Laut, Liberdade e Autoritarismo,

A voz das usuárias de crack

Obra coloca mulheres que consomem a droga como protagonistas da produção do conhecimento, mesclando pesquisa e ativismo

13nov2020 - 17h46

A maioria das pessoas se assusta de primeira quando ouve a palavra crack. Essa droga, um subproduto da cocaína, remete a um imaginário construído internacionalmente desde os anos 1980 a partir dos Estados Unidos e da guerra às drogas do governo Ronald Reagan (1981-89). Os termos que moldam esse imaginário são assustadores, alarmistas, desumanizadores: epidemia do crack, mães do crack, bebês do crack, cracolândia, zumbis do crack, mortos-vivos, cracudos, corpos sem alma. Todos eles se articulam e legitimam concepções de segurança e saúde públicas repressivas em diferentes lugares do mundo contra populações vulneráveis, marginalizadas e, no mais das vezes, moradoras de rua, marcadas como usuárias desta substância e, portanto, perigosas e moralmente degradadas.

O livro de Luana Malheiro, Tornar-se mulher usuária de crack: trajetórias de vida, culturas de uso e políticas de drogas, pode ser lido como um libelo contra esse imaginário do crack, marcado por opressões de raça, gênero e classe social. Além de acompanhar vinte mulheres consumidoras de crack, frequentadoras das cenas de uso no centro de Salvador, Malheiro mergulha na trajetória de vida de oito delas: Beatriz, Catarina, Chá Preta, Ingrid, Dandara, Mônica, Luanda e Maria. Ao retratar a vida, a agência, a resistência e as reflexões dessas mulheres sobre sua própria condição, a autora transcreve as vozes e identidades dessas suas “parceiras de pesquisa”, como as designa. Essas mulheres, que permeiam todo o texto, mas são o destaque do capítulo central do livro (o terceiro), expressam toda a humanidade das usuárias de crack, desafiando o senso comum e os estereótipos.

Fruto de uma pesquisa de mestrado no programa de antropologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o livro extrapola o âmbito acadêmico e se articula com uma história muito mais complexa e fascinante da própria autora, relatada quase como um memorial logo na introdução do livro. Ativista, redutora de danos, fundadora e participante de coletivos, usuária de drogas, etnógrafa, consultora de programas de saúde pública e mais um sem número de experiências compõem o mosaico empírico e intelectual de Malheiro, que atravessa todos os quatro capítulos do livro. Fronteiras sociais e intelectuais esperadas em um trabalho como esse são dissolvidas desde as primeiras passagens: vida e obra da autora, objeto de pesquisa e pesquisadora, usuária de drogas e redutora de danos e assim por diante. Tudo está junto e misturado.

Essa mistura vai se apresentando em uma dinâmica textual que intercala a apresentação de referências históricas, transcrição de entrevistas, relatos de experiências pessoais e registros dos cadernos do trabalho de campo com momentos de reflexão acadêmica, nos quais são acessados diferentes autores, teorias e conceitos. Nesses momentos de discussões mais abstratas, é possível que um leitor sem familiaridade com debates contemporâneos das ciências sociais fique um pouco perdido, dada a sua complexidade, mas o cuidado da autora em ter uma linguagem acessível e um estilo didático tendem a remediar essa eventual dificuldade.

Feminismo antiproibicionista

Um trunfo do livro é a sua amplitude de assuntos dentro da temática geral das mulheres usuárias de crack. Essa diversidade possibilita ao leitor se identificar com algumas partes mais do que outras, a depender dos seus interesses e vivências. Há discussões sobre a história urbana de Salvador, escravidão, colonização, territorialidade e consumo de drogas, guerra às drogas, seletividade penal, encarceramento, maternidade e drogas, dinâmicas do comércio de crack, políticas públicas, como a mídia representa o tratamento do crack e seus usuários, entre outros temas. Como o livro é cheio de boas referências bibliográficas, qualquer um que queira se aprofundar nesses assuntos já tem boas sugestões de leituras complementares. É só se aventurar.  

Na minha leitura, duas passagens se destacam no decorrer da leitura. A primeira é a conexão local-global que a autora estabelece no segundo capítulo para refletir sobre o tema do crack. Apesar do trabalho de campo ser centrado em um conjunto de ruas do centro de Salvador, a autora mostra como esse microcosmos só pode ser compreendido ao articulá-lo a dinâmicas sócio-políticas distantes no tempo e no espaço, conectadas ao governo estadunidense, às convenções das Nações Unidas, aos fluxos transnacionais e à circulação global de técnicas de controle penal das populações marginalizadas.

A segunda passagem diz respeito à reflexão metodológica da pesquisa discutida na apresentação. Ali, a autora aponta as limitações e entraves postos pelos tradicionais protocolos de pesquisa com seres humanos para a etnografia, bem como subverte muitos pressupostos do trabalho de investigação tradicional, demonstrando a importância da proximidade da pesquisadora com as pessoas cujas práticas pretende compreender, estabelecendo laços de confiança, inclusive pelo consumo conjunto de drogas. Ao mesmo tempo, destaca a importância da mescla entre ativismo e pesquisa como ponte para a transformação social e a ressignificação da produção científica. Retomando essa trilha, o último capítulo do livro é dedicado ao relato da experiência de organização política das mulheres usuárias de crack em coletivos para reivindicar direitos e proteger-se contra as diferentes formas de violência a que estão submetidas.

Livro narra a trajetória do LSD no Brasil, do uso em terapias aos tribunais e presídios

A discussão de gênero e o papel social da mulher são trabalhados conceitual e empiricamente no terceiro capítulo. As vivências comuns das “parcerias de pesquisa” são marcadas pela violência, com destaque para a sexual, seja pelos seus parceiros, pelos traficantes, pelos policiais, pelas políticas do Estado. Nesse contexto, a experiência da maternidade ganha contornos particularmente dramáticos. A cultura do uso de crack, nesse sentido, é uma resposta a tal condição de vulnerabilidade, organizando-se em torno de estratégias de proteção física e psicológica. Paralelamente, as vivências dessas mesmas mulheres expressam a importância das políticas de atendimento dos serviços que pregam a redução de danos, envolvendo iniciativas relacionadas à educação, à saúde, ao acolhimento e à moradia. Enfrentar as fragilidades sociais dessas mulheres parece ser, segundo os relatos, um caminho necessário para melhorar a sua condição. 

No momento atual, em que as discussões sobre políticas de drogas progressistas têm disputado o espaço antes dominado quase completamente pelas políticas repressivas, pautadas pela proibição, o texto de Malheiro ganha ainda mais relevância. Ao trazer à tona a voz de mulheres usuárias de crack sobre sua condição, sua história, seus projetos e suas dores, o livro rompe o silêncio social a elas imposto por estereótipos, tabus e preconceitos. Com isso, sugere que qualquer política de drogas mais humana e justa precisa levar em conta aqueles que foram e são os mais vilipendiados pela guerra às drogas. O livro, nesse sentido, expressa uma ética humanista, ou melhor, um feminismo antiproibicionista, como frisa a autora, preocupado com as usuárias de drogas marginalizadas e violentadas por uma sociedade patriarcal. E a autora nos ensina que essa ética se constrói na prática cotidiana.

Editoria especial em parceria com o Laut

LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.

Quem escreveu esse texto

Paulo José dos Reis Pereira

É professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).