Arte, História,

A vida em branco

Ceramista percorre a história da porcelana para elogiar o branco como forma de existência

07nov2018

Tenho uns pratos de porcelana inglesa do meu bisavô, trazidos de Portugal. É porcelana inglesa banal, usada no dia a dia. Sempre esteve na mesa familiar, quando se quebrava algo havia uma tristeza calada, breve luto, e os restos iam para uma gaveta. Lá ficavam, museu de cacos, uma alça de sopeira misturada com fragmentos de pratos exibindo sua carne branca, na espera de uma recuperação que nunca houve. Foi nessas peças utilitárias que pensei ao ler O caminho da porcelana, de Edmund de Waal.

O outro livro do autor, um best-seller chamado A lebre de olhos de âmbar, usou a mesma técnica esperta de cativar para um assunto que não interessa a quase ninguém. Na Lebre, ele contava a história de sua família através da coleção de netsukes (pequenas esculturas japonesas) do tio. Foi lido como saga familiar. Afinal, quem se interessa por netsukes?

No Caminho da porcelana, repete o truque, finge que fala sobre porcelana para contar a sua vida de artista. Mas entrega aos poucos o verdadeiro assunto, o branco como forma de silêncio, modo de existência.

O livro faz referências a uma vasta bibliografia e seu autor tem uma carreira de ceramista na Inglaterra. Conta casos saborosos: considera-se que foi Marco Polo, sempre ele, que trouxe de uma viagem a primeira peça feita com o então desconhecido e misterioso material. O pequeno jarro verde-acinzentado feito de “argila branca, dura e translúcida, diferente de qualquer coisa já vista”, está na Basílica de São Marcos, em Veneza. 

De Waal queria ver a peça, tocá-la. Escreve se apresentando ao responsável pelo museu, sem resposta. Telefona continuadamente e ninguém atende. Apela ao núncio apostólico em Londres, nada. Finalmente, ruma a Veneza com um dos seus filhos pequenos. Aborda um monsenhor com o álibi da criança curiosa. Sucesso: “Sempre leve uma criança com você, quando for à Itália” conclui numa boutade. Do fundo de um armário sai sua desejada porcelana, com um palmo de altura e que não deixam que toque.

De Waal decide viajar pelo mundo em busca de materiais nos lugares que julga simbólicos: a China, Dresden na Alemanha, Plymouth na Inglaterra. O que conta mesmo é a China.

China

Uma das palavras para designar porcelana em inglês é china, e é na China que ele passa mais tempo, atrás do caulim (que vem das montanhas de Kaoling), que compõe a porcelana mais nobre. Hoje ela não é algo raro nem caro. Sai de imensas fábricas e é tão corriqueira quanto o plástico.  Mas aquela trazida por Marco Polo era a fineza diante da cerâmica pesada que servia à nobreza europeia. Assim como o tabaco, o café e o chocolate, ela enlouqueceu a aristocracia.

O livro é o elogio do branco, que volta como tema e acaba dominando o volume. Ele percebe com clareza o fato, anunciado no início: “Li Moby Dick. Portanto, sei dos perigos do branco. Acho que conheço os perigos de uma obsessão por ele, por algo tão puro e tão total em sua possibilidade imersiva que faz com que a pessoa acabe transfigurada, mudada, sentindo-se capaz de começar de novo”. 

Não sei por que, pode ter sido o tom um pouco grandiloquente do texto, mas terminei a leitura com vontade de me rebelar contra a perfeição da brancura. Considerei quebrar um de meus pratos antigos, mas desisti.

As obsessões alheias sempre são irritantes. Girei a última tela no Kindle com crescente vontade de me vingar do autor. Numa primeira reação lembrei de outro livro, do músico e compositor Moby, cujo título Porcelain é puro mau gosto, ideal para cutucar De Waal e sua elegância.

Moby fala de um uso distinto da palavra: a porcelana como símbolo da sua fragilidade pessoal, nos anos em que viveu abraçado a ela em sua menos nobre aparição, a dos utilitários de banheiros. Para completar a anedota, Moby é o nome artístico de Richard Melville Hall, supostamente descendente de Herman Melville. 

Li O caminho no lugar em que as cores variadas chegam a ser incômodas: o México. Visitei as obras de Luís Barragan, arquiteto que não tinha medo do amarelo, do rosa-choque, do azulão. Minha “vingança” tomou forma: saí e comprei uma xícara de talavera poblana, bem colorida, exuberante, feita com argila leitosa, esmaltada com todas as cores mexicanas. 

Quem escreveu esse texto

Luiz Henrique Horta

Tradutor e crítico gastronômico, é autor de As crônicas mundanas: 10 anos de vinhos e comidas no glupt! (Ilha de Aclimação).