Laut, Liberdade e Autoritarismo, Literatura infantojuvenil,

Unir é misturar

Autor usa grupo de galinhas para abordar questões de organização social e desigualdades de raça e gênero

01out2020 | Edição #38 out.2020

Diante das crianças, nós, supostos adultos, costumamos confundir nossa tarefa educativa com uma certa tendência explicativa e moralizante. Não é incomum que façamos discursos edificantes sobre o que é certo na vida e como devemos tratar as outras pessoas. Contamos histórias e experiências para as crianças e, no final desse falatório, interpretamos sozinhos o que acabamos de dizer; concluímos, então, emocionados, com uma enfadonha lição de moral. É por isso que Juntos e misturados: uma história de galinhas é um livro que vale a pena (com perdão pelo trocadilho irresistível). 

O galinheiro está em polvorosa porque o galo branco, Marcel, e a galinha ruiva, Gertrudes, desapareceram. Mesmo as galinhas pretas, que não perderam ninguém, imaginam inimigos sequestradores e se sentem ameaçadas. É assim que as galinhas de três cores diferentes se juntam para lidar com um tema que nos é caro: a segurança. Nervosas, pensam em se armar e reforçar cercas, mas acabam decidindo pelo ataque e formam um exército para partir em busca dos seus. 

Organizadas em torno de um inimigo comum, a decisão sobre o lugar de cada uma na formação do batalhão passa a ser o foco de nova discussão. Enquanto decidem quem ocupa o lugar de honra, de proteção e de liderança, cacarejam argumentos em torno da noção de representatividade. Como as galinhas vão decidir quem é a mais forte? Como vão distribuir o poder? Quem decide quais são os critérios para responder a essas questões?

Luta que ainda é luta

Cada uma das hipóteses testadas apresenta discussões fundamentais para o leitor: a ideia de maioria numérica entra no jogo para decidir lugares para tipos diferentes, e, além disso, os marcadores de gênero e raça são debatidos pelas galinhas para produzir força coletiva. “Se unir não é se dividir!”, elas cacarejam alto: “É se misturar!” Vale observar, porém, que a boa convivência, no tempo em que vivemos aqui no nosso galinheiro de pessoas, precisa ser distribuída com equidade, e as galinhas da nossa história ainda usam a igualdade como critério. Nossa luta ainda é luta, e isso quer dizer que ainda não chegamos ao final.

O que elas conseguem produzir é fundamental, pois a ocupação do espaço não desconsidera as identidades em jogo, mas as faz operar não com um ou, mas com um E — um E que é o articulador da sua experiência. As galinhas saem juntas, misturadas, talvez um tanto atrasadas, contra o suposto inimigo, e em busca de seus pares. 

A narrativa entre o texto e a ilustração, ambos de Laurent Cardon, que também assina a tradução para o português, nos leva em marcha e nos prepara para acompanharmos uma luta. Mas — as boas histórias sempre têm um “mas” — é aí que somos surpreendidos pelo inusitado: as galinhas do batalhão e o leitor jamais poderiam imaginar o paradeiro dos galináceos que tinham desaparecido.

O desfecho é surpreendente e não destitui o valor de toda a experiência de organização social que as galinhas construíram. Nessa mesma direção, a ideia de segurança e a resposta precária que temos produzido para isso, entre armas, cercas, muros e práticas de segregação, continuam em pauta, principalmente em um momento no qual o governo tenta passar uma lei que facilita o porte de armas pela população.

Narcisismo

Se desejamos participar da formação (política, ética e também moral) das crianças, com esse livro na mão, temos uma oportunidade: será preciso guardar lugar para que elas pensem, falem e construam suas próprias conclusões sobre os temas que essa leitura propõe. 

As lições de moral, no mais das vezes, servem para os adultos se separarem de seus gestos e edificarem seu narcisismo no que desejariam ser para suas crianças. Mas o problema é que as crianças apreendem muito mais o que transmitimos com nossos gestos (de fazer uso e distribuição do que foi concedido como privilégio de classe, de raça e de gênero, por exemplo) do que com conversas bonitas sobre igualdade. Afinal, já faz tanto tempo que, ao contrário do que escutamos por aí, a Justiça tarda e falha, que, por isso, já deveríamos ter entendido que a vida não funciona mesmo como em uma fábula de Esopo.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Editoria especial em parceria com o Laut

LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.

Quem escreveu esse texto

Ilana Katz

É psicanalista e pesquisadora do Latesfip da USP.

Matéria publicada na edição impressa #38 out.2020 em setembro de 2020.