Infantojuvenil,

Mil e um Aladins

Três versões da história revelam a diversidade narrativa de um dos contos mais famosos de As mil e uma noites

01set2019 - 01h03 | Edição #26 set.2019

Jovem órfão encontra uma lâmpada dentro de uma caverna cheia de maravilhas; ao esfregar o objeto, lá de dentro sai um gênio com poderes para realizar todos os desejos do detentor da lâmpada. Em meio a isso, um mago maligno que pretende se apoderar do objeto mágico e a princesa por quem o jovem se apaixona. É difícil não estar familiarizado com a essência narrativa de “Aladim” —principalmente depois do lançamento da adaptação live-action do desenho animado da Disney que chegou aos cinemas neste ano.

Possivelmente um dos contos de fada mais conhecidos do mundo, “Aladim” foi retirado de As mil e uma noites, esse repositório infindo de maravilhas narradas por Sherazade para evitar que o sultão Shahryar a sentenciasse à morte — depois de ter sido traído pela primeira esposa, o monarca passou a contrair matrimônio todas as noites com uma mulher diferente durante três anos, mandando executá-las ao amanhecer. Astuta, Sherazade engana a morte ao passar incontáveis noites contando histórias envolventes, deixando sempre um final em aberto ao raiar do dia, atiçando a curiosidade do sultão, que lhe permite viver por mais um dia para saber o final desses relatos. É a Narrativa por excelência, pois trata de como o poder de uma boa história pode chegar ao extremo de salvar vidas.

A própria trajetória do conto tem ares de uma estranha fábula. O tradutor da versão francesa, Antoine Galland, que publicou a obra entre 1704 e 1717, usou várias fontes para compor o livro, incluindo um manuscrito em árabe considerado incompleto por conter apenas 282 noites. Por isso, valeu-se de outras fontes para completar as noites restantes. Entre elas, segundo suas anotações, estavam conversas com um sírio chamado Hanna Diyab, que fora à França na companhia do viajante francês Paul Lucas, que estava a serviço do rei Luís 14. Diyab teria contado a Galland dezessete histórias no total, sendo que dez delas fizeram parte da tradução, entre as quais “Aladim”.

Muitos acreditavam que Diyab fosse uma criação fictícia de Galland —  assim como o próprio “Aladim”

Muitos acreditavam que Diyab fosse uma criação fictícia de Galland —  assim como o próprio “Aladim” —, pois seu nome não foi encontrado em nenhum outro registro, não havendo evidências que provassem a sua existência. No entanto, em 1993, foi encontrado na Biblioteca Apostólica do Vaticano um manuscrito, datado de 1764, redigido em árabe pelo próprio Diyab, relatando sua viagem à França, comprovando assim a existência desse homem que contou a Galland histórias ouvidas na sua infância na Síria. Esse relato ganhou uma tradução francesa em 2015, sob o título de D’Alep à Paris: les pérégrinations d’un jeune syrien au temps de Louis 14 [De Alepo a Paris: as peregrinações de um jovem sírio no tempo de Luis 14], editada pela Actes Sud. No Brasil, o professor da Universidade de São Paulo (usp) e tradutor de As mil e uma noites, Mamede Jarouche, verteu algumas partes desse manuscrito para o português.

Sexo e violência

A edição de bolso de Aladim, da Clássicos Zahar, traz a primeira tradução feita por uma mulher — a franco-síria Yasmine Seale — desde a descoberta do relato de Hanna Diyab. Além disso, é a melhor das adaptações aqui resenhadas, pois bebe direto de As mil e uma noites para recontar as aventuras do jovem protagonista: a narração da própria Sherazade, a partir da tradução de Galland, não ocultando o fato de que se trata de uma história curta dentro de uma outra mais ampla — técnica chamada de narrativa moldura. 

A versão para o inglês realizada por Seale, com edição de Paulo Lemos Horta  — juntamente com a tradução cuidadosa de José Roberto O’Shea para o português — é uma redescoberta do conto original, cuja história foi ofuscada pela trama do filme animado da Disney de 1992. O livro começa com Sherazade terminando uma história antes de o sol raiar e sua irmã, Duniazade — que ficava no leito nupcial com a justificativa de querer ouvir histórias da boca da irmã antes que esta morresse —, pedindo outra narrativa, aproveitando que o sultão continuava disposto a ouvir mais contos.

A primeira surpresa é que a narrativa se passa “na capital de um dos reinos vastos e ricos da China”. Na visão do historiador britânico Robert Irwin, que estudou As mil e uma noites, as demarcações dessa fronteira são um recurso narrativo usado para significar que as aventuras acontecem em um lugar distante, dentro de uma trama maior situada em uma corte islamizada. Em seguida, o protagonista é apresentado: Aladim (em árabe, Alā ad-Dīn, que significa “nobreza de religião”), um jovem “vadio” que se recusa a aprender o ofício de alfaiate com o pai; este morre logo no início da narrativa. 

