História,

Da história para a vida

Cartas trocadas entre Getulio e Alzira Vargas dão a ver a ação política da filha do presidente e registram tensões do interregno varguista

26nov2018 - 10h29 | Edição #15 set.2018

Alzira Vargas do Amaral Peixoto (1914-92) passou à posteridade sobretudo como atinada operadora política do pai, Getulio. A leitura dos 568 bilhetes e cartas que ambos trocaram de 1946 a 1950 evidencia que o papel da “Rapariguinha”, como ele a acarinhava na correspondência, foi muito maior. O “pulmão direito [do presidente] que respira política”, na radiografia do magnata Assis Chateaubriand. A “consciência-adjunta”, ela gracejou. Ou “a segunda consciência” e “o melhor intérprete” do pai, como definiu “Gê” — assim a filha o tratava.

Nunca houve, no Brasil, rebento de presidente que influenciasse tanto as formulações políticas do pai ou da mãe. A coleção epistolar publicada em dois volumes destrincha a mais astuta das receitas, temperada com sonsice e paciência, para a (re)conquista do poder no país. Deposto em 1945, o antigo ditador Getulio triunfou nas urnas cinco anos depois.

No dia de sua queda, 29 de outubro de 1945, ele tinha 63 anos. A filha, que havia sido funcionária do Gabinete Civil da Presidência, trinta (naquela época inexistia legislação interditando a contratação de parentes; numerosos adversários de Getulio adotavam prática idêntica). Ela se formara na instituição que se consagraria com o nome de Faculdade Nacional de Direito.

O pai lhe encomendava charutos, de preferência os cubanos Romeo y Julieta (consumia de três a quatro por dia). Ela gostava de cigarros (“Fumo quase tanto quanto a Maria Fumaça”). Para superar a insônia, a filha enviava a Getulio o sedativo Bromural e o barbitúrico Nembutal, a droga que dali a anos seria encontrada no cadáver de Marilyn Monroe. Alzira padecia com surtos de uma “indefectível amiga, a colite nervosa”.

Escriba de talento, tinha uma pena colorida, mordaz e engraçada. Mas quem pertencia à Academia Brasileira de Letras era o pai, de prosa quase sempre desenxabida. Mesmo sem comparecer aos convescotes regulares dos imortais, Getulio recebia mensalmente seus “cobres”, como dizia, da casa de Machado de Assis. “É a parte útil da minha imortalidade.” Licenciado na maior parte do seu mandato no Senado, para o qual se elegera em dezembro de 1945, não deixava de receber seus salários, os “subsídios”. A lei autorizava — anos mais tarde, o procedimento se repetiria com o deputado Carlos Lacerda, afastado temporariamente da Câmara.

Alzira morava no Rio com o marido, o deputado federal Ernani do Amaral Peixoto, e a filha pequena, Celina. Em janeiro de 1946, aconselhou o pai a permanecer em fazendas no oeste do Rio Grande do Sul, distante das conflagrações da capital: “Se ficares por aí, espiritualmente prisioneiro, nem o Rodolfo Valentino te ganha em prestígio”. Em fevereiro de 1948, abordou a refrega eleitoral vindoura: “Até lá o melhor é ainda se fingir de morto”. Em novembro de 1949, vaticinou a barbada: “A parada é tua e de mais ninguém. Os cavalos do páreo estão tão fracos que só dopados”.

Ressentimento

As 912 páginas dos dois tomos somados poderiam ser exclusivamente um inventário de intrigas e escaramuças pelo poder no tempo em que o turfe empolgava multidões e proporcionava metáforas elucidativas. Já valeriam por isso. São, no entanto, de uma atualidade perturbadora em 2018.

Tratam de financiamento de campanhas, políticos gatunos, conflitos entre poder e imprensa. Expõem a gênese do jornal Última Hora, preconceitos raciais e o espectro de golpes de Estado, os tais cavalos dopados, tramados por governo, militares e Judiciário. Confidenciam frivolidades e segredos de alcovas da corte.

As 912 páginas da correspondência são de uma atualidade perturbadora em 2018

Ao grafar o nome de Getulio, as organizadoras Adelina Novaes e Cruz e Regina da Luz Moreira se curvaram aos documentos originais e à assinatura manuscrita dele: sem acento. A edição abre com texto inédito de Antonio Candido revendo, em 1997, seu “conceito drasticamente negativo” sobre o presidente. Militante socialista, o crítico literário e sociólogo combatera Vargas desde o princípio da década de 40. “Viver muito favorece as revisões”, anotou Candido.

Até 2 de janeiro de 1946, o começo da correspondência, Getulio jamais vencera uma eleição direta para a Presidência, embora a tivesse exercido por quinze anos. Malograra nas urnas em 1930, porém assumiu no lugar do vitorioso Júlio Prestes, depois do golpe que a história catalogou como Revolução de 30. Em 1934, tornara-se presidente constitucional com o voto de 175 de 248 constituintes. Com o golpe de 1937, entronizou-se ditador e cancelou o pleito de 1938. Os generais com quem se associara no Estado Novo o apearam em 1945.

