numa situação extrema, quando ficamos à mercê de reações inesperadas? Ao longo da narrativa — que vai se adensando como a selva que circunda, sombriamente, a cidade perplexa —, os adultos, os chamados responsáveis, vão assumindo atitudes questionáveis, como os anti-heróis de Conrad. O próprio narrador, cujo tom faz pensar numa pessoa sensível e até mesmo sensata, se deixa levar a extremos que desafiam a ética e o humanismo. 

A violência — poderia ser a conclusão — está na falta de comunicação, no sentido mais amplo da palavra. Formado em filologia, Barba arrisca uma construção da língua das 32 misteriosas crianças. O testemunho da menina que escreve o diário, apaixonada por um deles, é fundamental. Ela chega perto de descobrir algumas regras naquela fala, mas é pouco. Pois há muito de lúdico no que dizem — ou guincham — um lúdico que escapa ao senso comum. É como se nomeassem as coisas de acordo com uma associação que lhes parece natural, como se as palavras se confundissem com as coisas, fizessem parte daquela natureza fecunda que os rodeia e lhes serve de abrigo. 

Conjugam os verbos apenas no presente, como se não tivessem lembranças nem fossem crescer — de fato, não vão. Sua língua é sua liberdade (“nomear é outorgar um destino, escutar é obedecer”, reflete a autora de uma tese no livro) e também um prenúncio de sua tragédia. Não há futuro para eles numa sociedade que se apega a valores rígidos, que não faz o menor esforço de compreensão do outro, do diferente.  

Quem escreveu esse texto

Daniel de Mesquita Benevides

É jornalista e tradutor.

Matéria publicada na edição impressa #23 jun.2019 em maio de 2019.