História,

O jogo da vida

Em volume ricamente ilustrado, a misteriosa trajetória das cartas de tarô é contada por historiadora francesa

17mar2022 - 02h17 | Edição #56

No filme A lenda do Cavaleiro Verde (2021), o jovem Gawain (interpretado por Dev Patel), um aspirante a cavaleiro da Távola Redonda na corte do rei Arthur, vai ao encontro do seu destino após fazer uma aposta com o Cavaleiro Verde, que lhe desferirá um golpe fatal. O Cavaleiro Verde, um ser mágico com aspecto de árvore, havia adentrado a corte no ano anterior para um “jogo de Natal”: quem o acertasse com a espada deveria se apresentar no ano seguinte diante dele para receber o mesmo golpe. Quando Gawain se voluntaria para decepar a cabeça do cavaleiro, Arthur o alerta: “Lembre-se de que isso é um jogo”. Após ter a cabeça decepada por Gawain, o cavaleiro retorna à vida, recolocando a cabeça em seu devido lugar. Ao sair, relembra ao jovem que o esperará na Capela Verde no ano seguinte para retribuir o golpe. Após uma longa viagem, Gawain faz honrar sua palavra e se vê diante do Cavaleiro Verde. Depois de oferecer o próprio pescoço, ele refuga e, diante da morte iminente, desesperado, questiona: “É tudo um jogo? É só isso o que há?”. “O que mais deveria haver?”, responde, lacônico, o cavaleiro, pronto para cortar-lhe a cabeça. A vida seria apenas isto: um jogo.

Foi após uma partida de um jogo de tabuleiro que alguns dos principais deuses do panteão egípcio, como Osíris, Hórus, Set, Ísis e Néftis, puderam nascer. O que eram as terríveis tribulações sofridas por Jó senão uma aposta entre Deus e o Diabo? Se a vida é um jogo, nada mais emblemático que a cena de O sétimo selo (1957), do diretor sueco Ingmar Bergman, em que um cavaleiro tenta enganar a Morte, ganhando dela em uma partida de xadrez. E o que, então, seria o jogo?

Em Homo ludens: o jogo como elemento da cultura (1938), o historiador holandês Johan Huizinga defende que o jogo é um dos principais elementos que nos tornam humanos, tanto quanto o raciocínio e a fabricação de objetos. Para ele, a noção de jogo é um fator fundamental para tudo o que acontece no mundo. “Já há muitos anos que vem em mim a convicção de que é no jogo e pelo jogo que a civilização surge e se desenvolve”, escreve no prefácio. O jogo seria, portanto, um dos pilares da cultura humana. “É uma função significante, isto é, encerra um determinado sentido. No jogo existe alguma coisa ‘em jogo’ que transcende as necessidades imediatas da vida e confere um sentido à ação. Todo jogo significa alguma coisa.”

Se todo jogo significa alguma coisa, qual seria o significado do tarô? Formado por imagens misteriosas, ele é composto de 78 cartas: 22 figuras arquetípicas, chamadas de arcanos maiores, e outras 56 cartas numeradas (de um a dez com os naipes de copas, espadas, paus e ouros) e com personagens de corte (reis, damas, cavaleiros e valetes com os quatro naipes), chamados de arcanos menores — se o jogo de cartas não segue essa quantidade de cartas, não pode ser chamado de tarô strictu sensu. Usado para fazer previsões sobre o futuro e levar a reflexões e ao autoconhecimento, as suas origens são envoltas em mistério. É com o objetivo de situar historicamente o surgimento do tarô que a historiadora, escritora, atriz e taróloga francesa Isabelle Nadolny, especializada na história de livros antigos, escreveu História do tarô: um estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo, que chega agora ao Brasil, com tradução de Karina Janini, em uma edição caprichada da editora Pensamento, que tem um selo especializado em livros esotéricos.

Papel e gravura

Nadolny começa situando o tarô dentro da história do jogo e das cartas de baralho, indo desde o jogo de senet egípcio, passando pelos ossos que serviam à adivinhação na época grega aos dados romanos, até chegar aos baralhos da Idade Média europeia. Ela já deixa claro que, antes, não havia diferenciação entre jogo por recreação e adivinhação; ambas as ideias caminhavam lado a lado, sendo que esse distanciamento só acontece mesmo a partir do século 18.

Sobre a origem das próprias cartas de baralho, a autora traz algumas hipóteses: a mais difundida é de que teria surgido mais provavelmente na China, onde se usavam, já no século 10, pequenas folhas ou fichas de papel, marfim ou metal, com imagens e símbolos, podendo ter sido uma imitação plana do jogo de dominó (invenção chinesa) ou dos dados (originários “dos bárbaros do Oeste”, como o filósofo Lao-Tsé chamava os europeus). Da China, as cartas teriam sido levadas pelos tártaros para a Pérsia; de lá, para o Egito dos mamelucos (que governaram de 1250 a 1517), seguindo para Veneza, de onde se espalharam para o resto da Europa.

O problema dessa hipótese, segundo Nadolny, é que a carta chinesa mais antiga conservada não é anterior a 1400, período este em que já existiam cartas no continente europeu, além do fato de não haver nenhum relato de viagem ou histórias desses locais em que são descritos jogos de cartas. Outras teorias localizam a invenção das cartas de baralho na Alemanha. O próprio nome “tarô” tem origens duvidosas, e Nadolny elenca a maioria delas.

De toda forma, o que foi essencial para a difusão do baralho na Europa foram o papel e a gravura. Sem os dois as cartas não existiriam. Com isso, foram estabelecidos locais de produção desses baralhos: no começo, eles eram feitos artesanalmente para a rica aristocracia europeia como artigos de luxo; depois, foram se popularizando, apesar da proibição da Igreja. Alguns artesãos, portanto, se especializaram como “talhadores de moldes de cartas”, criando corporações de ofício, com uma hierarquia e regulamentação próprias.

