Literatura, Literatura infantojuvenil,

O desejo de ser única

Coleção com ilustrações da premiada Albertine apresenta aos pequenos conceitos como alteridade e individualidade

01out2022 - 04h51 | Edição #62


Ilustração de Albertine para Marta e a bicicleta [Divulgação]

Marta é uma vaca laranja que vive entre vacas malhadas no sítio do senhor Pinchô. Ela tem muitas coisas para contar nos quatro livros escritos por Germano Zullo, autor do texto, e pela premiada ilustradora Albertine (ganhadora do importante prêmio infantojuvenil Hans Christian Andersen). Originalmente publicados pela La Jolie de Lire, em 2010, a coleção foi lançada no Brasil com muito capricho pela Editora 34.

      

Cada um dos livros tem sua graça e é uma boa história, mas, quando dispostos em série, ganham perspectiva. Se as quatro narrativas estivessem todas em um mesmo livro, fixadas em uma sequência preestabelecida, é bem possível que, seduzidos pela linearidade imposta, deixássemos de perceber as curvas que se desenham nos cruzamentos entre o acaso e o desejo que tecem uma vida. Articulados por esse recurso de narrativa, os livros dão ao leitor a possibilidade de andar com Marta pelos caminhos que ela traçou com o impulso da própria curiosidade.

Talvez por vício do ofício, esse modo escandido de uma vaca-menina contar as suas histórias me remete ao ritmo de uma psicanálise. Conversei com Marta em quatro sessões, uma depois da outra, mas que, não necessariamente, deram lugar a acontecimentos cronologicamente ordenados no tempo da sua vida: entre fatos, sonhos, devaneios e lembranças, o que importou foi o jeito que Marta escolheu para falar de si e construir sua ficção — ou, para sermos mais atuais, sua autoficção.

Quatro encontros

Marta, aliás, está sempre fazendo coisas: ela passeia, olha, pensa, duvida, se encanta, sente saudade, estranha, quer entender, prefere, detesta, se assusta, se espanta. Como criança, exerce seu direito inalienável de perguntar e de se perguntar. Foi assim que, num domingo qualquer, sentada no pasto e com o desejo de ser diferente daquilo que a rodeava, Marta assistiu a uma volta da Grande Corrida de Bicicletas e decidiu ser ciclista.


Ilustração de Albertine para Marta e a bicicleta [Divulgação]

Não foi fácil aprender. Em Marta e a bicicleta, ela tomba, levanta, cai mais umas vezes, aprende a pedalar e se torna campeã! O que ela não colocou na conta, porém, é que seu feito era contagioso e que inspiraria suas amigas. De uma hora para outra, todas as vacas do sítio queriam pedalar e fazer acrobacias com as bicicletas, mas a Marta… a Marta queria ser a única, e a bicicleta perdeu a graça. Daí, perguntei: o que é ser original para você, Marta?

No nosso segundo encontro, Marta chegou dizendo que quando se desiludiu com as bicicletas, olhou para cima e viu balões lindíssimos. Em Marta no país dos balões, ela conta que ficou muito curiosa: queria saber de onde eles vinham. Entendeu rapidinho que, para responder a essas perguntas, teria que deixar o sítio e andar até o país dos balões. O Sr. Pinchô, meio contrariado, emprestou-lhe o trator, e Marta, enfrentando as montanhas do mundão e o próprio medo, foi. Quando chegou lá, ficou encantada, mandou um cartão-postal para o pessoal do sítio e resolveu seguir viagem. Enquanto atravessava fronteiras pelos ares, inquieta, ela quis saber sobre a vida no fundo do mar.

Em Marta e o polvo, ela quer descobrir o que existe debaixo dos oceanos. Será que ali haveria “estradas e cidades, montanhas e pasto, nuvens e estrelas?”. Quando conseguiu chegar ao fundo do mar, Marta saiu falando com quem via pela frente, mas o pessoal de lá não sabia que ela era legal, e eles, com muito medo, fugiam. Marta, que queria muito conversar, ficou angustiada… Ela, então, recuou um pouco, achou uma forma de se apresentar e, só depois disso, foi acolhida pelo braço amigo do Polvo, que amorteceu sua presença incômoda naquelas paradas. Nesse episódio em que Marta levou seu primeiro grande susto de viajante, ela pensou sobre o que é ser estrangeira, estranha e assustadora. E foi aí que entendeu que essa é uma posição e tanto.


Ilustração de Albertine para Marta e a bicicleta [Divulgação]

Mas foi só em O retorno de Marta, enquanto desfazia a mala, distribuía presentes e matava a saudade da sua turma, depois de tantas viagens e de conhecer tantos mundos, que Marta contou, naquele que seria o nosso último encontro, o que podia fazer então com sua vontade de ser original.

Na volta para o sítio, Marta percebeu uma mudança na paisagem, e as amigas contaram que, no lugar da cerca, estavam construindo um muro enorme “pra nos proteger de lá fora”. Depois de tantas andanças, Marta se assustou e disse para as amigas malhadas que ter medo de tudo faz envelhecer depressa. Com firmeza, convidou as outras a fazerem o que só ela tinha feito até então: levou as amigas para fora dos limites do sítio. Elas passearam juntas, descobriram novos pastos, flores e brincadeiras. Fizeram amizade com o lobo de quem achavam que deveriam ter medo. Todas juntas, as vacas coloridas destruíram o muro e tiraram a cerca que atrapalhava a paisagem.

Quando nos despedimos, percebi que a Marta tinha entendido que segurança é algo que se produz numa relação decidida com a alteridade. Marta aprendeu, e transmitiu para as suas amigas, que o que a gente precisa mesmo, para produzir diferença no mundo, é ocupar o espaço público, e isso a gente faz com os outros. 

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Ilana Katz

É psicanalista e pesquisadora do Latesfip da USP.

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.