Mesmo assim, Aladim mantém o comportamento arredio ao trabalho, enquanto a mãe viúva se torna a única provedora da casa, fiando algodão. Não é a descrição que se espera de um herói, mas é necessária, pois o personagem ainda é imaturo e sua transformação ocorre diante dos olhos do leitor, e a catalisadora dessa mudança será a lâmpada.

O encontro com esse objeto mágico vem por meio do “grande feiticeiro, a quem os autores desta história chamavam de mago do Magrebe”, que finge ser o irmão do falecido pai de Aladim. Com essa artimanha, o mago convence o jovem a acompanhá-lo até o local cheio de riquezas onde se encontra a lâmpada, no qual só Aladim pode adentrar. De posse do objeto mágico, ele tenta sair da caverna, mas o mago, não obtendo a lâmpada de imediato e tomado pela raiva, acaba por soterrar o rapaz. Daí surge outra surpresa: Aladim, desesperado e prestes a morrer, junta as mãos para pedir ajuda divina e, ao roçar os dedos no anel, o milagre acontece: o gênio do anel aparece em toda a sua grandiosidade. E é esse gênio, e não o da lâmpada, que tira Aladim do fundo da terra. Há dois gênios na história original de Aladim, e é o do anel que sempre salva o jovem nos momentos mais críticos da narrativa, quando ele junta as mãos para fazer uma prece.

Os gênios — ou os jinns, em árabe — são figuras mitológicas que já existiam em culturas pré-islâmicas, sendo considerados responsáveis por “inspirar” filósofos, videntes e poetas e por ocasionar certos distúrbios mentais. Esses seres aparecem em passagens do Alcorão: por vezes, mostrados como espíritos criados a partir do fogo, tomando várias formas possíveis; em outras, como entidades que estão entre os anjos e os humanos. É comum ver nos demais contos de As mil e uma noites gênios comendo, dormindo, apaixonando-se e tendo filhos, ainda que possuam uma força maior que a dos humanos. Em Aladim, são mostrados como “escravos” do anel e da lâmpada, servindo aos donos desses objetos, não havendo limites para o número de desejos a ser realizados. E Aladim usa esse poder de modo sábio e com parcimônia, sem mudar seu estilo de vida para não chamar atenção indevida para si.

Outro aspecto inesperado é o papel ativo das personagens femininas na narrativa. A mãe de Aladim é a pessoa que faz um “gênio medonho e gigantesco” sair da lâmpada, ao esfregar o objeto com o intuito de limpá-lo. Atônita diante do ser sobrenatural, ela desmaia, e Aladim aproveita a deixa, agarra a lâmpada e, falando no lugar da mãe, pede algo para comer — no que recebe um farto banquete que os alimenta por alguns dias. A mãe também assume a voz de Aladim ao representá-lo diante do sultão durante as audiências feitas no palácio, em que ela pede em nome do filho a mão da princesa em casamento e faz as negociações necessárias para obter do sultão a promessa de que Aladim poderia se casar com sua filha dali a três meses.

Outro aspecto inesperado é o papel ativo das personagens femininas na narrativa 

A própria princesa Badr al-Buldur (a “lua cheia das luas cheias”, em árabe) começa apenas como o objeto de desejo de Aladim — que se apaixona ao ver o belo rosto da jovem sem véu quando esta vai a uma casa de banhos —, para depois se tornar peça-chave no plano para desbancar o mago do Magrebe, que, ao se apoderar da lâmpada, a sequestra e toma o palácio das maravilhas que Aladim mandou o gênio construir para recebê-la. O plano é arquitetado por Aladim, mas é executado por Badr al-Buldur, com a ajuda de suas aias: seduzindo a contragosto o feiticeiro, ela consegue pôr veneno na taça de vinho do mago, que, sem desconfiar de nada, toma a bebida. Ele cai morto, e Aladim fica responsável por cuidar do corpo. Ao recuperar a lâmpada e fazer o palácio retornar ao seu local de origem, ele coloca em via pública o cadáver do mago, “para ser bicado por pássaros e devorado por animais”.

Em meio às reviravoltas, ainda há espaço para a chegada do irmão caçula do mago do Magrebe, que se disfarça como uma mulher que faz milagres para entrar no palácio de Aladim, enganando Badr al-Buldur, com o intuito de pegar a lâmpada para si e se vingar da morte do irmão. O vilão é logo desmascarado e morto por Aladim, que finca uma faca em seu coração.

