Literatura,

Dez centímetros acima do chão

Contos breves são retratos de momentos de afetividade e delicadeza escritos com humor e, em certos casos, gravidade

01dez2018 - 02h51 | Edição #19 dez.18/fev.19

Em agosto de 2015, Vilma Arêas publicou na “Ilustríssima”, da Folha de S.Paulo, o texto “Um buquê de rosas para Décio de Almeida Prado”. Nele, contava de quando fora receber, em nome do crítico, já adoentado, um prêmio da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Terminada a cerimônia e de posse do certificado e de um buquê de rosas que deveriam ser entregues a Almeida Prado, ela foi jantar com amigos num restaurante suficientemente climatizado para aliviá-los do calor de dezembro e, quem sabe, salvar as flores. Lá chegando, certa de que as rosas não resistiriam, decidiu entregá-las ao “homem mais bonito do restaurante”. 

Em eleição feita rapidamente à mesa, resolveu-se que o agraciado seria um moço de camisa azul, pouco à vontade numa discussão com a mulher: “Fui até lá. Com minha presença, os dois se calaram. ‘Desculpe a intromissão’, eu disse ao rapaz, ‘estas flores são para uma pessoa ausente, porém muito especial. Então decidimos homenagear com elas o homem mais bonito do restaurante’ — fiz uma pausa estratégica. ‘Você ganhou por unanimidade. Aqui está seu prêmio.’ Estendi-lhe as rosas. Silêncio total. Quando eu já me sentia submergir, os garçons pousaram as bandejas e aplaudiram. As demais pessoas os imitaram. O rapaz se levantou sorrindo, segurou as rosas, me abraçou e beijou. Mais aplausos. Foi a glória”.

Pequenos encontros

Evoco essa história porque ela é uma espécie de resumo da escrita de Vilma Arêas: a capacidade de fotografar um momento, a poesia dos pequenos encontros, a disposição para o outro, a graça e o afeto em arranjo narrativo firme e quase sempre divertido (o quase é porque há também momentos de gravidade).

Um beijo por mês, seu livro mais recente, confirma esses traços. São menos de vinte textos, em que se combinam histórias breves, na maior parte muito bem-humoradas, e descrições sóbrias. Há neles uma disposição para o mundo — ou, seria mais justo dizer, uma mirada que se dispõe de fato a ver o que está à volta — que é própria da literatura de Arêas.

Trata-se, afinal, de uma escrita que tem os olhos e ouvidos abertos para a rua, para os que passam e para os que moram nela. Isso faria da escritora uma cronista, mas seus textos escapam a classificações sumárias.

O gosto pelo diálogo, especialmente presente em Um beijo por mês, é indicador dessa curiosidade da autora. Aparece, por exemplo, em uma de suas duas histórias intituladas “Na rua” (os nomes repetidos são usuais em seus livros), naquela que versa sobre sua conversa com um mendigo. Ela a inicia com uma menção a outro mendigo (referência a “Cromo”, em Trouxa frouxa, de 2000), mas para alertar: “Este de agora era como o outro, mas diferente”. O encontro da narradora com o homem que lhe pede um trocado começa áspero e impaciente — ela se irrita quando ele a chama de “paulista filha da puta” —, mas acaba assumindo uma dimensão lírica depois que ela o elogia, deixando-o felicíssimo.

Estar na rua é, na poética da autora, mover-se pelo desconhecido e pelo diferente — e estar nas ruas brasileiras é deparar com a violenta desigualdade social.

Esse é, aliás, o tema de seus instantâneos. São quatro, numerados e dispostos fora de ordem. Consistem em comentários descritivos, quase sempre sobre fotos, que revelam com crueza uma situação de vulnerabilidade. Têm crianças como protagonistas (sim, suas descrições têm protagonistas, são aqueles seres para quem seu olhar se volta e que, com vagar, revela) e a brutalidade como antagonista — que pode assumir a forma de um policial truculento ou simplesmente da miséria sem um agente por trás. Esses instantâneos são pequenas inflexões que pontuam a disposição das histórias e colaboram para imprimir uma configuração particular ao livro.

Estar na rua é, na poética da autora, mover-se pelo desconhecido e pelo diferente — e estar nas ruas brasileiras é deparar com a violenta desigualdade social

Há, porém, em cada texto, sobretudo nos de cunho mais narrativo, uma temporalidade de gente de teatro. Professora aposentada de teoria literária da Unicamp, Arêas escreveu seu doutorado sobre as comédias de Martins Pena — aliás, sob orientação de Décio de Almeida Prado. É, portanto, uma leitora especialista no assunto e não à toa parece ter assimilado certo tempo de comédia, de que faz uso em algumas de suas histórias.

É o que se vê em “A entrevista”, em que a autora se torna personagem. A história se constrói por meio de rubricas teatrais e das respostas dadas, que sempre se opõem ao parti pris da questão que as ensejou. Não é dado ao leitor o conhecimento do que lhe é perguntado, apenas o ruído que isso promove nas respostas que ela dá e de que resulta sua comicidade.

Ou em “Como se fosse eu”, saborosa história que abre o livro. Saindo do oftalmologista, com as pupilas dilatadas, a narradora conta seu diálogo com o motorista de táxi que a leva de volta para casa. Ele começa a cortejá-la, acha graça em seu jeito “dez centímetros acima do chão”, e ela entretém a conversa, embora ressalte que não é a mulher ideal para ele. Não há em nenhum momento a repulsa ao flerte ou o estabelecimento de um corte por ser ele o motorista e ela a passageira. As razões a que alude para a recusa estão na idade ou em seus humores. Há uma delicadeza bem-humorada de quem se dispõe ao mundo e às pessoas com quem topa nas situações mais corriqueiras, seja na saída da consulta ao oftalmologista ou ginecologista, seja numa ida ao banco para sacar dinheiro.

Faz isso, porém, sem resvalar para o anedótico, porque confere dignidade a seus personagens, e isso não é pouco. Mas também porque dispõe as histórias de modo a não deixar que o leitor se perca nas pequenas fulgurações do cotidiano. Afiada, distribui seus textos de tal maneira que não permite que nos acomodemos. Depois do enternecimento com a história do taxista enlevado, passamos a uma narrativa cujo título descompromissado, “Curtas”, poderia sugerir a brevidade dos três fragmentos que a compõem. No entanto, ao dispor um fragmento sobre a juventude de Noam Chomsky ao lado de um sobre o que aconteceu à argentina Silvia Suppo aos dezessete anos e, entre os dois relatos, o de três adolescentes moradores do Complexo do Alemão do Rio, o título se adensa e agrava.

São esses os recortes — é assim que ela nomeia as histórias do livro — de uma escritora aguda que constrói uma literatura que se detém nas pessoas, jamais pairando sobre elas.

Quem escreveu esse texto

Rita Palmeira

É crítica literária e curadora da livraria Megafauna, em São Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #19 dez.18/fev.19 em novembro de 2018.