Infantojuvenil,

África aqui e lá

Contos mostram relação com mais velhos em Moçambique e no Brasil

29out2018 - 15h16 | Edição #16 out.2018

Dois volumes da coleção “Contos de Moçambique”, da editora Kapulana, sairam neste ano: um de Adelino Timóteo, que é poético e pede um pouco mais de atenção, e um de Carlos dos Santos, que brinca com as rimas ao longo das páginas.

Ambos destacam palavras relacionadas à cultura de Moçambique e, ao final, apresentam um glossário de significados e as versões originais desses contos que são tradicionais. 

Essa experiência de aproximação com o país africano também se dá pelas ilustrações: Silva Dunduro e Emanuel Lipanga trazem a pintura a óleo e a escultura maconde como elementos de destaque. Embora as esculturas sejam facilmente relacionáveis com uma estética africana, as pinturas podem ser mais surpreendentes até mesmo pela paleta de cores fria, que dialoga perfeitamente com a história.

Na aldeia dos crocodilos nos fala de uma aldeia na beira de um rio. Lá vive um garoto, Mandoguinhas, e seu avô, Boaventura. O avô conta para o neto que os crocodilos que ficam pelas águas não são apenas animais, mas ubuntus, ou seja: gente. E embora ninguém, nem mesmo o neto, acredite nisso, quando o velho desaparece, Mandoguinhas tem que questionar todos, até mesmo as autoridades, para provar que o que parecia absurdo era a mais pura verdade. 

Essa relação do mais jovem com o mais velho sábio se repete em O caçador de ossos, sobre a solidão de Sinaportar, um caçador que se vangloriava demais por ser o melhor de todos, mas que se recusava a caçar acompanhado de outras pessoas. 

Sinaportar herdara os cães de seu pai, e eram eles os responsáveis por seus resultados na caça. Por suas próprias mãos, Sinaportar era incapaz de capturar um animal sequer. Ele, no entanto, negligenciava seus cães, que se rebelam contra ele e se recusam a trabalhar, desencadeando uma busca por respostas que encontra a voz de um velho sábio do seu povo e, é claro, de seu falecido pai. 

É comum a reverência aos antepassados e o respeito pelos anciãos nessas histórias africanas. Até mesmo no Brasil, a exemplo das religiões de matriz africana, saber ouvir o que os mais velhos têm para ensinar é parte fundamental dessa relação. Não que outras culturas não valorizem sentimentos similares, mas é interessante perceber como essa busca do ancestral é pulsante mesmo entre os jovens brasileiros que hoje passam a se reconhecer como negros, mesmo que não saibam quais são suas origens.

Essa questão é refletida em outro livro de profunda beleza e doçura melancólica: Nuang: caminhos da liberdade. Essa história já nos apresenta uma perspectiva brasileira, mesmo que os elementos africanos, como a língua swahili, estejam presentes.

A garota Nuang é parte do povo Uthando e, mesmo criança, é considerada uma líder sábia e bondosa ainda que tenha medo de tempestades. Tem uma relação especial com a avó, que lhe ensina que os trovões e raios são a voz de Nzambi, o supremo criador de todas as coisas. Nuang e seu povo são supreendidos por sequestradores que os levam como escravos ao Brasil. 

Origens e liberdade

Toda essa parte do navio e da escravidão é contada com muito cuidado. Em nenhum momento lemos essas palavras comumente utilizadas, ainda que seja possível compreender que Nuang e seu povo estão vivendo uma grande injustiça e sofrem porque querem ser livres de novo. E é a necessidade por liberdade, uhuru, e a forte relação com sua avó que a fazem perder o medo da tempestade.

Nuang fala sobre a busca pelas raízes que faz parte da vida de muitas pessoas negras brasileiras. O caminho para a liberdade não tem fim — ele ainda está acontecendo —, porque aqueles que foram escravizados em sua maioria não puderam voltar, não puderam ser plenamente livres. Seus descendentes continuaram sonhando e lutando por uhuru.

Embora de perspectivas distintas, os três livros são oportunidades de aproximação com as origens que tantos de nós dizemos ter, mas nem sempre buscamos alimentar. As novas palavras, as diferentes estéticas e as sonoridades enriquecem. São, afinal, ligações com a ancestralidade, com as vozes dos pais e avós que nos ensinam coragem, generosidade e inteligência para questionar a injustiça.   

Quem escreveu esse texto

Jarid Arraes

Poeta e cordelista, é autora de Redemoinho em dia quente (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #16 out.2018 em outubro de 2018.