História,

O invasor

Boa biografia narra as peripécias e polêmicas de Samuel Wainer, o antagonista de Lacerda que revolucionou a imprensa brasileira

01nov2020 - 01h00 | Edição #39 nov.2020

Bastava mencionar Samuel Wainer e Carlos Lacerda nos bares de outrora para identificar a esquerda e a direita da mesa. De um lado, gostavam das causas de Samuel: trabalhismo, nacionalismo, reformas. Do outro, atacavam seus métodos, nem sempre ortodoxos. Os primeiros viam em Carlos a mistura de Catão e McCarthy. Conservadores reduziam Samuel a sanguessuga do getulismo.

Idealizar ou pichar ainda hoje personagens tão complexos é o mesmo que embalsamar o maniqueísmo panfletário da Guerra Fria. John Dulles resgatou Lacerda dessa praga póstuma, em obra cujo primeiro volume saiu em 1991 e o segundo, em 1996. Maurício Dominguez Perez lançou, em 2007, um estudo acurado sobre o governador da antiga Guanabara. Chegou a vez de Samuel Wainer, quarenta anos depois de sua morte. Merecia mais do que o explosivo e magoado depoimento Minha razão de viver: memórias de um repórter, organizado por Augusto Nunes em 1987. O livro fez um barulho danado, vendeu mais de 200 mil exemplares em vinte edições.   

Surge agora a biografia definitiva Samuel Wainer: o homem que estava lá, obra refletida, bem pesquisada e bem escrita por Karla Monteiro. Livro denso e leve, que lhe tomou cinco anos de trabalho. O bom vinho dessa pipa foi beneficiado pelo tempo, pelos meios digitais e pela sensibilidade da experiente autora mineira para os meios-tons. Suas mais de quinhentas páginas podem e devem ser saboreadas.  

Não há pingo de moralismo no retrato do judeu imigrado, do repórter oportunista, do publisher movido a anfetaminas, que também foi bom amigo e pai extremado. O subtítulo apenas salienta o faro jornalístico e o agudo senso da oportunidade de Samuel para o momento decisivo, o fato relevante, o lugar certo, a hora certa.  Karla esclarece de passagem o tom vingativo das primeiras memórias: “Samuel tinha contas a acertar na autobiografia. Fora uma vida inteira carregando a cruz do corrupto que se beneficiara da proximidade com o poder para assaltar o Banco do Brasil e fundar uma cadeia de jornais. Na sua opinião, todavia, não era o único. Estava mais para a regra que exceção, e seria um último deleite desmascarar a hipocrisia”.  

Paulo Francis, antigo comandado, não perdoou a tartufice dos desafetos. Escreveu que era melhor o BB emprestar dinheiro a um jornal popular do que doar bilhões a milionários que os aplicavam em especulação. Os príncipes suntuários da mídia, era sabido, nunca perdoaram o arrivista que inflacionara o salário dos repórteres. 

A autora reproduz comentário atribuído a Roberto Campos: se os industriais assíduos do BB enfrentassem a devassa a que o patrão de Francis fora submetido, o Brasil ficaria com as contas em dia. Entre os donos de jornal, só Samuel morava de aluguel. Se houvesse testamento, o seu único bem disponível seria uma linha telefônica, comprada com a grana da venda de um Dodge Polara. 

Pogroms

Os 29 capítulos seguem o meteórico trajeto do imigrante judeu nascido em 1912, na Bessarábia, atualmente Moldávia, no Leste Europeu, espremida entre a Ucrânia e a Romênia, na época sob domínio do Império Russo. A família Wainer era natural de Yednitz, um shtetl (povoado judaico) saído de algum quadro de Chagall e sujeito a eventuais investidas dos cossacos bêbados de Alexandre 3º. Sucessivos pogroms entre 1880 e 1920 forçaram mais de 2 milhões de judeus ao exílio. A família chegou ao Brasil em 1921. 
Samuel tinha nove anos quando conheceu o Bom Retiro, reduto judaico no centro de São Paulo. O pai, Chaim, virou seu Jaime. Cantava na sinagoga com timbre igual ao de Al Jolson. Samuel nunca o viu rir. A mãe, Dora, promovia saraus e fazia pasteizinhos russos, os imperdíveis vareniks. Samuel era o sétimo de nove irmãos. Apenas Sofia, a caçula, nasceu aqui.

Karla registra: “Nesse meio russificado, ávido de aceitação e reconhecimento, Samuel começou a despertar para o nacionalismo trabalhista, ideologia que perseguirá vida afora”. Mais adiante, a fundação de Israel o atraiu para a vertente britânica do trabalhismo. Os soviéticos não inspiravam confiança: conhecia a Rússia e seu antissemitismo na pele. “Eu tinha declaradas simpatias pela esquerda, mas nunca fui bem assimilado pelo Partido Comunista e tampouco cheguei a afinar-me com sua ideologia”, escreveu ele. 

