Infantojuvenil,

Verdades vestidas de mentiras

De Esopo aos irmãos Grimm, os pontos de conexão entre fábulas e contos de fadas em três livros

12jan2020 - 23h06 | Edição #30 jan/fev.20

“Há muitas formas de dizer a verdade. Talvez a mais persuasiva delas seja a que tem aparência de mentira.” A frase, de José Américo de Almeida, epigrafa A tradição da fábula, uma seleção do gênero que contempla autores de língua grega (Esopo e Bábrio) e latina (Fedro e Aviano), passa pela tradição indiana e desemboca em La Fontaine. Organizada por Maria Celeste Consolin Dezotti, a coletânea se propõe a “localizar, nas coleções dos antigos, os textos com os quais nossas fábulas dialogam, seja em forma de paráfrase, como as de [Monteiro] Lobato, seja em forma de paródia, como as de Millôr [Fernandes]”. Ou seja: procurou-se recuperar os textos originais que talvez nós, brasileiros, já tenhamos ouvido por outras vozes.

Ainda que o livro não explore a relação entre as fábulas antigas e as releituras contemporâneas (exceção feita a uma tabela que mostra a viagem de cada fábula ao longo do tempo), as traduções são um convite para explorarmos um mundo cheio de animais falantes e de situações esquisitas. Um mundo que, apesar de não conhecermos de fato, temos a sensação de reconhecer quando lemos. Muitas dessas histórias habitam nosso imaginário, como a da formiga que trabalha enquanto a cigarra canta, a da raposa que reclama das uvas quando não consegue alcançá-las e a do leão que ajuda um rato e recebe em troca um favor. Mas há também fábulas com elementos diferentes dos que imaginamos, como pescadores que tocam flautas, astrônomos ou caçadores covardes.

O que essas centenas de historietas têm em comum, além do fato de se passarem no “tempo da áurea”, quando “também os demais viventes/ voz articulada possuíam”, como diz Bábrio, é a forma particular que elas encontram para dizer uma verdade: “Fábula (mythos) é uma fala (logos) ficcional que retrata uma verdade”, diz Teón de Alexandria. Modismo na Grécia do século 5 a.C., as fábulas funcionavam como um recurso dos oradores para cativar seu público — para que eles pudessem dizer o que queriam sem ofender nem implicar diretamente ninguém. Porque parte do trabalho retórico de convencimento é encontrar roupas novas para fantasiar coisas velhas: não necessariamente mentir, mas revestir com cores diferentes as verdades com as quais ninguém mais se importa, ou que ninguém mais vê. Um trabalhador esforçado, assim, ganha a roupagem de formiga; o bon vivant, a de cigarra.

“Eu me sirvo dos animais para instruir os homens”, diz La Fontaine. É uma inversão de valores: de repente, são os seres irracionais que nos ensinam alguma coisa. Entendemos então algo de verdadeiro a partir do deslocamento. Para dizer tecnicamente, toda fábula cria uma analogia. É a figura de linguagem que coloca dois pontos em contato para revelar algo novo: “a” está para “b” como “c” está para “d”. A formiga está para o trabalhador como a cigarra está para o cantor.

Em quase todos os casos, encontramos nas fábulas uma moral. A moral da história (ou epimítio, em grego) é o momento em que a fábula revela sua verdade, escondida por trás da fantasia de mentira. Nem sempre essa verdade é evidente, e ela pode ser remoldada e até invertida à medida que viaja no tempo. A verdade de uma história muda e se adapta de acordo com o tempo em que ela é contada, o lugar onde é contada e as pessoas para quem é contada.

Esopo

O mais conhecido contador de fábulas, ou logopoiós, é Esopo. Até hoje não sabemos nem mesmo se ele realmente existiu ou se foi inventado pelos gregos. Em Vidas de Esopo, organizado por Adriane da Silva Duarte, há duas traduções da biografia do fabulista, um texto grego do século 1º escrito de forma ficcional e anônima.