O tarô, mais especificamente, surgiu no norte da Itália, provavelmente em Milão, das mãos de artesãos italianos a pedido de aristocratas locais, sendo fruto da cultura humanista da baixa Idade Média e do Renascimento italiano. Isso é evidenciado pela própria iconografia das cartas, bastante influenciada pela cultura de corte feudal (com figuras como Imperador, Imperatriz, reis, damas, cavaleiros e pajens) e pela cultura cristã (Papa, Papisa, Julgamento, Força, Justiça, Temperança), assim como pela astrologia (Estrela, Lua, Sol), conhecimento bastante respeitado na época, e até pelos carnavais italianos, com suas representações alegóricas de cenas bíblicas e da mitologia romana em grandes carros que desfilavam pelas ruas das cidades.

Foi a partir do século 18, o Século das Luzes, que primava pelo racionalismo, que o tarô se constituiu como um jogo divinatório

         
Estampas de cartas antigas italianas, da Folha Rosenwald, norte da Itália, cerca de 1500 National Gallery of Art/Divulgação

Da Itália, o tarô se expandiu para a França, onde surgiu o famoso “Tarô de Marselha” (na verdade, são vários Tarôs de Marselha), que serviu de modelo para outros tarôs, mas que só foi realmente consolidado a partir de 1930 com a criação do “Antigo Tarô de Marselha” por Paul Marteau, diretor da editora Grimaud. O curioso é que o Tarô de Marselha não parece ter sido criado em Marselha, mas sim em Lyon ou Paris, ainda que depois essa cidade litorânea tenha se tornado, por um tempo, a principal fabricante de baralhos da França. Mais curioso ainda: mesmo que o modelo desse tarô fosse francês, a França não se interessava pelo tarô, sendo um jogo popular na Espanha, na Alemanha e em outros países. O importante a ser apontado é que, nessa época, o tarô era um “jogo dos trionfi” a ser jogado, com vencedores e perdedores, ainda que fosse possível ter um caráter educativo e de reflexão sobre a guerra, o poder e a mortalidade humana.

Ocultismo

Paradoxalmente foi a partir de meados do século 18, o Século das Luzes, que primava pelo racionalismo, que o tarô se constituiu como um jogo divinatório (de adivinhação), que guardaria conhecimentos antigos e “primitivos” que estavam então esquecidos. Jogar tarô seria, assim, uma forma de desvendar os segredos mais profundos do universo. Ocultistas como Antoine Court de Gébelin (autor de Mundo primitivo), conde de Mellet, Jean-Baptiste Aliette (o Etteilla, criador do Livro de Thoth e do baralho egípcio), Mademoiselle Lenormand (a sibila dos salões parisienses), Éliphas Lévi (que juntou tarô e cabala), Papus e Oswald Wirth (que reuniram o tarô ao hermetismo, conhecimento esotérico supostamente advindo da figura de Hermes Trismegisto, do Egito antigo), entre outros, criaram as bases para as leituras ocultistas do tarô. Alguns deles, inclusive, criticavam a cartomancia, inferiorizada por ser praticada por mulheres.

Nadolny também não deixa de mencionar a tradição anglo-saxã, através do tarô Rider-Waite-Smith, bastante difundido no Brasil (foi com esse tarô específico que eu aprendi a fazer a leitura de jogos, pois os arcanos menores são representados com cenas figurativas bastante imaginativas, e é com ele que faço consultas).

No capítulo final, ela traz uma pequena história dos arcanos maiores, situando seu significado no Medievo e nos séculos 18 e 19, elencando os significados divinatórios para cada um dos ocultistas e explicando a etimologia do nome de cada carta, que sempre vem gravado abaixo da imagem. Por exemplo, O Louco (Le Mat), a carta zero ou 22, que teria originado o Coringa do baralho normal (ou vice-versa), com seus andrajos, roupas de bufão, bastão de caminhada, trouxa às costas e acompanhado de um cão, podia ter uma conotação negativa na época medieval, representando a irracionalidade, a estupidez e até mesmo um voraz apetite sexual, o que o ligava ao Diabo. Mas há também a interpretação mais positiva, de que o louco pode ser mais sábio que os homens ditos normais.

Há também ricas seções bibliográficas, tanto de livros quanto de sites que trazem mais informações sobre o tarô e outros jogos, assim como imagens de cartas digitalizadas e que podem ser acessadas gratuitamente. A iconografia é, diga-se de passagem, um dos pontos altos do volume, com imagens de cartas de vários jogos e de períodos históricos diferentes.

Outro trunfo do livro é a seriedade com que Nadolny adentra os meandros da história do tarô, povoada por vários mitos. Ela deixa claro, desde o princípio, o que são meras hipóteses, quais informações possuem evidências históricas (artefatos, documentos, textos) e o que é improvável na trajetória das cartas. As supostas origens egípcias do jogo são desconstruídas, mostrando como essa visão romantizada veio da projeção de ocultistas franceses do século 18, tomados pela egiptofilia da época. Na conclusão, a autora dá uma aula sobre o caminho que uma pesquisa deve seguir: seu método foi procurar as informações mais confiáveis sobre o tema e, a partir delas, elaborar teorias, e não o contrário. Sem partir da ideia inicial de que tinha nas mãos um jogo concebido por sábios ou de um saber voltado apenas para iniciados, Nadolny descobriu um conhecimento ancestral cunhado por europeus comuns (um modesto artesão, um fabricante de cartas ou um servidor de um príncipe italiano). E para ela — e também para nós — essa descoberta não tira a força dos símbolos veiculados por essas cartas.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #56 em fevereiro de 2022.