Em São Paulo, o antissemitismo também se notava. “Continuavam frescas na memória as manhãs de sábado de Aleluia, dia de malhar o Judas, quando eram perseguidos pelas ruas do Bom Retiro […] onde fora criado e aprendera o significado de ser judeu”. 
Einstein comentou a respeito: “O homem só pode florescer quando é possível se fundir numa comunidade. O risco moral do judeu é perder contato com seu povo e ser olhado como estrangeiro pelo povo de sua adoção”. Samuel aceitou o risco ao longo da vida. Foi o oposto do protótipo usado pelos antissemitas: favorável à assimilação, foi mau aluno, era internacionalista, gastador, desprendido, incauto, festeiro, sonhador e dom-juanesco. Nada Shylock. 

Quando veio para o Rio, ao final dos anos 1920, sua primeira experiência jornalística foi no órgão da Juventude Israelita, que ficava num canto da praça Onze. A sinagoga do bairro era vizinha da casa da Tia Ciata, onde o samba fora inventado poucos anos antes. O sotaque das ruas, diz Karla, misturava o iídiche à nasalidade dos portugueses e ao ritmo dos negros. Samuel não tinha direito de votar, mas podia brincar o Carnaval — era o que havia de melhor na praça Onze. 

Samuel admirava a saga tenentista e as conquistas sociais da Revolução de 30. Compreendeu cedo a importância da imprensa na relação com o poder político: jornais contrários à nova ordem foram devidamente empastelados, como o Diário Carioca. Assis Chateaubriand aderiu: paraibano como João Pessoa — o vice de Vargas, cujo assassinato foi o estopim do levante —, convenceu Getúlio de que precisava de apoio incondicional na imprensa. Getúlio soube agradecer. 

Os anos 1930 encontram Samuel na casa dos vinte. Com o charme dos olhos azuis, um jeito maroto de rir revirando a língua e a maneira certa de manejar seu Chesterfield, imitada de Clark Gable, seduziu  Bluma Chafir, judia vigorosa, bela e culta, cujo pé no chão (era contadora) contrastava com o feitio sonhador do futuro marido. 

Bluma se ressentia da discriminação das mulheres, sobretudo as solteiras. Só casadas podiam votar. Judia, independente e de esquerda, tinha medo de ser deportada caso Getúlio se aproximasse de Hitler. Samuel conseguiu, com astúcia, se registrar como brasileiro: alguém atestou seu nascimento em São Paulo. Bastava isso. Sentia-se brasileiro e preferia o que lhe parecia certo ao que era legal. 

Wainer estava de olho nos judeus influentes: o Idiche Presse, de Aron Bergman, partidário de Ben Gurion e próximo do trabalhismo inglês, deu-lhe aulas sobre as correntes de pensamento. Seu irmão Artur, que atraíra os irmãos para a corrente sionista-socialista, era também importante, assim como o advogado Samuel Malamud e Israel Dines, pai do futuro jornalista Alberto Dines, um dos diretores da Relief, organização de amparo ao imigrante. 

Por indicação de Wolf Klabin, industrial ligado aos sionistas e amigo de Artur, entrou para o Diário Carioca, encarregado da coluna Diário Israelita, cuja missão era conter o antissemitismo. Samuel chegara à primeira divisão, num Rio cindido entre os vermelhos de Prestes e os camisas-verdes de Plínio Salgado. Klabin o ajudaria a se transferir para a Revista Brasileira, do genro de Ruy Barbosa, Antônio Batista Pereira. Publicação séria: trezentas páginas, mais da metade traduzidas da francesa Ce Soir. Samuel conheceu ali a cozinha do jornalismo, da pauta à gráfica. Era colega de Antônio Azevedo Amaral, polemista que defendia a “democracia autoritária”. O encontro mudaria a vida de Samuel. 

Em 1938, Amaral convidou-o a criar uma nova publicação. Samuel o considerava um fascista — mas tinha subsídio da Light, graças à boa vontade de Getúlio. O olho cresceu. “Dois contos mensais, um bom dinheiro. O polvo canadense controlava tudo: energia elétrica, gás, telefonia, iluminação, bondes. E esticava os tentáculos sobre a imprensa através das agências de publicidade.” Wainer imagina uma revista de reportagens sobre a vida política, econômica e social do país e do mundo. Como escreve Karla, ele “contrataria os comunistas da Revista Acadêmica e faria a melhor revista que o Brasil jamais tivera: Diretrizes”. 

