Crônica da pandemia,

Os dinossauros no poder

Acima de ideologias, competições, vaidades e pretensões políticas, está a sobrevivência de cada ser humano; nenhum de nós se salvará se a espécie for extinta.

01abr2021 - 12h48 | Edição #45

A pandemia está pondo em xeque o exercício tradicional da política. A própria concepção de democracia liberal está sendo questionada. A gestão da saúde pública ocupa, enfim, o centro da cena. Os governantes que não souberem lidar com a emergência sanitária estão com a sobrevivência política ameaçada.

Se um dia a Terra fosse alvo de um asteroide, como aquele que acabou com os dinossauros, como se comportariam os dinossauros no poder? É só um meteorozinho, nada de mais, diriam alguns. Na primeira vez, os dinos foram negacionistas, ou não conseguiram avaliar a extensão do dano ou, ainda, não puderam tomar medidas para proteger sua população. Deu no que deu, não temos mais dinossauros de verdade. Eram seres irracionais, claro, mas alguns humanos também parecem não raciocinar.

Somos hoje quase oito bilhões de seres humanos. Os dinossauros também eram o grupo dominante no planeta quando foram completamente extintos.  Seus enormes esqueletos puderam ser remontados a partir de escombros e agora estão nos museus de história natural. Ainda há, porém, quem acredite que é tudo pura invenção, coisa de fantasia ou de ficção científica. Ocorre que nós, humanos e terráqueos, também estamos sob ameaça. Mais de uma ameaça, na verdade.

O novo asteroide tem nome: é a terrível pandemia que já matou mais de dois milhões e cuja bem sucedida empreitada de exterminação prossegue a passos largos. As variantes não param de surgir, desafiando as vacinas. A população assiste atônita, os telejornais quase não falam de outra coisa, muitos brigam e discutem, ninguém sabe bem para onde correr.

A sensação é próxima do pânico desencadeado em 1938 nos Estados Unidos, quando a rádio CBS deu, em edição extraordinária, a notícia da invasão da Terra por marcianos. "Guerra falsa no rádio espalha terror pelos Estados Unidos" foi a manchete do Daily News no dia seguinte. A narrativa criada por Orson Welles, a partir do livro A guerra dos mundos, de H. G. Wells, mesmo logo identificada como ficção, demonstra os efeitos sociais que pode produzir um evento inesperado e ameaçador de grandes proporções.

Uma das artimanhas da literatura fantástica é a irrupção do anormal em um mundo aparentemente normal. A descoberta de que nosso mundo pode não estar funcionando bem tende a produzir sentimentos de ameaça, medo e angústia. Para Freud, “tem-se um efeito sinistro quando se apagam os limites entre fantasia e realidade, quando aparece como real diante de nós algo que antes tínhamos como fantástico”.

A humanidade teve que lidar com inúmeras catástrofes. No passado, muitas delas geraram lideranças como Churchill e De Gaulle, na Segunda Guerra. Simbolicamente, Noé salvou a humanidade ao construir a arca e enfrentar o dilúvio.

Cada vez mais nos assustamos com pragas que pareciam distantes e que saltam das páginas da Bíblia para nosso dia a dia. A preocupação é ainda maior diante da insegurança dos governos. Mesmo os que tentaram acertar, cometeram grandes erros de avaliação e de estratégia.

O líder tradicional analisa a situação, traça um caminho inteligente, capaz de obter a adesão da maioria, e não tergiversa. Muitos queriam, na Inglaterra, uma suposta paz com Hitler. Na França ocupada, muitos optaram pela colaboração com os nazistas. Todos entraram para a história como covardes ou traidores.

Os vencedores, que optaram pelo caminho mais difícil, arriscando inclusive a vida, salvaram seus países e viraram heróis. O oportunismo e o diversionismo são péssimos conselheiros, armas ilusórias de governantes fracos que costumam submergir na vergonha e no esquecimento.

