Esporte, História,

Do futebol de várzea à era profissional

Três livros mostram a formação e a evolução dos grandes clubes na cidade de São Paulo

08nov2018 - 16h07 | Edição #2 jun.2017

Para encontrar a data do jogo, recorri ao Almanaque do Timão. Foi em 20 de outubro de 1978 que o Corinthians venceu o São Bento por 2 x 0 em Sorocaba. Naquela noite, assisti pela primeira vez ao programa Imagens que você não viu.

O repórter Antonio Euryco mostrava os bastidores da partida: a chegada dos torcedores, a porta dos vestiários, os lances em diferentes ângulos, as entrevistas finais. Pode parecer banal hoje em dia, mas foi uma revolução para mim em 1978. Virei fã e descobri que o futebol era muito mais que 22 correndo atrás da bola. Havia muita história ao redor do espetáculo. Imagens que você não viu  teve vida curta, mas me fez observar o futebol de outra maneira.

O mesmo faz João Paulo França Streapco em Cego é aquele que só vê a bola: o futebol paulistano e a formação de Corinthians, Palmeiras e São Paulo, resultado de uma dissertação. Ele se apropriou de uma frase de Nelson Rodrigues (“O pior cego é o que só vê a bola”) para mostrar que não se preocuparia em falar de conquistas, títulos, jogos. Ele enxerga muito além das quatro linhas do campo.

Streapco marca um golaço ao escalar na capa e na pesquisa os três principais times da capital paulista. Em vez de contar a mesma história linear que tantos outros livros de exaltação já contaram, ele partiu de três perguntas que viraram verdades quase incontestáveis para o torcedor: o São Paulo é o time da elite? O Corinthians é o time dos negros? O Palmeiras é o time da colônia italiana? As respostas trazem surpresas com o mesmo sabor de uma virada no último minuto do segundo tempo.

Histórias curiosas também sobre as dificuldades para comprar uma bola e os primeiros estádios da capital. Um deles, o Velódromo Paulistano, foi mandado construir por Veridiana Prado, dama da alta sociedade, pensando no neto ciclista, e passou a receber jogos de futebol quando a moda do ciclismo desacelerou. Ela teve a ideia de explorar seu potencial econômico com a venda de ingressos e o estímulo às apostas, como nas corridas de cavalos.

Foi uma corrida de cavalo que inspirou também o apelido criado pelo jornalista Thomaz Mazzoni para o clássico Corinthians x Palmeiras. “Derby” é uma referência à mais disputada corrida de cavalos na Inglaterra. O clássico comemorou cem anos no último dia 6 de maio e ganhou de presente Derby 100 anos, escrito pelos jornalistas Celso Unzelte, corintiano, e Paulo Vinicius Coelho, o PVC, palmeirense. O espaço de cada um foi muito bem delimitado: metade das 144 páginas. O livro tem duas capas, para agradar fãs das duas agremiações. Celso e PVC elegeram os derbies mais importantes. Alguns clássicos, como a final do Campeonato Paulista de 1974 e o empate da estreia de Ronaldo Fenômeno pelo Corinthians, em 2009, aparecem dos dois lados. PVC faz relatos pessoais dos jogos mais recentes — Celso, excelente contador de causos, ficou nos devendo essa. A obra é fartamente ilustrada e tem as fichas das partidas, o que agradará o leitor mais apaixonado pelo futebol.

Curioso é que Corinthians e Palmeiras têm muito em comum. E aqui voltamos para o Cego é aquele que só vê a bola. Em 1915, escreveu Streapco, quando o Palestra Itália (nome do Palmeiras até 1942) começou a disputar suas primeiras partidas, alguns jogadores do Corinthians atuaram pelos dois clubes. As partidas entre alvinegros e alviverdes foram parar nas páginas de Brás, Bexiga e Barra Funda (1927), de Antônio de Alcântara Machado. Nessa época os três bairros dominavam o futebol de várzea da cidade, que contava com cerca de seiscentas equipes e mil campos, principalmente nas margens dos rios Tietê e Tamanduateí.

A várzea de São Paulo não conta só a memória do futebol, mas também da urbanização da cidade. São tão poucos os registros que a equipe do Museu do Futebol saiu a campo em 2013 para resgatar e registrar essas histórias. Agora o tema ganha o reforço de Futebol de várzea em São Paulo: a Associação Atlética Anhanguera, de Diana Mendes Machado da Silva, também nascido de uma dissertação de mestrado (nos dois livros, o leitor irá se deparar com uma grande quantidade de notas de rodapé, que às vezes brecam um contra-ataque em alta velocidade).

A equipe foi fundada em 1928, por imigrantes e descendentes de italianos na Barra Funda, bairro vizinho do Bom Retiro, onde nasceu o Corinthians. O Anhanguera não tinha grande torcida. Seguia como um time de bairro, fazendo jogos e organizando eventos. Seus feitos costumavam aparecer em A Gazeta Esportiva. O livro não terá público de clássico, mas cumpre bem a sua função para historiadores e para aqueles que insistem em usar a expressão “varzeano” para designar um futebol de pior qualidade.

A várzea revelou muitos craques. O clube rubro-negro e ítalo-brasileiro continua atuando na várzea, embora a autora conte a sua história até 1940, quando o estádio do Pacaembu é inaugurado e uma nova era do futebol começa a ser contada. 

A cada livro vamos descobrindo que existem, sim, como me ensinou Antonio Euryco quarenta anos atrás, imagens do futebol que não foram vistas ainda.

Quem escreveu esse texto

Marcelo Duarte

Editor, é autor de O guia dos curiosos (Panda Books).

Matéria publicada na edição impressa #2 jun.2017 em junho de 2018.