Arte, Literatura,

Às margens de Rosa

Centrado no leito de um rio, livro ilustrado de Odilon Moraes é uma homenagem aos símbolos de João Guimarães Rosa

13nov2018

Um bom jeito de navegar pelas águas de Rosa, novo livro ilustrado de Odilon Moraes, é com olhos de Miguilim. Como o personagem da novela de João Guimarães Rosa, que ao ganhar novos óculos passa a enxergar as miudezas do mundo, aqui o convite também é a ver com olhos desacostumados. É de um branco leitoso o rio que corre já na capa, onde se lê “Rosa”, em vermelho. O tecido na lombada do livro é marrom, assim como a colagem da estreita faixa de terra que margeia o rio. As texturas se apresentam de imediato. Um chamado para tocar, abrir, desfolhar as tantas camadas dessa rosa plural e tão singular.

Depois de entrar, é inevitável rever cada par de páginas em movimentos simultâneos de ida e volta. Não se trata de leitura apressada. Há um desencontro entre o tempo da imagem e o do texto. Há silêncios profundos, páginas quase vazias e outras completamente preenchidas por traços ágeis, que pedem observação demorada. No texto enxuto, predomina o não dito. Há um Grande Sertão a se atravessar em meio a tanta água. Como Riobaldo e Diadorim no porto do Rio de Janeiro, estamos às vésperas de um encontro que, desde antes da primeira página, se anuncia intenso.

A relação de Odilon — que foi vencedor duas vezes do Prêmio Jabuti de ilustração, em 1994 e 2009, entre outros prêmios notáveis — com grandes nomes da literatura nacional não começa com João Guimarães Rosa. Ele ilustrou a crônica “Será o Benedito!”, de Mário de Andrade, que integra a coleção Dedinho de prosa da extinta editora Cosac Naify, e, mais recentemente, o conto fantástico de Murilo Rubião, “Teleco, o coelhinho”, publicado pela editora Positivo.

Na nova obra, as referências ao universo rosiano não são poucas. Odilon é leitor e admirador do autor mineiro. Em entrevista ao blog Era outra vez, conta que desejou que o livro fosse como uma continuidade do conto A terceira margem do rio, de onde saíram a epígrafe — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” — e trechos reescritos — “Rio abaixo, rio afora, rio adentro […]”. A primeira imagem lembra, ainda, outro conto de Primeiras estórias. O homem parado na estação de trem bem poderia ser Sorôco. A loucura também está à espreita aqui, assim como os vínculos parentais. Odilon iniciou a produção quando nasceu seu primeiro filho, João, e levou cerca de cinco anos para concluí-lo. O livro é dedicado a ele e também ao pai do autor.

Estamos às vésperas de um encontro que, desde antes da primeira página, se anuncia intenso

Como no conto de Guimarães Rosa, um pai faz do rio sua morada. Como lá, há um filho chamando pelo pai. No livro de Odilon, o menino, no entanto, tem nome: “‘Vai se chamar Rosa’, disse. ‘Rosa, só Rosa, mais nada. Rosa, igual nome de flor’”. Rosa, como João Guimarães Rosa. Rosa e seus símbolos: travessias nonada. A rosa e seus arquétipos: o amor e a poesia. No texto, apesar de nomear um menino, não se lê “o Rosa” ou “a Rosa”, apenas “Rosa”. 

Não há gênero definido para a poesia e, sem dúvida, estamos diante de um livro-poema. Plurissignificativo em suas linguagens verbal e não verbal, é sobretudo nas frestas que se abrem na intersecção dessas duas formas de expressão que se encontra o poético, ou a terceira margem. A poesia está, para Odilon Moraes, na própria natureza do livro ilustrado, no qual predomina a sugestão, mais do que a explicação.

Enquanto no conto de Guimarães Rosa temos a suspensão do encontro entre pai e filho, no livro de Odilon Moraes, prevalece a sugestão do encontro. Verbalmente, isso se dá nas marcas temporais de um futuro do pretérito, somado ao gerúndio e na imprecisão espacial: “que ainda estaria chamando de algum lugar”. O que se vê ilustrado nas páginas finais que acompanham o trecho citado é o leito do rio confundindo-se com a brancura do papel levemente amassado de onde brota, ao centro, uma rosa vermelha, e, no canto da página, a sombra de uma canoa se aproximando.

Esse “algum lugar” do desejado encontro pode ser o leito do rio, essa terceira margem espessa a correr no perpétuo. Mas pode ser também o códex, o objeto livro tradicionalmente costurado ao meio, abrindo páginas a serem folheadas e lidas como par, horizonte, leito. É nas folhas que convidam ao manuseio do leitor que está o lugar do possível encontro. 

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Quem escreveu esse texto

Cristiane Tavares

É crítica literária, coordena a pós-graduação Livros, Crianças e Jovens: teoria, mediação e crítica no Instituto Vera Cruz (SP).