Gênero, Infantojuvenil,

Dois coelhos contra os preconceitos

Com personagens que trocam roupas supostamente masculinas e femininas, livro questiona os papéis sociais de gênero

07nov2018

Há três meses, o pequeno Chico, de 6 anos, escolheu um dos seus vestidos para acompanhar a mãe, a jornalista Carol Patrocinio, em um evento. Chico não se identifica como uma menina, ele apenas gosta de usar vestidos, e sua mãe permite que ele se expresse livremente. Mas, quando a foto do garoto é postada em uma página nas redes sociais, a imagem recebe uma série de comentários ofensivos e preconceituosos.

De onde vem tanto incômodo? Para teóricos como Judith Butler, já nos primeiros anos da infância, espera-se que crianças performem como meninas e meninos. Garotos são estimulados a brincar com carrinhos e bolas, a vestir azul e gostar de futebol, enquanto as meninas devem se ocupar de bonecas e vestidos — tudo isso como uma grande preparação para os papéis sociais a serem desempenhados na vida adulta, sendo as tarefas domésticas e os cuidados com os filhos relegados às mulheres, enquanto a atuação profissional e a chefia da família ficariam destinadas aos homens.

E, se no mundo dos adultos os papéis designados socialmente para cada gênero condicionam violências e limitam as decisões pessoais e profissionais de homens e mulheres, para os pequenos interferem no que lhes é mais caro: o exercício do brincar, tão importante para que a criança constitua sua subjetividade e que, por isso mesmo, deve ser livre para a experimentação lúdica.

Conectado com essa necessidade da infância, o livro Pode pegar! (coleção Boitatá), da artista Janaína Tokitaka, conduz o leitor a uma divertida brincadeira. Nele, dois coelhinhos trocam saias e calças, chapéus e sapatos supostamente masculinos e femininos.
Por meio das ilustrações delicadas da autora, os itens ganham funções importantes no jogo infantil: uma saia se torna capa de super-herói, enquanto um par de saltos se revela fundamental para apanhar uma maçã de uma árvore.

Mas o que vai acontecer quando um adulto, espantado com a experimentação, aparece para interferir e julgar a brincadeira dos coelhinhos? Cheio de sutileza e poesia, este livro pode ser uma ferramenta interessante para questionar os papéis sociais de gênero e as limitações impostas aos meninos e meninas.

Quem escreveu esse texto

Martha Lopes

Jornalista, é cofundadora do coletivo #KDmulheres.