História,

Uma sensação abissal de profundidade

Arqueóloga narra os 7 mil anos de história do Reino do Meio a partir de seus artefatos

01abr2019 - 01h00 | Edição #21 abr.2019

A China, chamada desde há muito Reino do Meio, possui uma história ininterrupta de ocupação humana e grandes civilizações que remonta a muitos milênios. Muitos. Neste China: uma história em objetos, a especialista em arte e arqueologia chinesas Jessica Harrison-Hall apresenta-nos o turbilhão de cultura e refinamento que a região acumula em seus artefatos, objetos de uso comum ou cerimonial, artes caligráficas e pictóricas ao longo dos últimos 7 mil anos. As imagens apresentam inúmeros objetos arqueológicos e museológicos, além de fotos de lugares chineses e exemplares de artes visuais, antigos e contemporâneos. Grande parte das mais de seiscentas imagens mostra peças do acervo do British Museum de Londres, mas muitas são as peças atualmente expostas em outras instituições museológicas ao redor do mundo, galerias e coleções particulares.

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Reino do Meio designa a localização central e privilegiada do que hoje conhecemos por China, entre o Oriente Médio e o Extremo Oriente, entre a Mongólia ao norte e o Sudeste  Asiático. Rota comercial, entroncamento de sociedades das mais complexas e grupos étnicos dos mais variados, a China desde o século 3 a.C. se viu às voltas com impérios, dinastias, guerras pelo controle central de seus vastos territórios e rotas comerciais. Em cerca de 350 páginas, a obra apresenta linhas dessa enorme história a partir de sua cultura material, descrevendo com rigor o que se sabe da vida chinesa em eras antigas e também apresentando detalhes técnicos sobre os modos de fazer os objetos aqui expostos: descrições de fornos imperiais que queimavam carregamentos e mais carregamentos de porcelana finíssima, modos de produzir seda com a qual adornar os corpos e os espaços majestosos que preenchem a história chinesa, um quase passo a passo sobre a confecção de peças de bronze de 4 mil anos ou artefatos neolíticos de jade tornam a leitura enciclopédica, em seu melhor sentido de instrução.

O tom da obra é conciliador: poucas vezes vemos o texto explicitar a centralização estatal chinesa, com sua violência e opressão contra outras etnias e grupos

Captar um vislumbre da história da China, de sua sucessão de eras, dinastias, impérios e estilos artísticos — ou arquitetônicos, ou mobiliários — é sempre tarefa vertiginosa, que a autora consegue de algum modo atenuar graças à organização cronológica do livro. Dividido em seis capítulos, somos introduzidos a objetos, povos e lugares que se desenrolam na seguinte sequência: “Os primórdios da China (5000–221 a.C.)”; “Impérios (221 a.C.–960 d.C.)”; “Imperadores, eruditos e comerciantes (960–1279)”; “Mongóis e Ming (1271–1644)”; “Qing: a última dinastia (1644–1911)” e “A China moderna (1911–presente)”. Note-se que, mesmo ao tratar da China, território e cultura tão distintos do histórico indo-europeu de nossas sociedades ocidentais e de nossas datações historiográficas, a obra mantém a.C. e d.C. como determinações cronológicas, em vez de optar, por exemplo, pelos menos marcados — embora igualmente cristãos — EC e AEC (Era Comum e Antes da Era Comum).

Cada capítulo se subdivide em eras e dinastias, abrangendo não apenas a face centralizadora do Estado imperial chinês — embora nele se ampare para narrar as fases da história —, mas fazendo referências também a outros povos, limites territoriais e fronteiras com grupos distintos — quase sempre em guerra, quase sempre se sobrepondo uns aos outros, como no conhecido período em que a China foi subjugada pelo Império Mongol sob a égide de Kublai Khan (1260-94).

O tom da obra, ainda assim, é conciliador: mesmo analisando a história a partir de objetos que se modificam ao sabor das conjunturas políticas, ora favorecendo as produções de determinada região, ora as de outra, poucas vezes vemos o texto explicitar o caráter certamente colonizador da centralização estatal chinesa, com sua violência e opressão contra outras etnias e grupos sociais. Duas dessas poucas passagens deixam claro o caráter devastador de toda empresa colonial: já no século 17, durante a dinastia Qing, “campanhas militares levaram a uma grande expansão dos territórios chineses e manchus. Mongólia, Xinjiang e Tibete tornaram-se parte do império Qing nessa época”; “Entre as grandes campanhas militares Qing estiveram a subjugação de rebeldes em Taiwan, a intervenção em Annam (Vietnã do Norte), campanhas contra os Gurkhas no Nepal e a repressão dos Miao no sudoeste da China”.