Nos cinco anos seguintes, o homem que fechara o Congresso, exterminara os partidos e reprimira implacavelmente a oposição batalhou com a filha em busca da consagração pelo sufrágio popular. Eles traíam ressentimento. Alzira aspeava a palavra “ditadura” ao mencionar o finado regime. Ao comentar a compra do voto de deputados por Adhemar de Barros, governador de São Paulo, o ex-inquilino do Palácio do Catete ironizou: “São as belezas da democracia!”.

A filha informou que uma crise na Escola Naval eclodira por causa de um furo jornalístico. Meio de brincadeira, meio a sério, evocou o passado de controle da imprensa: “Viva a censura”. Em seu livro Getulio Vargas, meu pai, Alzira qualificaria como “democrática” a quadra estado-novista e como “falso golpe” o golpe que pariu o Estado Novo. O homem que por mais tempo governou a República não tergiversou sobre sua genuína condição de outrora: “Hoje não sou mais ditador”.

Imprensa amarela

Os Vargas se incomodavam com o jornalismo predominante: os donos da imprensa não apreciavam mesmo Getulio, e a propaganda contaminava o noticiário. Mas ele e Alzira calavam sobre as restrições liberticidas do Estado Novo a jornais, revistas e rádios. O pai espinafrava o que chamava de “imprensa amarela”: “Metade eles ocultam porque não lhes convém dizer. A outra metade ainda se subdivide em duas, uma de meias verdades e outra de mentiras”.

Alzira insinuou que a administração do presidente Eurico Gaspar Dutra, já em desavenças com Getulio, remunerava a cobertura jornalística enviesada: “Sabes perfeitamente que além da censura há outros meios para obrigar a imprensa a publicar somente o que o governo quer. E estes estão em pleno funcionamento”.

Getulio desancou Paulo Bittencourt, proprietário do Correio da Manhã, como “cornudo e bêbado”. Chateaubriand, dos Diários Associados, era desclassificado como “traficante de pena”, “cantante pago”, “chantagista destituído de qualquer sentimento de probidade moral”. “Ele fica assanhado sempre que se ameaça acabar com os monopólios. Ele tem o da opinião pública através dos seus diários assalariados. Este, sim, foi culpa do meu governo, que o permitiu.” 

Alzira escreveu, em 1946: “Carlos Lacerda [é] o mais venenoso dos jornalistas contra ti e contra Dutra”. Alzira avisou o pai a respeito de um entrevero entre Benjamin Vargas, irmão de Getulio, e Roberto Marinho, dono de O Globo. Colérico por causa de uma reportagem que o vinculara a um prédio em construção que desabara em Copacabana, soterrando operários, Bejo estapeara o jornalista e empresário. A sobrinha do agressor citou o agredido como “Roberto Azul Marinho” e “o quase preto”. Getulio aludia ao ministro José Linhares, que o sucedera provisoriamente em 1945, como “pernóstico mulato”. O governador da Bahia era o “mulato Mangabeira”.

Safadezas

Foi maquinação deles a pauta que levou um empregado de Chatô até a estância Santos Reis, em São Borja. Em fevereiro de 1949, lá chegou Samuel Wainer. Em suas memórias, Minha razão de viver, o repórter afirmaria que o patrão o despachara para o Sul com o intuito de apurar uma “grande reportagem sobre a questão do trigo”. O enviado teria decidido sozinho entrevistar Getulio.

O presidente Dutra, do Partido Social Democrático, idealizava para a sucessão um candidato único de sua agremiação, coligada à União Democrática Nacional. Getulio supunha que, pelo Partido Trabalhista Brasileiro, não conseguiria sobrepujar um supercandidato PSD-UDN. Segmentos udenistas, aos quais se ligava o deputado José Cândido Ferraz, batiam-se por um nome próprio. Prócer do PSD, Amaral Peixoto se inclinava pelo sogro.

Ferraz combinou com o marido de Alzira que a UDN destacaria um repórter de confiança, “dos menos vermelhos”, para ouvir de Getulio um elogio ao brigadeiro Eduardo Gomes. O afago poderia sugerir o endosso, em 1950, ao herói da Aeronáutica derrotado em 1945. Outra vantagem de o brigadeiro botar o bloco na rua seria murchar as conspirações golpistas pela prorrogação do mandato de Dutra.

De acordo com a versão do ex-presidente à filha, Wainer lhe pediu “perdão pelas safadezas que tinha feito” contra ele. A reportagem rendeu em 3 de março de 1949 manchete a O Jornal e outras publicações dos Associados. “Considero-o um grande nome e um grande valor moral”, declarou Getulio sobre o brigadeiro. “Pessoalmente, tenho por ele o maior apreço.”

A candidatura única gorou. O brigadeiro foi lançado pela UDN. O PSD apresentou Cristiano Machado. O abandono do deputado mineiro por correligionários que aderiram a Getulio enriqueceu o léxico político com o verbo “cristianizar”. Não se sabe se Wainer conhecia o propósito real da missão na fronteira com a Argentina.

