Infantojuvenil,

Orixás para pequenos

Professora da rede pública apresenta os deuses do candomblé em livro infantil

28fev2019 - 22h00 | Edição #20 Mar.2019

Começou na tarde em que Róbson Gil chegou em casa animado e contou para a mãe que interpretaria Zeus numa peça na escola, numa encenação sobre os mitos gregos. Foi quando Waldete Tristão, professora “chão de escola” e doutora em educação pela usp, se questionou sobre a grade curricular do ensino brasileiro. 

Conhecendo os orixás — De Exu a Oxalá é uma importante contribuição da fé e mitologia africanas à literatura infantojuvenil do país. Com preciosas ilustrações, traz os itans — passagens que conjugam mitos, canções, histórias — e descreve as características dos orixás negros que compõem o panteão dos deuses do candomblé. Transmite, assim, a ética e uma forma de pensar cultuada pela oralidade dos povos de matrizes africanas que resistiram ao longo da história, numa obra muito representativa para crianças e adolescentes (recomendável inclusive para adultos pouco versados no tema), que poderão ter uma vivência enriquecedora culturalmente — diferentemente da minha geração, que foi à escola no Brasil sem referências de sua ancestralidade, fruto amargo do processo histórico do racismo.

Filha de Oxaguiã, Waldete apresentou ao filho livros clássicos da mitologia africana, e Róbson logo começou a fazer comparações entre os deuses africanos e os gregos: ele, que seria Zeus naquela peça, passou a dizer que seria Xangô. As associações abundaram e os dois, meio de brincadeira, combinaram que fariam um livro.  

Intelectual de vasta produção, ela se ocuparia de escrever os itans, enquanto o menino, um exímio desenhista, ilustraria o material para disseminar o conteúdo para crianças e adolescentes. Vieram projetos e rascunhos, mas a vida foi passando, vieram os compromissos acadêmicos, as demandas do dia a dia. Ao piscarem os olhos, quase dez anos haviam se passado e Róbson, para tristeza geral, se foi. A mãe precisou de muito para se reerguer, e por ideia de um amigo (seu futuro editor), retomou o livro.

Proprietário da Arolê Cultural, Diego de Oxóssi encontrou Waldete na Bienal do Livro de 2018. O que era para ser só uma visita de cortesia se tornou um convite para escrever um livro infantil. Ao tomar conhecimento do projeto da escritora com seu filho, o editor a colocou em contato com o ilustrador Caco Bressane.

Também filho de Oxaguiã, Bressane desenvolveu com maestria a missão iniciada por Róbson Gil. Suas ilustrações estimulam discussões profundas até para quem tem familiaridade com o assunto. Por exemplo, há quem entenda que os orixás seriam representações abstratas de energia, sem rosto nem tom de pele — o que apaga a sua negritude. Essa interpretação é veementemente criticada pelos autores: 

“No nosso caso, isso é inegociável. Estamos tratando de divindades das religiões afro-brasileiras, e são escassos os personagens negros em livros infantis. Ainda que tenhamos no imaginário popular representações como a de Iemanjá com a pele branca, ou outras imagens fruto do sincretismo religioso, orixás são negros. Mesmo assim, procuramos variar muito os traços, tipos e portes físicos de cada personagem, os tons de pele, os tipos de cabelo, os penteados. Tivemos muita preocupação em apresentar essa diversidade”, explica Bressane.

Diferentemente da minha geração, crianças vão poder aprender quem é Zeus, mas também quem é Xangô

A ambientação da obra procura retratar o domínio de cada orixá sobre um fenômeno da vida ou da natureza. Os cenários, assim, também são protagonistas.  “É como se um fosse o outro: a cachoeira e Oxum, a tempestade e Iansã, a estrada e Ogum, o oceano e Iemanjá”, diz Bressane.

O didatismo do texto de Waldete Tristão e a arte de Caco Bressane formam não só uma honrosa homenagem a Róbson Gil como também um livro culturalmente precioso para crianças e adolescentes, em especial em um país que demoniza essas tradições há muito tempo. Por isso, ainda mais tendo em vista a Lei 10.639/2003 — que alterou a Lei de Diretrizes da Educação para inclusão do estudo da cultura africana no ensino público e privado —, trata-se de uma obra fundamental para compor as bibliotecas das escolas brasileiras, e para que nas salas de aula se aprenda quem é Zeus, mas também quem é Xangô.

Quem escreveu esse texto

Djamila Ribeiro

Filósofa, escreveu Quem tem medo do feminismo negro? (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #20 Mar.2019 em fevereiro de 2019.