Literatura,
A hora e a vez das vadias
Com mulheres que revidam e contam suas versões dos fatos, Dahlia de la Cerda resume a resistência de personagens tratadas como lixo
29jul2025 • Atualizado em: 19ago2025 | Edição #97Esqueça o Tarantino aludido no título de Cadelas de aluguel, de Dahlia de la Cerda. O universo que ela apresenta, na excelente tradução de Marina Waquil, é muito mais complexo. Apesar de o tema central dos contos ser a violência no cenário da cultura pop, o fato de todas as personagens serem do gênero feminino faz toda a diferença. E também a diversidade de “perras” (“cadelas”) que a autora retrata.
Tanto no México como no Brasil, “cadela” denota a vadia, a piranha, a desprezável, mas também pode ter o significado positivo de mulher foda, poderosa. São assassinas, travestis, putas, operárias que gostam de se divertir, ladras, mulheres milionárias de políticos e narcotraficantes, mulheres narcotraficantes, mulheres que abortam, bruxas; mulheres. Todas lidas como cadelas, vadias, vagabundas, impuras. As personagens deste livro são mulheres que revidam, que contam suas versões, mesmo quando já foram assassinadas. Uma delas descreve seus algozes como “podia ser meu primo, meu pai”.
Uma menina mexicana miserável viajando clandestinamente zomba da morte dançando uma cúmbia com a companheira colombiana sobre um vagão de carga da Bestia, o complexo ferroviário mexicano onde imigrantes latino-americanos arriscam a vida para chegar aos Estados Unidos ou trabalhar nas Maquilas, fábricas de fronteira. Uma morta de fome ataca mulheres sem marido, uma filha de político sonha em ser mulher de narcotraficante; uma narcotraficante com traços feministas vinga a amiga assassinada por outro narco; uma menina trans sai de casa porque sua mãe a espanca por usar sutiã, batom e cabelo comprido e ser puta. Outra mãe chama de impura uma menina com o corpo de mulher e a entrega para um casamento desgraçado com um homem quinze anos mais velho.
Em “Salsinha e Coca-Cola”, acompanhamos o aborto de uma moça grávida de um desconhecido “que trepava mal” numa noitada de bebedeira. Como ela própria diz, “sou o tipo de garota que costuma ser usada como argumento contra o aborto”. Para quem leu O acontecimento (Fósforo, 2022, trad. de Isadora de Araújo Pontes), de Annie Ernaux, o tema pode querer aproximar as duas obras, mas, apesar de se tratar de duas moças das classes populares, a jovem do conto não conduz uma narrativa limpa e elegante para contar a dor. A personagem de De la Cerda come comida industrializada e assiste a séries da Netflix enquanto espera os efeitos do abortivo.
Nas suas histórias não há simplificações, há mulheres de carne e osso além de seus estereótipos
No entanto, o encontro com esse acontecimento duro é tão importante numa narrativa como na outra. Eu sou de um tempo em que não havia pílulas abortivas. Muitas, muitas mulheres perto de mim abortaram, algumas acompanhei em clínicas clandestinas, e elas viveram dramas muito parecidos com o de Ernaux. Eu poderia ter sido uma delas. Esse assunto feminino, entre tantos outros, só neste século 21 tem se tornado literatura que frequenta festivais consagrados. Os temas da violência contra mulher cada vez mais estão na literatura de autoria feminina, aquilo que sofremos mais ou menos caladas até pouco tempo atrás e outra parte grande ainda sofre.
A chamada terceira onda feminista não atinge a maioria das mulheres, e estamos num tempo de crescente feminicídio e violência contra nós. Criar, como faz De la Cerda, pontos de vista dessas personagens tratadas como lixo é fundamental num tempo em que alcançamos vitórias, mas ainda temos que lutar para conservá-las, espalhá-las para uma grande parte que ainda não goza dessas conquistas e evitar retrocessos como aconteceu no Brasil dos últimos anos.
Pulo do gato
Mais Lidas
Mas não se trata de uma literatura abertamente engajada. Aí é que está o pulo do gato no livro, que parece ter atraído todo tipo de leitor no México, sendo finalista do prêmio britânico International Booker Prize. A autora, filha da classe trabalhadora e formada em filosofia, conjuga uma escrita quente e contemporânea, fruto de sua experiência com uma etnografia muito bem feita de diversas mulheres através da escuta de suas conversas e falas nas ruas, nas redes sociais. A frase “ele não precisa de um pai porque têm muitas mães”, por exemplo, ela leu de soslaio no WhatsApp de uma mulher que estava ao seu lado num ônibus.
Nas suas histórias a moral não tem vez, mas empatia com moral e ética diversas tem. Também não há comiseração, simplificações, há mulheres de carne e osso além de seus estereótipos. Cada história tem uma trilha sonora, como corridos, canções mexicanas que narram biografias melodramáticas, músicas de telenovelas como “Mariposas de barrio de Jenni Rivera”, cujos versos reproduzidos no conto homônimo — “aunque venía llorando mis alas levanté” [ainda que viesse chorando minhas asas levantei] — resumem a resistência das oprimidas.
Mergulhando no mundo da cultura de massa mexicana, a autora escreve contos com personagens com que as variadas vadias latino-americanas que nos constituem se identificam. O que há em comum é a violência estrutural que nos assola e torna parte de nós também violenta. Lemos nas histórias a ânsia de tirar de cima de nós homens que abusam, como maridos, pais, chefes, vizinhos, parentes, clientes, homens.
Não poderia ser um homem o autor, mas não se trata de contos só para mulheres. O livro pode ser viciante, para qualquer leitor maratonar. Apesar dos dramas que encontram correspondência na nossa bruta realidade, também é possível rir. Além disso, já é e será objeto de inúmeros estudos. Trata-se afinal de um livro bom. Aquele que dá prazer, ajuda a entender como vive parte expressiva das mulheres na América Latina e em outros rincões. Cadelas de aluguel vem se juntar a uma nova literatura polifônica que durante séculos, por questões de gênero, raça e classe, elidiu vozes de uma parte considerável da humanidade.
Me pergunto se no Brasil já há uma literatura das vadias e descartadas. De la Cerda é convidada da Flip para uma mesa com a argentina Dolores Reyes, chamada “A mulher na América Latina”, o que nos leva a perguntar mais uma vez: E nós não somos latino-americanas?
Que autora brasileira poderia se sentar com elas? Talvez Amara Moira, Monique Prada, Lourdes Barreto, Indianarae Siqueira, que narraram em livros sua experiência como putas e mulheres dissidentes. Ou a geração funkeira feminista pioneira dos anos 2000: Waleska Popozuda, Tati Quebra Barraco, Deise Tigrona, que cantaram antes de todas “a porra da buceta é minha”; e mais recentemente Mc Carol: “Faço meu corre/ Eu não dependo de um merda”. Poderíamos também escutar desde a vala comum do Juquery a artista Aurora Cursino dos Santos (1896-1959), que nos anos 50, nas dependências de um hospital psiquiátrico, pintou e escreveu sobre sua puta vida contra todo o patriarcado.
As muitas cadelas latino-americanas em toda sua diversidade — brasileiras incluídas — finalmente têm um livro para chamar de seu.
Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025.
