Infantojuvenil,

As paisagens da favela

Otávio Júnior expõe em dois livros as belezas e as dificuldades de viver em uma comunidade do Rio de Janeiro

01out2019 - 01h22 | Edição #27 out.2019

Da janela de uma casa, veem-se brincadeiras, pessoas indo à escola, grafites nos muros, bandeiras. Um circo, um palhaço negro, uma festa. O nascer do sol, a tia que vende doces, a biblioteca, o castelo encantado, o campinho de futebol vazio. Dessa janela, às vezes, o menino vê um alvo: ele mesmo, um parente, um amigo. “Como homem negro sou um alvo. Hoje tem uma operação policial na favela e estou aqui, falando de literatura pelo telefone com você. Uma semana atrás eu perdi um amigo com bala perdida. Um dia antes de eu ir à Bienal [do Livro do Rio de Janeiro] para lançar um livro. Poderia ter sido eu”, diz o escritor Otávio Júnior, conhecido como “livreiro do Alemão”, em alusão ao bairro da Zona Norte carioca, onde mora.

A criança negra quer se ver inserida em contextos gerais e não só em apontamentos à sua cultura

Ler ou falar sobre seus livros é confundir personagem e autor, retrato social e ilustração, metáfora e realidade. Em Da minha janela, ele aparece como um menino que, da janela, vê o dia a dia da favela; em Grande circo favela, toma a forma da pequena Ju, uma menina que vive a empreitada de criar um circo na sua comunidade para agradar um palhaço sem lugar para trabalhar. Os enredos estampam sua missão: evidenciar a literatura periférica e o direito à cultura dos moradores das comunidades alijadas de determinadas formas de arte. Também mostram uma persistência no amadurecimento da própria escrita e um olhar criterioso para a coreografia possível entre textos, imagens e projeto gráfico, ao escolher duas artistas que não fazem concessões ao leitor-criança. As obras não são panfletárias nem pedagógicas ou moralistas. São potências poéticas dispostas a discutir os desdobramentos éticos e estéticos de quando se misturam vida real e ficção.

“Foi lendo para as crianças que percebi que elas adoravam os conteúdos apresentados, mas não se viam representadas na sua realidade, na sua cor, no seu cenário”, diz o escritor. A representatividade do negro nas histórias da literatura infantojuvenil aumentou nas últimas décadas, mas algumas produções ainda caem em estereótipos ou se esquecem de que a qualidade literária não pode se sobrepor ao tema. Ou, ainda, que a criança negra quer se ver também inserida em contextos gerais e não só em apontamentos à sua cultura ou ancestralidade. 

Dos detalhes ao todo

A diversidade orientou a identidade visual dos livros. Da minha janela vem com a delicada mistura de técnicas da argentina Vanina Starkoff, já conhecida por seu traço com elementos da cultura africana. Há cinco anos morando no Rio de Janeiro, ela andou com Otávio por várias favelas como laboratório para sua criação. Não desenhava nada in loco: chegava em casa e preenchia uma espécie de diário visual. Demorou a decantar o vivido para a ilustração. “Tem um tempo para chegar no seu coração”, diz a ilustradora.  

É como se o livro fosse esse passeio: o virar de página dá a sensação de um voo panorâmico por uma comunidade imaginária. Gasta-se um bom tempo nos detalhes criados por Vanina, com pedaços de fotos, texturas de janelas, sobreposições, tipos de pessoas, tons de pele, condições de transporte, comércios, escolas. Na penúltima página, as duplas se abrem em um único desenho: ao mesmo tempo que se distancia do detalhe, aproxima-se de certa beleza.

Já em Grande circo favela, Roberta Nunes convida o leitor a um zoom. Vemos as gentes de perto, suas roupas, acessórios, fios elétricos, objetos: estamos no chão da comunidade. Como se expusesse seu próprio processo criativo, a ilustradora usa papéis criados por ela. “Lido muito com a poética dos resíduos, faço meus próprios papéis com restos às vezes do próprio livro”, conta Roberta, destacando Carolina de Jesus e Arthur Bispo do Rosário como suas referências criativas. Assim, ela brinca com a figura do artista, como se, em suas roupas, ele “vestisse” a favela que visita. 

Aos poucos que notamos que o palhaço sem circo é negro. No final, a edição ressalta que a história foi inspirada em Benjamin Chaves (ou “de Oliveira”), o primeiro palhaço negro do Brasil que, na virada do século 19 para o 20, encontrou no circo uma forma de liberdade. No ano que vem, completam-se 150 anos de seu nascimento, e a Acadêmicos do Salgueiro vai homenageá-lo na Sapucaí. Aficionada por samba, Roberta contou à editora a coincidência. O lançamento da obra na Bienal neste ano teve a participação da turma das crianças da escola. Um momento apoteótico, certamente.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Cristiane Rogerio

Escreve na revista Crescer.

Matéria publicada na edição impressa #27 out.2019 em setembro de 2019.