Leitura arqueológica

Toda história se narra a partir do solo em que se apoia, e talvez esta história por meio dos objetos, por lançar mão de elementos arqueológicos e de acervos mantidos ao longo dos séculos, possua muito mais exemplares afinados às expansões coloniais das diversas dinastias do que objetos que faziam a vida — cotidiana, mas também cerimonial — dos inúmeros povos subjugados nestes 7 mil anos.

Ao longo da história da China — no período de domínio mongol, por exemplo, mas também depois — houve muita influência artística e religiosa dos Himalaias, aí incluído o Tibete, com seus monges budistas e artesãos levando às cortes chinesas uma série de elementos que foram absorvidos no cotidiano destas. Como se sabe, o Tibete atualmente é território dominado pela China continental, desde o meio do século 20, como se desde sempre tivesse pertencido a seus impérios. Não atentar para essa retórica imperialista — em seus sentidos históricos, mas também contemporâneos — torna a leitura enviesada, por mais ricos e abundantes que sejam seus objetos, artefatos e imagens.

Mesmo assim — ou talvez por isso mesmo —, a leitura desta obra evoca todo o imaginário que temos consolidado sobre a China, seja pelos filmes, seja pelo caráter sempre mítico e misterioso que ronda os relatos sobre essas terras a leste, seja ainda pelo que conhecemos ao vivo, como as tradicionais telhas e calhas em cerâmica chinesa que vieram parar aqui no Nordeste do Brasil, por trânsitos marítimos e coloniais — no que Gilberto Freyre chamou muito apropriadamente de “China tropical”. Ou ainda — para não perder a referência — pelo que sabemos ao ouvir o samba de Jorge Ben que inicia com a pergunta detetivesca-existencial: “Quem roubou/ a sopeira de porcelana chinesa/ que a vovó/ ganhou da baronesa?”

O livro apresenta a China dos museus e tem uma interlocução mais explícita com o mundo anglófono do que o histórico do contato português com a China

A leitura da China a partir de seus objetos guarda uma sensação abissal de profundidade histórica, mas de continuidade também. Ao longo destes 7 mil anos, 350 páginas, vemos movimentos de vaivém entre influências antigas e contemporâneas, entre a tentativa de proceder a um renascimento de formas da Antiguidade (século 11 a.C.) em um período tão recente quanto a dinastia Song (960-1279). Essa abrangência histórica impressiona, pois vemos a China se apresentar quase como um espaço atemporal, quase eterno — como evidenciam suas peças de jade refinadíssimas (c. 2000 a.C.) e os primeiros registros de sua caligrafia ideogrâmica (c. 1200 a.C.), que se mantém compreensível até hoje, em vista do repertório ideogrâmico do chinês contemporâneo.

A tradução de Érico Assis é competente e constante, o que facilita nosso envolvimento com esse texto de registro enciclopédico. A edição conta com poucas gralhas, o que é feito notável para uma obra tão abrangente e que atravessa registros em português, ideogramas chineses e suas transliterações fonéticas — chamadas pinyin no método adotado atualmente pelo governo da República Popular da China. Fica a dúvida de por que a autora optou por grafar o nome do grande líder comunista como Mao Tsé-tung, em vez do registro mais contemporâneo, Mao Zedong.

Com tantos acontecimentos retratados neste livro, dois elementos poderiam contribuir muito para a completude da obra: um mapa geral do território chinês, em que se identificassem as ocupações principais de cada dinastia ao longo da história (ou mapas sucintos a cada capítulo, mostrando os movimentos territoriais narrados no texto); e uma tabela sinóptica abrangendo períodos históricos e suas eras/dinastias relacionadas. Há, é verdade, uma lista cronologicamente detalhada a cada início de capítulo, mas uma elaboração mais abrangente e sintética talvez contribuísse para a leitura destes milênios de história tão pouco conhecidos entre nós.

China: uma história em objetos apresenta a China dos museus e escavações, coleções particulares e artefatos circulantes pelas mais diferentes redes de relações sociais — comércio local, guerra, espólio, importação, exportação, mercado internacional de arte contemporânea, colonização, cooptação e saque — e tem, por razões de curadoria e autoria, uma interlocução muito mais explícita com o mundo anglófono do que, por exemplo, com o histórico do contato português com a China. Ainda assim, é obra de referência pelo que se propõe e pelas belíssimas imagens que narram a vida e a história de um país monumental.  

Quem escreveu esse texto

Leandro Durazzo

Antropólogo e tradutor, escreveu Mar de viração (Moinhos).

Matéria publicada na edição impressa #21 abr.2019 em março de 2019.