Em novembro de 1946, o pai advertira a filha. “Quem governa o dromedário [Dutra] é o CCG [aliados de Copa e Cozinha do Guanabara, o palácio presidencial]. Torna-se necessário penetrar no seio dele para dividi-lo. É o que terás de fazer”. Ela fez.

Nas cartas, filha e pai incubaram o projeto de um jornal pró-Getulio, que apareceria em 1951, com o título ‘Última Hora'

Alzira queixava-se de dirigentes petebistas: “É difícil explicar-lhes que não se faz política com o coração, mas com a cabeça”. Em 1948, ela se empenhava por discrição, porém “o pessoal do PTB” agia “infantilmente, mostrando a todo mundo que tem uma bicicleta nova capaz de vencer qualquer páreo”. Enfatizava a virtude da “paciência de mandarim” dela e do pai.

Prescrevia: “Onça não se cutuca, nem com vara comprida, se não tiver espingarda à mão”. E refletia: “O excesso de prudência pode às vezes dar tão mau resultado quanto a sua falta”; “ainda está para nascer o homem que trabalha sem a mosca azul e, se para que o partido ande para a frente a bichinha ajudar, o que é que custa soltar um enxame de moscas por aí?”.

Golpe do Judiciário

Volta ao poder flagra filha e pai, já em 1946, incubando o projeto de um grande jornal pró-Getulio. O vespertino apareceria com êxito nas bancas em 1951, com o título Última Hora e sob o comando de Wainer. Antes, acumularam-se projetos frustrados.

As cartas indicam que uma fração da cúpula do PTB formava de fato o que seus detratores acusavam: um covil de ladrões. Ao menos essa é a impressão fixada por Alzira ao enumerar falcatruas e cambalachos de chefes trabalhistas. Contrariada com a bandalheira, ela os identifica e consigna os valores embolsados.

Em vários momentos, os missivistas, temerosos de interceptações, silenciam sobre questões relevantes. Os métodos de arrecadação de recursos para a campanha de 1950 estão claros, todavia poucos financiadores são expostos. Ainda assim, a correspondência é matéria-prima valiosa para reconstituir o período, como demonstrou o jornalista e escritor Lira Neto, no terceiro volume de sua bem-sucedida trilogia biográfica Getulio.

O tesouro documental, agora impresso na íntegra em livro, consolida a imagem de Getulio Vargas como um dos mais matreiros políticos nacionais. Anticomunista juramentado, ele estimulava a colaboração, e não o choque, entre classes sociais. Não subestimava seu prestígio com os trabalhadores: “Eu sou talvez o único burguês em que eles confiam”. Alzira não foi coadjuvante, mas coprotagonista na operação do pai para regressar ao Catete. Dispensou a corrida em raia própria: “Ambição política? Se a tivesse eu a teria realizado onde e quando pretendesse”, escreveu.

Os dois dissimulavam, como sonsos vocacionados, o objetivo que os movia. Em junho de 1948, Alzira recebeu um mensageiro de Adhemar de Barros, que sonhava em se candidatar. Ela alegou que “era muito cedo para uma definição” e que Getulio “em princípio não era candidato a nada”. Um mês depois, Dutra perguntou a Amaral Peixoto sobre o antecessor. O marido de Alzira engambelou: “Está ótimo de saúde, cuidando de seu gado e cada vez mais desinteressado de política”.

Com a bandeira de candidato desfraldada, Getulio orientou, em julho de 1950: “Devo aparecer como uma vítima das perseguições”. Semanas antes, Alzira se alarmara: “Prepara-se um golpe branco contra ti através do Judiciário”. Ministros do Tribunal Superior Eleitoral cogitavam negar o registro da candidatura, pretextando que Getulio rasgara duas Constituições (1891 e 1934). A artimanha não prosperou.

Como nem só de política vive o ser humano — nem mesmo Alzira e Getulio —, ela o divertia com gossips da capital. Contava que Dutra mantinha uma “Madame de Pompadour”. João Goulart sumira por dez dias. “Ontem tive uma vaga notícia de que se enfurnara com algum anjo em São Paulo.” Consciente do apetite paterno por affaires extraconjugais, alertou que a “entidade mística” na qual ambos confiavam prevenira: “Há pessoas grandemente interessadas em te retirar do cartaz definitivamente utilizando-se para isso de mulheres”.

São episódios que a tradição epistolar permite conhecer. Amanhã, com a agonia do hábito de escrever cartas, será mais difícil decifrar o passado. De 1946 a 1950, Alzira pelejou no terreno da democracia. Participara do Estado Novo. Lutou ao lado do pai até o desfecho trágico de 1954.

Em 1982, apoiaria para o governo do Rio de Janeiro o postulante do partido, o PDS, que representava outra ditadura — o candidato era o seu genro, Wellington Moreira Franco. Alzira Vargas do Amaral Peixoto é uma enorme personagem histórica, goste-se ou não das trincheiras que escolheu.

Quem escreveu esse texto

Mário Magalhães

Jornalista, escreveu Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #15 set.2018 em setembro de 2018.