Infantojuvenil,

Uma bota e uma estrada

Isabel Minhós Martins, Bernardo Carvalho e Madalena Matoso contam histórias com olhar de criança

13nov2018 - 13h35 | Edição #6 out.2017

A editora Planeta Tangerina já se tornou sinônimo de qualidade em Portugal. Tem sempre livros lindos, inteligentes e estimulantes. Desses que os pais adoram comprar para os filhos, pois sabem que também vão se divertir. Pode até acontecer de a criança pegar no sono e a mãe ou o pai continuar a leitura, distraidamente. É mesmo você? e Andar por aí reúnem os três fundadores da editora portuguesa.

É mesmo você? se constrói à maneira de uma lenga-lenga, com palavras que rimam e levam a outras palavras, numa cadência musical característica de muitos textos de Isabel Minhós. Dois amigos iniciam uma conversa quando vêem passar Inês. “Inês… qual Inês?” “A Inês que perdeu a bota no recreio!” O mistério que perpassa o livro logo se instaura: onde foi parar a bota? Já a procuraram no telhado, já disseram que uma bruxa a tinha levado, até mesmo um burro e um ET, mas ninguém a encontra.

A bota é o enigma, mas também o anel que vai de mão em mão, até se descobrir com quem foi parar. A cada vez que se passa para outra pessoa, surge a pergunta: “mas qual… (André, Vanda, Quim, Lu, Rita…)?”. E da pergunta surge uma história: “A Lu, amiga da Ana cigana, a que planta bananeira de pijama.” Ou: “Essa é aquela que fala feito uma fonte? Não, essa é a Sofia Pontes… Esta é a Lima. Que atravessa a piscina sem respirar”.

Um nome leva sempre a uma história. Cada história termina sempre com outro nome, que leva a mais uma história, e assim continua, até se desvendar com quem está a bota. Feito uma brincadeira infantil que parece não ter fim, pergunta emendando em pergunta, assim se tece É mesmo você?. As rimas, que muitas vezes podem destruir um livro, aqui colaboram para esse ritmo. São elas que mantêm o suspense, que fazem o encadeamento na narrativa, desfilando as características de cada criança.

O que liga este livro a Andar por aí é a capacidade da autora e dos ilustradores de se colocarem no lugar de uma criança. A inesgotável imaginação infantil, que não para nem quando encontra um muro, é trabalhada num estilo que une simplicidade e consistência. Isabel escreve como adulta, mas fala como criança. O mesmo acontece com as ilustrações de Bernardo Carvalho, que tem traços que nos remetem a desenhos de crianças, mas sabe muito bem o que está fazendo. Texto e imagem mergulham no universo infantil, sem com isso se infantilizarem.

Para as crianças — e para Isabel, Bernardo e Madalena —, uma coisa nunca é só uma coisa. Um nome nunca é só um nome. Um galho nunca é só um galho. Se em É mesmo você? o que desperta a imaginação são as palavras, em Andar por aí, é a rua. É dos passeios com o avô que o menino recolhe material para a sua narrativa.

Os livros de Isabel Minhós Martins são um convite para nos desligarmos — nós e as crianças — das diversas telas que nos ocupam o dia

Para um adulto, andar na rua com uma criança muitas vezes revela-se tarefa árdua e irritante. Queremos apenas chegar aos lugares o mais rápido possível. Já elas querem se perder nos detalhes, cumprimentar os desconhecidos, ver o que se esconde por trás da lata de lixo… É por isso que o menino-narrador vai passear com o avô que, como ele, tem todo o tempo do mundo para os desvios, as pausas, as fantasias. Ao se despedir da mãe, o avô lhe assegura: “Vamos só ali, não demoramos quase nada”. Mas o menino sabe que o ali do avô é a manhã toda. 

Na rua, cada objeto, cada paisagem se refere a outra coisa. A quantidade de ônibus que passam o faz pensar no número de alunos da sua sala. Um galho é uma espada ou o traço que ele desenha atrás de si para não se perder. Mas é de se perder que se faz a história. O narrador é um andarilho, um cronista com olhar e imaginação de menino. Anda com o avô, mas anda só, descobrindo o mundo: “o mundo é enorme (acho que não tem fim)”.

O avô vai na frente. O menino vai atrás, com a sua liberdade. O avô diz que tem olhos na parte de trás da cabeça, e ele quase acredita. O avô é a segurança de que ele pode traçar o caminho à sua maneira, sem a pressa dos pais. De que ele pode dar passos grandes e pequeninos, arrastar os pés pelo chão, fazer equilibrismos na beirinha da calçada. O avô está, mas não está lá. Assim como o menino está, mas não está sozinho. A rua é a sua companhia. A sua descoberta. O seu espanto. De tal forma que ele estranha os vizinhos que não saem de casa e estão sempre vendo televisão.

Os livros de Isabel Minhós Martins são um convite para nos desligarmos — nós e as crianças — das diversas telas que nos ocupam o dia. Para contarmos e ouvirmos histórias, para andarmos distraidamente, devolvermos o espanto diante do novo e transformarmos, como seus personagens, a realidade em imaginação.  

Especial Infantojuvenil: oferecimento Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Tatiana Salem Levy

Escreveu O mundo não vai acabar (José Olympio).

Matéria publicada na edição impressa #6 out.2017 em junho de 2018.