História,

O paraíso é um inferno

Lançada em 1986, obra que trata da homossexualidade ao longo da história do Brasil ganha edição ampliada

27nov2018 - 10h27 | Edição #18 nov.2018

Parecia que, desta vez, não haveria retrocesso. Se o futuro para o Brasil enquanto nação havia se provado, mais uma vez, um devaneio, para a agenda LGBT as conquistas obtidas nas últimas duas décadas — desde a universalização do medicamento de combate ao HIV, em 1996 — pareciam garantidas. Se não avançassem diante da direita, ao menos não retrocederiam. 

A série recente de atentados e ameaças contra LGBT — com o fortalecimento da candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) — mostrou que também esse futuro parece ter ficado no passado. Mais uma vez, a agenda política LGBT se volta às dicotomias históricas, como a vida e a morte.

Nesse novo contexto histórico que, com doses de farsa, resgata os velhos slogans de amor à pátria e preservação da família tradicional, a leitura da quarta edição de Devassos no paraíso adquire novo sentido político. Não se trata, na atual conjuntura, de uma história da homossexualidade no Brasil, mas de uma metáfora dos avanços e retrocessos sociais e culturais vividos por um país.

Obra tardia da formação do Brasil, Devassos no paraíso, publicado pela primeira vez em 1986, início da epidemia da aids, parte de duas premissas: a “identidade homossexual” no contexto nacional e o “caráter brasileiro”, questão que perseguiu parte da inteligência do país a partir da década de 1930. Que lugar a homossexualidade — por vezes chamada pelo autor de “homoerotismo” — ocupa na identidade cultural brasileira e que lugar essa identidade lhe reservou?

Em um país onde conceitos são importados e adaptados para funcionarem como aparência — vide a relação entre liberalismo e escravismo, no Segundo Reinado (1840-89) —, a homossexualidade, historicamente, é colocada em um contexto de aceitação velada e repressão sem leis específicas. 

A questão no Império e nas Repúblicas que o seguiram era de “moral e bons costumes”, além das alternâncias entre a repressão social e policial e sua transmutação em patologia ao longo do século 20.

Foi no teatro que a homossexualidade e a transexualidade encontraram espaço — nunca correspondido na literatura e no cinema

Como mostra Trevisan em uma pesquisa bem embasada, no período da Colônia (1500-1822), o “pecado nefando” (homossexualidade) existente entre algumas tribos nativas — que também praticavam a transgeneridade — estava “associado ao pecado maior da incredulidade ou heresia”. Isso não impediu que os brancos pecassem, “menos contra a fé e mais por malandragem”. 

Apesar de obrigada a se abrandar em território nacional, a Inquisição não deixou por menos. Criminalizava a homossexualidade e também aquele que, sabendo do crime, não delatasse seus autores. Isso não impedia, porém, que o abuso sexual recorrente entre senhores e escravos tivesse sua versão B, sobretudo na iniciação sexual dos herdeiros.

Mesmo criminalizado e punido, o “pecado nefando” estabeleceu raízes na cultura brasileira à sua maneira: por meio do travestismo. Trevisan conta que, diante da ausência de mulheres nos palcos brasileiros até o século 19, os homens eram chamados para fazer suas vezes. “Considerando a estabilidade dos elencos mesmo em se tratando de amadores”, havia atores especializados em papéis femininos.

Nos palcos iluminados

Foi no teatro que a homossexualidade e a transexualidade encontraram espaço — nunca correspondido na literatura, na teledramaturgia ou no cinema, apesar dos avanços recentes neste último. Nos palcos, essa representatividade se deu tanto pela presença de personagens homossexuais a partir do início do século 20 — em peças de Oswald de Andrade, por exemplo — como pela presença de gays e travestis entre seus grandes nomes. 

Conhecendo-se a perspectiva histórica, não é de espantar que, em um país onde 95% das travestis vivem em situação de rua e prostituição, o teatro tenha sido o único meio profissional a abrigá-las, assim como os espetáculos derivados de sua linguagem nas casas noturnas.

A perspectiva crítica da série de capítulos ligados à temática da aids é problemática. Embora muito bem documentada, compondo um painel aterrorizante da homofobia com a proliferação da doença, por vezes o autor, que viveu a regressão social da aids como “peste gay”, deixa-se levar por um acerto de contas com o período, o que, por sua vez, ignora em parte as questões histórico-científicas ligadas à disseminação do vírus.

Fato criminoso, o surto persecutório que se seguiu à chegada do HIV uniu as duas maiores sanhas contra os homossexuais: a moral e a patológica — a infecção pelo HIV vista como punição a um estilo de vida. A criminalização da doença disseminou o ódio e ceifou vidas de várias formas, inclusive a emocional. 

Contudo, falta à obra explicar por que o HIV se proliferou entre os gays nos anos 1980. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, mostrou recentemente que os altos índices de infecção entre homossexuais e bissexuais masculinos se dão pela prática do sexo anal — sobretudo o “passivo” — sem preservativo.

É contundente, porém, sua crítica ao posicionamento das esquerdas ao longo de todo o século 20 às pautas das chamadas “minorias”, como elas mesmas designaram os LGBTs, de início coadjuvantes na “luta de classes”, depois “moeda de troca” na base de sustentação dos governos petistas perante sua base evangélica e conservadora — questão pouco ou nada criticada pelos setores progressistas.

Em um mundo no qual a direita nacional-populista ganha espaço com a América branca, heterossexual e conservadora de Donald Trump, ecoam as palavras da jornalista russo-americana Masha Gessen, citada por Trevisan: “uma campanha antigay catalisaria a ânsia de recuo a um tempo em que o eleitorado de Trump se sentia em casa”. Tal constatação ecoa também na acepção de república armada e militarizada de Jair Bolsonaro.

Quem escreveu esse texto

Danilo Thomaz

Jornalista, é coordenador de comunicação da Flip.

Matéria publicada na edição impressa #18 nov.2018 em novembro de 2018.