Biopolítica

A ideia de que a primeira preocupação dos Estados seria a saúde pública não é nova. Desde 2002, pelo menos, o filósofo italiano Roberto Esposito vem batendo nessa tecla. A confluência dos campos da política e da biologia, proposto por Michel Foucault a partir dos anos 1970, serviu como estrutura de base para Esposito pensar a política atual.

Sua leitura não é fácil para os não filósofos, mas a visão da “biopolítica” moderna a partir das categorias conceituais de “comunidade” e “sistema imunitário” pode nos ajudar a compreender as questões que mais nos angustiam.

Esposito define a demanda por imunização como central na nossa existência: quanto mais nos sentimos sob o risco de sermos infiltrados e infectados por elementos estranhos, mais a vida do indivíduo e da sociedade se fecha dentro de seus limites protetores.

Com tal retração, aumenta também o risco de rejeição a qualquer possível diferença, aos estrangeiros, aos que têm opções que fogem ao tradicional, até mesmo aos que pensam de modo original.

Paradoxalmente, vemos em parte da população uma rejeição à imunização, a qualquer tipo de vacina, o que tem tido consequências desastrosas como, por exemplo, a volta da poliomielite e do sarampo. Mais grave é ver essa recusa apregoada por líderes políticos que, com o gesto irresponsável, atrasam por muito tempo o que a ciência preconiza e a experiência comprova.

O Brasil tem reconhecidamente um dos melhores sistemas de saúde pública e de preservação ambiental. Nossa capacidade de aplicar vacinas é fantástica. Mas ainda é preciso ter as vacinas, produzi-las ou comprá-las. A questão é também geopolítica: é preciso manter boa relação com os países produtores. Se a Rússia e a China estão fornecendo vacinas para a população pobre da África, não é por mera generosidade. Trata-se de manter importância política naquela grande região do globo.

O presidente Emmanuel Macron, da França, candidato natural à reeleição, confidenciou há dias que talvez não tenha condições de concorrer, pois podem ser necessárias medidas drásticas no último ano de governo. Em um primeiro momento, Macron ensaiou um discurso épico de mobilização geral, de guerra, com objetivos de curto e médio prazo. Sua aposta não deu certo, foi preciso voltar ao confinamento, e hoje é o Primeiro Ministro quem coordena o combate.

Prioridades

Thomas Boccon-Gibod, filósofo e professor, destaca em palestra e artigo que, nesse momento de desconfiança e exasperação, é preciso fazer um esforço para entender o que está em jogo.

O estado de emergência sanitária, afirma, embora restrinja temporariamente algumas liberdades, pode constituir um momento democrático. A confusão já chegou ao clímax, ele reconhece, agravada pela negação persistente da gravidade da situação.

A urgência, registra o filósofo do Direito, não está nas coisas, mas no modo como nos situamos em relação a elas. Não é a atmosfera que exige medidas de urgência para controlar o aquecimento climático; nós é que temos que perceber a urgência, obrigação brusca e imediata que nos impõe uma reordenação de prioridades.

Um vírus não é um exército inimigo, pois é totalmente desprovido de intenção. O perigo que representa não é moral, mas vital. A mobilização para vencê-lo depende de verificarmos os perigos que corremos, nossa vulnerabilidade geral, e buscar causas, inclusive no modo de vida predatório que adotamos.

Não podemos hesitar em tomar as decisões necessárias, sem dar a impressão de brincar com a opinião dos cidadãos ou, pior ainda, com o próprio vírus. É preciso ajudar os cidadãos a adquirir condições psíquicas e materiais para enfrentar as medidas, além de mostrar que elas podem ser necessárias e justas. Nada disso se resolve com jogos de palavras.

Em um Ocidente que optou pelo individualismo, é importante perceber que fazemos parte de uma espécie, a preciosa e imprudente espécie humana. Nenhum de nós se salvará se a espécie for extinta.

Dentro da espécie, o vírus circula, multiplica-se e se transforma. Não adianta eu tentar me proteger se meu vizinho continuar contaminado. Por vizinho, aqui, entenda-se o pessoal da mesma rua, do mesmo bairro, do mesmo país, e mesmo da Oceania ou da África. Da Terra inteira.