A princípio, Esopo seria um escravo, e um escravo muito feio. “Era de aspecto medonho ao extremo: testão, entroncado no pescoço, de nariz acachapado, […] pançudo e de bracinhos cotós, vesgo, corcunda”. Além disso, no começo, ele não possuía nem mesmo a fala, que só receberia mais tarde. Pela sua mudez, tanto quanto pela aparência física, Esopo é comparado a animais, plantas e até a objetos — um esfregão, um caldeirão, uma marmita, um espantalho, um jarro, um frasquinho ou um baú.

O pai da fábula é então aparentado aqui aos seus personagens mais frequentes — os seres irracionais. Mas a aparência de Esopo confrontava a ideia aristotélica da fisiognomia, segundo a qual “só um corpo belo poderia abrigar uma alma bela”. No caso dele, a habilidade, a esperteza e as suas artimanhas verbais enfrentavam bem o desafio de convencer os ouvintes a levá-lo a sério: com discursos e conselhos, impressionou a ponto de conseguir ser libertado e ascender socialmente. Talvez por ser comparado a bichos, Esopo adquirisse um olhar de raposa ou de serpente diante dos problemas: estranho no mundo dos homens, ele enxergava aquilo que, de tão evidente, ninguém mais via.

Irmãos Grimm

Muitas centenas de anos depois de Esopo, os irmãos alemães Jacob e Wil-
helm Grimm recolheram inúmeras histórias da tradição popular e as reuniram em dois volumes de Contos maravilhosos infantis e domésticos (1812-1815). Aqui, entramos num universo menos público, mais íntimo: recitados normalmente à noite, por mulheres e para crianças, esses contos enchiam o quarto de dormir de seres fantásticos — fadas ou bruxas ou sapos encantados.

Walter Benjamin diz em “O narrador”, citado no posfácio ao livro de Marcus Mazzari, que o conto maravilhoso foi o primeiro conselheiro da humanidade, e que ele ainda vive secretamente em todas as narrativas. Não apenas por nos darem conselhos, os contos de fadas têm uma clara afinidade com as fábulas: tanto pela sua transmissão oral, “criação espontânea de uma coletividade anônima”, como escreve Mazzari, quanto pelos “resquícios de uma dimensão temporal e espacial em que os animais ainda conversam entre si”.

Grande parte dos contos maravilhosos originais não tem os finais felizes pelos quais ficaram conhecidos, nem são inocentes como nos desenhos de Walt Disney. Não só as madrastas são perversas, mas muitas mães também são; não só as bruxas são vilãs, mas muitas fadas também cometem crueldades. O mundo é violento: mãos, pés e dedos são decepados, cabeças rolam, pessoas são enforcadas. Em sua maioria, os finais são trágicos, até nos contos que se encerram com o clássico “e viveram felizes para sempre”.

Com ou sem morais aparentes, muita coisa se revela quando nos debruçamos sobre essas narrativas tão anônimas quanto antigas. Elas vêm de uma outra ordem, cuja voz não é de um autor, mas de milhares deles espalhados pela história do mundo. Vou me servir de uma pequena fábula para propor uma analogia a respeito do que há de verdade nessas mentiras.

Conta Bábrio: “Prometeu era um dos deuses, e um dos primeiros./ E foi ele — dizem -— que plasmou da terra o homem/ como senhor dos animais. E nele dois embornais/ pendurou — dizem — de vícios humanos/ ambos repletos, os alheios no embornal da frente/ e os pessoais no embornal de trás, que era bem maior./ Por isso — é minha impressão — as desgraças alheias/ vemos com nitidez, mas ignoramos as de nossa casa”.

É mais fácil ver os problemas dos outros do que os próprios. E o que isso tem a ver com essas histórias? Pensemos assim: se o embornal com os vícios pessoais nos foi pendurado nas costas, e por isso não conseguimos vê-los, as fábulas e os contos maravilhosos podem ser interpretados como uma maneira de transferir esses vícios do embornal de trás para o da frente. Vestindo as nossas próprias desgraças com a aparência de desgraças alheias, podemos enfim enxergá-las. Falando sobre o que é completamente outro, esses textos falam intimamente sobre nós.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Leda Cartum

Escritora e roteirista, é autora de O porto (Iluminuras).

Matéria publicada na edição impressa #30 jan/fev.20 em janeiro de 2020.