Literatura infantojuvenil,

Sacode a cabeleira

Sidnei Nogueira pluraliza perspectivas na literatura e incentiva crianças a se apropriarem do que as torna únicas

01dez2023

Fazer arte infantojuvenil, até ontem, era um exercício bem monocromático. Vejamos o cinema. O primeiro longa-metragem da Disney, de 1937, tinha uma princesa alva até no nome, Branca de Neve. E lá se foram 72 anos até que o império de Walt Disney lançasse sua primeira mocinha negra, Tiana, em A princesa e o sapo. Ainda assim, um ponto fora da curva da brancura que domina a trupe de heroínas.

Na literatura, geração atrás de geração se acostumou a ter como referência um monte de crianças de pele clara, mesmo num Brasil onde a maioria via algo diferente no espelho. Jeremias, o guri da boina vermelha, foi por décadas o único amiguinho de tez preta na Turma da Mônica. O clássico Sítio do Picapau Amarelo tinha como maior personagem negro Tia Nastácia, uma empregada “como se fosse da família”. Não precisamos entrar no mérito se o fartamente publicizado racismo de Monteiro Lobato merece um juízo extemporâneo para cravar que os livros infantis por muito tempo privilegiaram protagonistas tão brancos quanto a amiga dos sete anões.

De uns anos para cá, essa realidade unicolor tem desbotado, e uma cartela mais diversa de crianças aparece para leitores em formação. Claro que ainda falta chão para algo próximo de representatividade na cultura, mas cada vez mais a galerinha de hoje não acha que o universo literário tem um único tom. Minha filha de três anos é tão fã do Menino Maluquinho, branco como ela, quanto da menina feliz por ser tão pretinha quanto as frutinhas com sabor acalanto que Emicida cita em Amoras.

Plural

A menina dos cabelos d’água, do babalorixá e doutor em semiótica Sidnei Nogueira, entra nesse movimento de pluralizar perspectivas na literatura até que não tenhamos mais que falar em movimento, apenas encará-las como algo estrutural do campo — veja só que ideia louca, apresentar pontos de vista distintos sem que essa diversidade vire um tópico em si.


A menina dos cabelos d’água, de Sidnei Nogueira

O livro tem formato lúdico: em vez de páginas encadernadas, são 26 minipôsteres dentro de uma caixa, com texto no verso e ilustrações deslumbrantes de Luciana Itanifè na frente.

Vamos à história: Omilayó tem cabelos lindos, mas nem todo mundo percebe. Alguns o tocam sem pedir licença, e a dona das madeixas feitas de água fica brava. Às vezes reclama, às vezes deixa pra lá. Alguns pais proíbem seus filhos de brincar com a garota. Aquele seu cabelo só podia ser sinônimo de encrenca.

Os fios de Omilayó, se pingassem no solo, faziam brotar flores. O seu entorno, contudo, não ligava para esse superpoder. Todos riam, menos ela, quando as crianças chacoalhavam sua cabeleira para molhar tudo ao redor. A garota tenta escondê-la com turbante, docilizá-la em tranças. Nada funciona. Ela se sente sozinha no mundo.

Livros podem ser ferramentas poderosas para a autodescoberta, e isso vale para todas as crianças

Omilayó são muitas, e nem sempre elas têm instrumentos para entender o que a protagonista de Nogueira sacou depois de ouvir de uma tia que sua tataravó tinha cabelos como os dela. E era uma rainha, tal qual Iemanjá.

Livros podem ser ferramentas poderosas para a autodescoberta, e isso vale para todas as crianças. As que zoam, por absorverem dos mais velhos que uns são melhores do que os outros, e as que são zoadas. Pode acontecer por terem um cabelo que por tempo demais foi chamado de “ruim” ou por qualquer outro motivo que as torne alvo preferencial de preconceito.

Já em 1993, a americana Maya Angelou falava em “meninas imbatíveis de cabelos crespos incríveis” em A vida não me assusta, poema que virou um livro ilustrado por Jean-Michel Basquiat. Depois veio bell hooks com Meu crespo é de rainha e A pele que eu tenho.

O cabelo de Omilayó é mais do que uma metáfora para quem atravessa a infância escutando que só será aceito se abdicar do que o torna único para se pasteurizar numa mesmice tediosa e em vários casos — porque é preciso nomear as coisas —, racista.

O autor, quando percebeu que queria escrever para crianças, não conseguia tirar da cabeça um provérbio iorubá: “Quem joga água à sua frente, caminha sobre a terra úmida”. Por solos literários mais férteis para as futuras gerações, para que nenhuma Omilayó se sinta solitária nesta vida.

Quem escreveu esse texto

Anna Virginia Balloussier

É jornalista. Lançou Talvez ela não precise de mim: Diários de uma mãe em quarentena (Todavia).