Os Estados Unidos, o país com mais recursos, adotou após a mudança de governo um plano vigoroso de vacinação em massa e de apoio econômico. Apesar disso, a questão da assistência à saúde dos americanos, especialmente dos mais pobres, continua a ser o maior desafio político do país, longe de ser resolvido.

Entre nós, o SUS é considerado um exemplo mundial de cuidado com os brasileiros, mas o enfrentamento da pandemia pode ser descrito como uma comédia de erros. Por outro lado, é preciso manter e aprimorar o suporte econômico vital aos mais carentes e aos que não podem exercer sua atividade ou seu trabalho. A sobrevivência não é uma questão contábil, temos que nos dar ao luxo de investir os recursos necessários.

Valores

Outra consequência da pandemia é que esta vai nos obrigar a rever, como já está acontecendo, nossos valores. O que é mais importante, ir ao restaurante ou preservar nossa vida? Ir à praia ou se aliar ao sacrifício em busca da proteção de todos? 

Algumas experiências de lockdown curto e rigoroso deram muito certo. O que não adianta é ficar postergando providências, à espera de um milagre que não acontecerá. Nem fazer pequenas restrições que vão se repetindo à medida que não funcionam.

A redescoberta de que a vida de cada um está profundamente interligada, ricos e pobres, nativos e estrangeiros, moços e velhos, pode nos levar a ver que, bem ou mal, temos um destino comum.

A doença pode nos levar, ainda, a pensar no nosso modo de vida acelerado, com uma economia de mercado que supostamente não pode parar nem por um segundo. Os danos irremediáveis que isso tem causado à natureza não podem continuar. Dependemos de uma biosfera saudável para sobreviver. O ambiente poluído é propício à proliferação de todo tipo de vírus. Os outros alertas, a elevação do nível dos oceanos e de sua temperatura e as alterações climáticas, ainda não foram suficientes para uma reação mais enérgica.

Ninguém sabe se, quando e como a ameaça vai desaparecer. Na Idade Média, a epidemia durou três séculos e a única defesa conhecida era o isolamento social. Hoje sabemos que, além deste, podemos contar com as vacinas e com simples medidas de higiene, como usar máscaras e lavar as mãos.

No Brasil, estamos perdendo, por enquanto, três pessoas em cada grupo de 2.000. Não há brasileiro que não tenha perdido um parente, amigo, conhecido, ou mais de um. É necessário que, mesmo com brutal atraso, o governo federal se alinhe com o melhor da ciência e desenvolva esforços mais efetivos para enfrentarmos a calamidade.

Acima de ideologias, de competições, de vaidades, de pretensões políticas, está a sobrevivência de cada ser humano que vive em nosso país. E também nossa sobrevivência como espécie. Vamos tentar fugir do destino dos dinossauros. Talvez ainda haja tempo.

Referências:
H. G. Wells, A guerra dos mundos, 312 pp, Suma, 2016
Thomas Boccon-Gibod, https://aoc.media/analyse/2021/03/25/etat-durgence-moment-democratique/?loggedin=true
Roberto Esposito, Immunitas. Protection et négation de la vie, 240 pp, tradução francesa, Le Seuil, lançamento março de 2021
Roberto Esposito, Immunitas. Protezione e negazione della vita, original italiano, 184 pp, Einaudi, 2002 e 2020
Roberto Esposito, Immunitas: The protection and Negation of Life, em inglês, 215 pp, Polity, 2017
Roberto Esposito, Bios: Biopolítica e Filosofia, 272 pp, Edições 70, 2010
Roberto Esposito, Termos da Política: Comunidade, imunidade, biopolítica, 216 pp, Editora UFPR, 2017
Roberto Esposito, Categorias do Impolítico, 296 pp, Autêntica, 2019
 

Quem escreveu esse texto

Eduardo Muylaert

Advogado e fotógrafo, está lançando Direito no cotidiano: guia de sobrevivência na selva das leis (Contexto). 

Matéria publicada na edição impressa #45 em abril de 2021.