O primeiro número (5 mil exemplares), com Hemingway e Huxley, esgotou no primeiro dia em que ficou exposto na Livraria José Olympio. Samuel não demoraria a passar a perna em Amaral, registrando a revista em seu nome. Perdeu a Light, mas encontrou dinheiro em outros lugares: recebeu tanto do Departamento de Estado americano quanto dos nazistas, que não ligavam em financiar um judeu, contanto que fosse útil. E Samuel, como diz sua biógrafa, nunca foi muito kosher em matéria de dinheiro. A fila de colaboradores ilustres cresceu: Mário e Oswald de Andrade, Rachel de Queiroz, Eneida, Graciliano, Nelson Werneck Sodré e Álvaro Moreyra. 

Lacerda e Wainer eram amigos na época. A expulsão do Partido Comunista e a pecha de traidor levaram Carlos a esmurrar, altas horas de noite, a porta do apartamento de Samuel e Bluma. Embriagado, desabou, aos prantos, dizendo “mataram a minha mãe, estou órfão”. Com o tempo, Lacerda foi se incompatibilizando com os colaboradores de Diretrizes. Uma crítica venenosa a Portinari afastou Moacir Werneck de Castro. Ataques a Jorge de Lima levaram Jorge Amado a cortar relações. Aos poucos tornou-se persona non grata. Samuel teve de demiti-lo. Diretrizes durou até julho de 1944, quando suas provocações levaram o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) de Lourival Fontes a suspender sua cota de papel. 

No pós-guerra, Samuel assumiu a direção da redação de O Jornal, carro-chefe dos Associados de Chatô. Considerava o chefe desprezível, arrogante e entreguista, fazendo o jogo dos monopólios estrangeiros, vendendo-se a quem pagasse o melhor preço. Ficou três meses no cargo. Preferiu pedir ao chefe para fazer reportagens especiais. Viajou a Israel. Escapou do fogo cruzado, arranjou uma namorada iemenita e voltou ao Rio esquelético, tuberculoso. Passou algum tempo num sanatório em Minas e safou-se graças aos novos remédios que começaram a chegar.

Com o fim da guerra, Samuel foi enviado à Europa. Baseado em Paris, viajou à Espanha e publicou, no tão almejado Ce Soir, de Louis Aragon, reportagens sobre a face escondida do franquismo: torturas, prisões arbitrárias, violações dos direitos humanos. Rumou, em seguida, para a Alemanha, para cobrir o Tribunal de Nuremberg. Arrancou seu furo com o advogado de defesa do almirante Karl Dönitz, da Marinha alemã, que assinara a rendição nazista. O almirante confirmou a importância da base militar no Nordeste na derrota.  

Última Hora

O furo decisivo de Samuel veio em 1949: a entrevista com Getúlio Vargas, que estava havia mais de quatro anos num exílio voluntário em São Borja. A conversa selou uma fraternidade que o beneficiaria até o suicídio do presidente, em agosto de 1954. O episódio foi o precipitador do retorno ao Catete do “pai dos pobres”. Vargas o chamou carinhosamente de profeta e facilitou a compra de um jornal para apoiá-lo. Samuel se demitiu dos Associados e instalou a Última Hora no antigo prédio reformado do Diário Carioca, na praça Onze. Armou um time de craques: João Etcheverry, Otávio Malta, Francisco de Assis Barbosa, Paulo Silveira, Otto Lara Resende e Nelson Rodrigues, entre outros. No colunismo social, Maneco Müller; como ilustradores, Nássara, Augusto Rodrigues e Lan, futuro criador do pérfido Corvo, apelido que grudaria em Lacerda. 

Lacerda, do seu lado, demitiu-se do Correio da Manhã batendo a porta. Em dezembro de 1949, inaugurou a Tribuna da Imprensa, mediante ações de subscrição pública. O jornal do “xerife da rua do Lavradio” (expressão dele) fincou a bandeira conservadora — bastava olhar o Conselho Consultivo: Alceu de Amoroso Lima, Adauto Lúcio Cardoso, Gustavo Corção, Sobral Pinto. Estava armado o octógono para o vale-tudo entre os dois.  

O centro do livro se ocupa dessa infindável e furiosa rinha. Samuel se tornara personagem dominante do segundo governo Vargas, era amigável ao poder nos anos JK e quase companheiro de Jango. Lacerda era o udenista aliado dos militares que apoiaram Eduardo Gomes e veriam sucessivas tentativas de golpe frustradas.

Não convém avançar demais nos spoilers do bafafá armado pelos jornais, tão bem reproduzido por Karla Monteiro. Seria roubar do leitor jovem os inacreditáveis expedientes e baixarias desse confronto de gladiadores que recorrem a métodos da imprensa marrom. Briga repleta de pasquinadas, golpes baixos, armadilhas diabólicas, cpis, infâmias, prisões, intrigas internacionais e, ao final, as poderosas e novas armas de massa — a TV Tupi de Chatô e a Rádio Globo de Roberto Marinho, postas a serviço da demolição de Getúlio e de Jânio, sucessivamente, por Carlos Lacerda.  

