Infantojuvenil,

Histórias que brotam da terra

Do Saci à Loira do Banheiro, um abecedário dos seres fantásticos que habitam o imaginário popular do brasileiro

13nov2018 | Edição #6 out.2017

Há muitos anos, num passeio pela floresta, perguntei ao acompanhante local a quem pertenciam aquelas terras. “Ao Dono da Mata”, respondeu. “E quem seria?”, insisti. “Aquele que é dono de tudo. Por isso, temos que pedir licença, pegando três folhas e avisando que estamos entrando. Ele pode ser um bicho impossível de matar, um vendaval que desorienta o caçador, uma voz, um ruído, a água do rio que sobe de repente, mostrando que não devemos seguir adiante.  Para cada um, acontece uma coisa diferente quando menos esperamos.”

Coisas do interior, da roça, diriam muitos. Mas atribuir o folclore ao isolamento e à falta de conhecimento e acesso aos saberes eruditos é desdenhar das crenças como atos de fé que compensam os limites do cotidiano e adequam a fugacidade do olhar sobre o instante aos hábitos inteligentes que regulam nossa relação com o meio e com aquele mesmo olhar. É com essa visão que devemos ler a obra de Januária Cristina Alves. 

Sua ligação com o folclore brasileiro teria vindo da família, pernambucana, ainda na infância, das conversas com sua mãe, repletas de narrativas sobre personagens do imaginário popular. Em São Paulo, no convívio com os padrinhos italianos, outros personagens surgiam, despertando nela o fascínio por essas histórias. A miríade de personagens do folclore cruzou seu caminho e veio parar neste Abecedário de personagens do folclore brasileiro.  

Divulgar uma seleção de narrativas folclóricas para o público jovem, cada vez mais distante desse universo, é o propósito declarado de seu Abecedário, que apresenta um recorte representativo da diversidade no panteão de seres que habitam a sensibilidade popular, garantindo o interesse para além das novas gerações. As ilustrações de Berje são, ainda, outras interpretações, histórias contadas através de imagens, como deve ser a primeira abordagem de um universo fundado na sensibilidade do olhar sobre o que entendemos como real. 

Figuras conhecidas como o Saci, o Boto e a Iara partilham espaço com entidades pouco vistas, relacionadas a determinados locais, como o Minhocão e o Barba Ruiva, ou a contextos regionais, como o Canhambora e o Labatut. Surgem também personagens bem conhecidos atualmente, como a Loira do Banheiro e o Chupa-Cabra, que descontroem os limites do folclore como restrito a zonas rurais. 

O critério de escolha foi a diversidade, não somente regional, mas morfológica: humanos, bichos e seres fantásticos. No entanto, muitos outros poderiam ser acrescentados, como as malassombras — reflexos de um estranhamento do olhar que não chega a concretizar-se em personagem, como nas Assombrações do Recife Velho de Gilberto Freyre. 

A despeito do cuidado em evitar entes estreitamente relacionados a crenças religiosas, percebe-se sua influência em muitas narrativas, como na moral embutida nas lendas da Mula sem Cabeça, da Porca dos Sete Leitões e do Negrinho do Pastoreio.  

Em nossa era digital, essas histórias propagam-se e geram adaptações que percorrem o globo muito mais efetivamente, na forma de lendas urbanas, aparições extraterrestres e teorias da conspiração, que o folclore decorrente da usual apropriação popular de obras literárias e narrativas históricas. Assim, cabe questionar se a autora se arrisca ao precisar as “origens” das histórias que conta. Nada mais difícil que determinar as complexas influências atribuídas à formação da cultura popular brasileira. São narrativas que praticamente brotam do chão, e constroem outras, infinitamente. É possível, de fato, encontrar a origem e o momento preciso em que nasce uma narrativa mitológica quando adentramos o campo da memória oral?

A mutabilidade é também característica fundamental do folclore. Um personagem pode manifestar-se como animal, vento ou voz. Em outros momentos, uma luz, um ruído ou uma presença. Pode ser percebido pelos vestígios deixados ou por uma inexplicável aparição aos sentidos. Pode ser reinterpretado ou ter sua existência atribuída a outros grupos sociais ou forças naturais que encarnem o mistério, a magia ou a ameaça à ordem comum das coisas.

Como o nome de uma divindade, a imagem do personagem do folclore que é permitida ao conhecimento é apenas a face humanizada de um conjunto de experiências: o resultado de um saber sem rosto. Não raro, aquele que avista um personagem perde a razão ou a visão. Muitas narrativas estão associadas à morte e à transformação, seja do personagem, seja de quem o vê, e ao renascimento, em uma ou múltiplas formas, com a incorporação de poderes e habilidades inauditos, que qualificam sua relação com aquilo que é o suposto real. 

Januária nos mostra quão diversos são os olhares criados sobre tudo o que nos cerca e que continua potencialmente transformando a experiência com o que nos rodeia. Damos nomes às representações que surgem a cada momento, transformando-as em entes com os quais podemos nos relacionar. Muitas vezes, no meio urbano, não as reconhecemos mais como o Curupira ou a Iara, mas continuamos a povoar o mundo com personagens-síntese de nossos medos e esperanças, que encarnam a necessidade daquilo que não podemos controlar ou racionalizar.

É possível afirmar que o pensamento mágico que está na origem dos personagens folclóricos está em todo lugar onde existe humanidade. Diversas vezes, a autora enfatiza a realidade de seus personagens. Eles existem. Um leitor menos atento poderia compreender isso como uma concessão ao universo infantojuvenil ou o reflexo da larga experiência da escritora com esses temas. Mas seria um engano desse leitor incauto, acostumado talvez com um senso comum que reserva para o folclore as aulas do ensino fundamental. 

Vemos, ao contrário, o folclore como um saber sobre o mundo, uma forma de apreensão e organização de sentidos que praticamos cotidianamente. Algo que demonstra nossa incapacidade de conhecer o mundo quando este se distingue de nossas crenças, estes “hábitos inteligentes” que organizam o juízo comum. Conhecer o folclore é preciso. Entendê-lo como afirmação de um saber sobre o mundo é fundamental. A obra de Januária Cristina Alves nos abre ambas as possibilidades.  

Especial Infantojuvenil: oferecimento Itaú Social

Quem escreveu esse texto

André Bazzanella

É autor de Culturas de fibra (Iphan).

Matéria publicada na edição impressa #6 out.2017 em junho de 2018.