Não só a violência está presente no conto como também o sexo. A relação de Aladim e Badr al-Buldur traz questões sobre consentimento. O sultão acaba não cumprindo com a promessa de casar sua filha com Aladim e organiza as bodas da princesa com o filho do grão-vizir. Enquanto as festas estão sendo celebradas, Aladim, tomado pelo ciúme, invoca o gênio da lâmpada e manda que, antes de o casal consumar as núpcias, o leito seja trazido até o quarto dele. Com o desejo realizado, Aladim manda o gênio deixar o filho do grão-vizir preso e paralisado no banheiro frio e úmido de sua casa, apenas de camisolão, enquanto ele dorme na cama ao lado de Badr al-Buldur, com um sabre separando os dois.

Ele não encosta na princesa, mas se porta como se ela lhe pertencesse. O mesmo procedimento se repete na noite seguinte e, sem conseguir aturar mais a situação, o filho do grão-vizir pede a anulação do casamento. Tendo alcançado esse objetivo, Aladim respeita o prazo de três meses para se apresentar com todo o esplendor ao sultão e se casar com a princesa, que, não o reconhecendo, fica encantada ao ver que seu marido é jovem, bonito, educado e capaz de construir um palácio da noite para o dia.

Diferentemente dos contos de fada mais tradicionais, que terminam no momento em que o casamento dos protagonistas é celebrado, o clímax da história acontece depois do matrimônio. É em meio a essas desventuras que Aladim e Badr al-Buldur instituem uma relação de parceria, que culmina no final da história: com a morte do sultão, que não teve filhos homens, a princesa lhe sucede no trono e divide seu poder com Aladim. É dela, portanto, e não do marido, que o poder real emana. 

A narradora

A conhecida versão do escritor Carlos Heitor Cony, originalmente de 1972, que chega à sua 22ª edição pela editora Nova Fronteira, segue bem de perto a história original de As mil e uma noites, poupando o leitor dos detalhes mais violentos. A linguagem é mais solta e a tradução não parece ser tão precisa — o mago do Magrebe, por exemplo, vira simplesmente o mago da África, a “região do mundo onde a magia tinha feito mais progresso”, dando a impressão de que poderia ser qualquer lugar desse imenso continente. A principal diferença na trama é que Cony não incluiu a parte que traz o irmão do mago, levando Aladim e Badrulbuldur (como o nome da princesa é grafado nessa adaptação) mais rapidamente ao final feliz.

No entanto, a ausência mais sentida é a de Sherazade como narradora. Na adaptação de Cony, o conto de Aladim é construído como uma narrativa independente. A narradora é, portanto, invisibilizada, e o conto perde um pouco das suas camadas, explicitadas no epílogo da tradução de Yasmine Seale, em que Sherazade apresenta a moral da história: é preciso aprender com Aladim, que obteve riquezas sem buscá-las voluntariamente, ao contrário do mago, que foi tomado pela ganância e pagou um preço caro por isso. E, como uma indireta ao sultão Shahryar, ela esclarece que nem mesmo o “mais justo dos monarcas está livre do perigo” de cometer injustiças. Sem a presença de Sherazade, esquece que a contadora de histórias está entre a vida e a morte e que existe um sentido de urgência na narração.

Já na graphic novel Aladdin, baseada nos produtos audiovisuais da Disney, volta a figura do narrador. Mas, desta vez, a história é contada na voz de um homem, um mercador da fictícia cidade de Agrabah (um compósito de vários clichês orientalistas), que ficou com a lâmpada que antes guardava o gênio. Esse narrador não tem nenhuma relação com o resto dos personagens e não retorna mais na trama — exceção feita ao live-action, em que se descobre que o narrador é ninguém menos que o próprio gênio libertado contando sua trajetória à sua prole. Nesse sentido, a versão da Disney é mais uma narrativa sobre liberdade, pois o maior desejo do gênio é: “Ser livre! Ser meu próprio mestre!”. 

Na adaptação de Carlos Heitor Cony, a narradora é invisibilizada, enquanto que na ‘graphic novel’ da Disney a narração vem de uma voz masculina

Aladdin usa o último dos seus três desejos para libertar o gênio, que, então, se torna humano, não mais preso aos poderes da lâmpada. Sendo que o contrário acontece com o vilão Jafar: em sua sede de poder, acaba desejando se tornar um gênio, o ser mais poderoso do mundo que só pode realizar os desejos alheios. O filme fez um sucesso estrondoso, arrecadando mais de 1 bilhão de dólares nas bilheterias mundiais, e uma sequência já está sendo produzida.

No epílogo de Aladim, Shahryar pergunta, ansioso, a Sherazade se ela havia chegado ao fim das suas histórias, ao que ela responde que ainda há inúmeras histórias a ser contadas. “Meu único receio é que Sua Majestade se canse da minha voz antes que eu conte todas elas”, retruca ela, ao que o sultão responde em negativa. Parece que o público, como Shahryar, vai demorar para se cansar da magia da história de Aladim. 

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #26 set.2019 em agosto de 2019.