O centro do livro se ocupa da infindável e furiosa rinha entre Samuel Wainer e Carlos Lacerda

O cabo de guerra incluiu acusações a Samuel de dumping, mediante financiamento com dinheiro público; de ter uma aliança clandestina com o sindicalismo peronista e de não ser nascido no Brasil, condição exigida para ser proprietário de um meio de comunicação. Lacerda enfrentou uma CPI por ter aberto ao público, por negligência, o código secreto do Itamaraty, no afã de comprovar denúncias, e por ter forjado uma testemunha (que nunca existiu) para tentar provar o favorecimento do Banco do Brasil à Última Hora

Na apoteose do poder de Samuel, Paulo Francis viu-o como um Gatsby, festeiro, sedutor, rico, casado com a bela, independente e desejada Danuza Leão, com quem teve três filhos, recebendo e frequentando banqueiros, intelectuais, artistas e atores de Hollywood, sem falar na classe política em peso. A embaixada americana o vigiava para saber o que pensava o presidente. Teve mansão, mordomo empertigado e filhos que se educaram no que havia de melhor. 

Mas Samuel quase nunca ficava lá. Vivia na redação, olhando por cima dos ombros de seus jornalistas. Sua paixão maior era o crepitar das Remingtons; o som das rotativas, o cheiro da tinta, que alguns suspeitavam correr em suas veias. Engolia anfetaminas para não dormir e, ao raiar o dia, arrancava boêmios extenuados do Sacha’s para apreciarem seu jornal mal saído do forno. Gostava tanto de jornal que perdeu duas mulheres excepcionais por negligência e ausência. 

Muitas testemunhas da caça às bruxas de Samuel evocam o bafo da inveja do velho establishment a propósito de sua intromissão no jogo de poder e nas mamatas habituais. Perseguição que foi se agravando, à medida que a Última Hora espalhava sucursais por São Paulo, Minas e Nordeste. No final do processo de expansão, no início dos anos 1960, que culminaria no Recife, a Última Hora publicava onze edições em sete estados. Alberto Dines tinha vindo da Manchete para se tornar um dos xodós do chefe. Karla reproduz seu diagnóstico: “Muitos jornalistas meteram a mão no bolso do governo. Ninguém falou nada. O caso do Diário Carioca era sabido, ganhou do Dutra o dinheiro para construir a sede da Praça Onze, que Samuel compraria para instalar a Última Hora. A campanha contra ele não foi contra um jornalista que se vendeu. Mas contra um invasor que adotou uma linha política contrária”.  

Depois da renúncia de Jânio, Samuel fincou pé na tese da legalidade, apoiou João Goulart até o fim. Tentou mediar ou suavizar conflitos, acautelar quanto aos excessos dos radicais, recomendar prudência e evitar pisar no que desabaria. Sobretudo não provocar o fim da aliança PSD-PTB e estimular a união dos adversários.  

Não deu certo: tudo ruiu em abril de 1964. Samuel se exilou no Consulado do Chile. Era o 16º na primeira lista dos que tiveram seus direitos civis e políticos cassados por dez anos. Em Paris, chegaria a um entendimento civilizado com Danuza em relação aos filhos. Faria mil e uma tentativas de empreendimentos, mas as musas o tinham abandonado. 

Quando conseguiu voltar ao Brasil, tentou reviver a Última Hora com novos parceiros, mas, dentro de um ano, o jornal exibia prejuízo de 1 milhão de dólares. Em dezembro de 1968, o AI-5 decretou a ditadura ampla e irrestrita. Os jogos estavam feitos. 

Foram múltiplas as tentativas, em São Paulo, de manter-se, sem afundar. Mas seus muitos fôlegos começaram a se exaurir quando a saúde passou a ratear. Muito doente, com crises respiratórias, sequelas da tuberculose, agravadas pelo cigarro, não parava quieto. “Enquanto existir bambu, há flecha”, escreve Karla. A última delas foi certeira: em sua coluna na Folha de S.Paulo, identificada por um modesto S. W., apontava Lula como a grande novidade no cenário brasileiro — um líder sindicalista de verdade, com futuro promissor. 

Só entregou os pontos no dia 2 de setembro de 1980.  

Quem escreveu esse texto

Claudio Bojunga

Jornalista, escreveu Roquette-Pinto: o corpo a corpo com o Brasil (Casa da Palavra).

Matéria publicada na edição impressa #39 nov.2020 em outubro de 2020.