Arte e fotografia, História, Jornalismo,

Re(vi)ver 1968

Imagens das manifestações geraram um legado iconográfico que se integrou à nossa imaginação e do qual ainda temos lições a extrair

01ago2018

“Vocês não sentem um vento de revolução no ar?”, questionava Alexis de Tocqueville na Câmara, em 29 de janeiro de 1848. Poucos dias depois, estudantes e operários se reuniam nas ruas aos gritos de “Viva a Reforma”, num movimento que provocou a abolição da Monarquia e a proclamação da Segunda República francesa.

O vento de revolução que 120 anos depois varreu Paris e percorreu o mundo não derrubou governos, mas pôs em circulação ideias, frases, livros e imagens. Na verdade, toda uma iconografia com múltiplos sentidos, amplamente divulgada na atual celebração de 50 anos do movimento.

Rever essas fotografias me provoca uma mistura de sensações, confessa o fotógrafo Pedro de Moraes. Jovem militante, Pedro registrou em 1968 as manifestações no Rio de Janeiro e sua contrapartida, a repressão policial. As pessoas acreditavam na luta contra a ditadura, mas o AI-5, editado em 13 de dezembro daquele ano, endureceu o regime, que entrou na fase mais brutal e durou ainda quinze anos.


Jovens marcham na av. Rio Branco  Pedro de Moraes

Ao contrário dos fotógrafos da imprensa, como Evandro Teixeira e Campanella Neto, do Jornal do Brasil, Pedro agia por sua conta e risco, movido pelo ideal socialista da revolução. Em certo momento, lembra, as coisas se complicaram e já não era mais possível ir para as ruas. Seus negativos e contatos foram escondidos na casa de uma tia e só foram resgatados muito mais tarde. 

Bruno Barbey também tinha limitações ao cobrir as manifestações de 1968 em Paris, em meio aos conflitos de rua e à enorme tensão. A agência Magnum tinha dois fotógrafos em Paris, Cartier-Bresson e Marc Riboud, que fotografavam discretamente com suas Leicas. Barbey tinha apenas dois anos de agência, não era militante, mas simpatizava com a causa estudantil. Queria principalmente registrar o momento histórico, embora se sentisse mais amador do que profissional. Ele não dominava o flash e fotografava só com luz ambiente. Se perdeu algumas fotos por falta de iluminação adequada, outras ganharam com seus desfoques e áreas de sombra, por traduzir melhor a atmosfera da rua.

Devemos a William Klein, em seu filme Grands Soirs et Petits Matins (Grandes noites e pequenas manhãs), uma das mais completas visões do movimento marcado não só pelos conflitos, mas também pelo exercício da palavra. Já na primeira cena um homem argumenta na rua com os estudantes: “A França de 1968 não é a Petrogrado de 1917. O nível político é muito mais elevado. Os meios de comunicação permitem correias de transmissão que chegam às massas. Isso é efetivamente novo. Lenine não tinha o rádio. Não havia reportagens ao vivo”.

Barbey e Moraes iam só com a cara, a coragem e a câmera,  parecendo seguir a lição de Cartier-Bresson no seu Momento Decisivo: “Fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração. Devemos nos mostrar lúcidos com relação ao que está acontecendo no mundo, e honestos quanto aos nossos sentimentos”.

Talvez venha daí a incrível afinidade de seus trabalhos em duas cidades diferentes, com lutas diversas, mas onde aparecem arquétipos que até hoje provocam nossa imaginação. Em algumas páginas é preciso ler a legenda para descobrir o que é Paris e o que é Rio. Nos dois casos as imagens ganham valor com o tempo, como se amadurecessem ao descansar nos arquivos. As grandes manifestações, como a marcha de Denfert-Rochereau à Bastilha em apoio aos estudantes, ou a da reação de apoio ao general de Gaulle nos Champs Elysées, e a Passeata dos Cem Mil no Rio, têm registros magníficos, que revelam a força da multidão e a sensação que ela transmite.

Postas lado a lado, as fotos dos manifestantes que se dirigem com suas bandeiras ao estádio de Charlety e as dos jovens com a bandeira do Brasil na av. Rio Branco parecem saídas do mesmo ensaio. Assim também as dos fotógrafos que registram a evacuação do Teatro Odeon e as dos que, para fotografar a manifestação no Rio, se posicionam sobre uma banca de jornal onde estava pichado: “Abaixo a ditadura”. Os cenários de guerra nas duas cidades parecem saídos do mesmo filme. A violência da ação policial, tanto no Rio como em Paris, fica bem caracterizada e tem muito em comum.

1968: Paris, Rio preenche uma lacuna, ao confrontar duas visões próximas e complementares de uma época tumultuada, mas cheia de esperança. A grande questão é: o que vamos fazer de 68? Onde foram parar os sonhos de liberdade e o desejo de mudança manifestados nessa revolução que Raymond Aron classificou como ao mesmo tempo anacrônica e futurista?

Uma pesquisa do Nouveau Magazine Littéraire detectou enorme simpatia dos franceses pelo movimento de 68. Daniel Cohn-Bendit, o líder da época, comenta: “Vivemos alguma coisa de infinitamente mais belo, mais livre, mais alegre do que percebiam as lentes dogmáticas de então, lentes que impediam de apreender a brecha que estávamos abrindo”, referindo-se ao título do livro de Edgar Morin, Cornelius Castoriadis e Claude Lefort lançado em 68. Morin, testemunha entusiasmada de 1968, continua afirmando que essa brecha não se fechou. Para ele, 68 não foi uma revolução fracassada, mas o sinal de uma mudança de civilização, uma brecha para novos valores e aspirações. O ponto comum entre todos os movimentos foi a rejeição da autoridade do mundo adulto. Nada muda, e tudo muda, diz ele.

As imagens de 1968 continuam em vigor: constituem um rico legado iconográfico que se integrou à nossa imaginação, do qual ainda temos lições a extrair. Quando o futuro parece uma condenação, sempre podemos ir para a rua e gritar.

Quem escreveu esse texto

Eduardo Muylaert

Advogado e fotógrafo, está lançando Direito no cotidiano: guia de sobrevivência na selva das leis (Contexto).