Literatura estrangeira,

Fantasmas longevos

A capacidade de criar nas lacunas de uma história ocorrida há 480 anos rendeu a Hilary Mantel dois prêmios Man Booker e uma legião de fãs

01nov2020 | Edição #39 nov.2020

Seis rainhas, traições, jogos de poder, cabeças que rolam literalmente. Os fatos históricos do reinado de Henrique 8o são suculentos demais para não inspirar a ficção. Prova disso é o sucesso da “trilogia Wolf Hall”, da britânica Hilary Mantel, 68, que explora a figura curiosa de Thomas Cromwell (1485-1540), plebeu que alcançou a posição de braço direito do rei — até perder a cabeça, fim um tanto corriqueiro na corte Tudor. Lançado em inglês em março, o volume final, The Mirror and the Light (O espelho e a luz), deve chegar ao Brasil apenas em 2021 pela Todavia, que lançou o primeiro, Wolf Hall, em setembro, e publica o segundo, Tragam os corpos, neste mês.

Os dois primeiros livros (publicados no Brasil pela Record em 2011 e 2013) elevaram o patamar de vendas das obras de Mantel e receberam, ambos, o prêmio Man Booker. Com auxílio da autora, foram adaptados para o teatro pela prestigiosa Royal Shakespeare Company e para a TV pela BBC. O esperado fim da trilogia não levou o Man Booker, mas arrancou da crítica diferentes formulações de uma mesma afirmação: o retrato de Cromwell por Mantel reconfigurou o campo da ficção histórica. Escreve Stephanie Merritt no The Guardian: “Mantel redefiniu aquilo de que o romance histórico é capaz; deu-lhe força e energia, alargou seu escopo e criou um estilo de prosa que é lírico e coloquial, ao mesmo tempo fiel à sua época e totalmente reconhecível para nós”. Como exatamente faz isso? Como uma autora mantém milhares de leitores em compasso de espera para o fim de uma história que já conhecemos desde o século 16? Antes de mais nada, uma certa reverência à própria história: Mantel é conhecida pela pesquisa minuciosa dos fatos, dos quais raramente se desvia. É nas lacunas que injeta nova vida a uma trama bem conhecida exatamente por conter o que seduz — poder, sexo, política, religião.

Como uma autora mantém milhares de leitores em espera para o fim de uma história que já conhecemos desde o século 16?

O Cromwell de Mantel foge de casa após uma surra violenta do pai, um ferreiro londrino. Passa por soldado mercenário na França, é abrigado por um banqueiro florentino e, na Itália, aprende direito e faz uma poderosa rede de contatos. De volta à Inglaterra, vai trabalhar com o cardeal Thomas Wosley, um plebeu que ascendeu na sociedade. O que consome Wosley custará sua cabeça e tantas outras: a “grande questão” do rei. Da dinastia Tudor, que subiu ao trono como uma promessa de estabilidade após anos de conflito da Guerra das Rosas (1455-85), Henrique 8o precisa desesperadamente de um herdeiro. Sua primeira rainha, Catarina de Aragão, só lhe dá uma filha, e o jovem rei quer se divorciar para gerar um filho com Ana Bolena, cortesã inteligente e partidária da reforma religiosa.

O cardeal não consegue livrá-lo do casamento dentro da Igreja católica e cai em desgraça na corte. Cromwell sai ileso — e cai nas graças do rei. Torna-se uma das principais forças por trás do Ato de Supremacia de 1534, que dá ao monarca o título de chefe da Igreja anglicana, livrando-o da autoridade do papa e fazendo-o acumular poder — e inimigos. 

Camadas

Figura central em um dos períodos mais fascinantes da história inglesa, Cromwell poucas vezes havia ganhado estofo na literatura, quase sempre visto como o vilão que faz o trabalho sujo do rei. Nas lacunas dos registros históricos, Mantel constrói um personagem elaborado e complexo, cujas camadas tanto encobrem quanto revelam. O leitor o acompanha em sua lida pragmática com a nobreza e a Igreja, corpos e fantasmas. É, acima de tudo, um sobrevivente, endurecido pela perda — não só do cardeal, mas da mulher e de duas filhas, levadas pela misteriosa “doença do suor”, que vitimou 3 milhões de ingleses em seis décadas. 

O talento de Mantel sobressai em passagens como a da farsa dos Bolena na corte ao mostrar o cardeal Wosley a caminho do inferno. A encenação de fato aconteceu, mas não necessariamente como a autora descreve. O historiador Robert Hutchinson afirma que foi no palácio de Richmond, mas o embaixador de Carlos 5o e Francisco 1o, Eustace Chapuys — uma das principais fontes históricas sobre as disputas na corte de Henrique —, escreve que ocorreu em um jantar privado na casa de Thomas Bolena para o embaixador francês Claude la Guiche. Quanto aos participantes, não há registro algum — a cena com Cromwell nas sombras observando os participantes retirarem as máscaras e tomando notas mentais de suas identidades é fruto apenas do engenho da autora em construir uma trama surpreendente em torno de acontecimentos há muito conhecidos. 

O fato de que Cromwell foi executado há 480 anos não impediu que os leitores fizessem disparar, após oito anos de espera, as vendas do último livro, com a versão de Mantel — outro momento em que sua capacidade de criar nos interstícios da história atinge efeito máximo. É um fim digno do personagem de camadas múltiplas, ou, como ele mesmo vê, diferentes vidas. Nelas, empilham-se corpos e fantasmas; úteros, fetos e herdeiros; corpos unidos em ato sexual ou na falta dele; uma perna real ulcerada que encoraja as facções de poder da corte e destrói o equilíbrio de seu dono. Corpos que atraem e corpos que repelem — embora Mantel torça uma das rejeições mais famosas da história, a de Anne de Cleves, chamada de “égua de Flandres” pelo rei. Na pena de Mantel, a quarta rainha é rejeitada por não conseguir esconder a repulsa ao monarca velho, obeso e doente.

Os fantasmas se multiplicam conforme passam os anos, muitos mortos com ajuda de Cromwell, hábil em produzir leis de acordo com as vontades voláteis de sua majestade. Mas é o espectro do cardeal Wosley que o acompanha com mais intensidade. O encontro com a filha dele, anos depois, é como um presságio, uma imagem assustadora no espelho que prevê o início do pesadelo. O espelho e a luz do rei captam também seu entorno, os rostos endurecidos de quem ajudou a enterrar uma pilha de corpos. O corpo de Cromwell não está a salvo dos caprichos do rei — de seu, ele tem apenas a memória, a consciência. Sua história se fecha onde começou: um menino apanha brutalmente do pai. Em seu momento derradeiro, o Thomas Cromwell de Mantel ganha mais uma camada, quase num sinal de despedida. Deixará saudades.

Quem escreveu esse texto

Marina Della Valle

Jornalista e tradutora, é doutora em Letras pela USP.

Matéria publicada na edição impressa #39 nov.2020 em outubro de 2020.