Ciências Sociais, Economia, Ensaio,

O paradoxo da moderação

Expressão cunhada por Nelson Rodrigues é mote do principal ensaio de livro que reúne textos sobre liberalismo, cultura e política

30out2018 - 12h28 | Edição #16 out.2018

“Tudo no Brasil está para ser profetizado” é a primeira frase de Nelson Rodrigues citada por Eduardo Giannetti ao introduzir o histórico da expressão cunhada pelo grande dramaturgo, romancista, jornalista e comentarista de futebol que Pernambuco deu de presente ao Rio de Janeiro: complexo de vira-lata. 

Giannetti parece vir há muito tempo escondendo o profeta que se insinua em seu espírito. Nelson, que era apaixonado por Dostoiévski, passou a bola para o cuidadoso Eduardo e este, fascinado e assombrado pelas fundas intuições do russo, segura o jogo com delicadeza, evita jogadas afoitas, adiando futuros passes para depois de refletir e acalmar os ânimos dos outros jogadores. Profetas — Mautner, Glauber, Oswald — não primam pela moderação. Exprimem-se como se essas etapas inevitáveis já tivessem sido ultrapassadas dentro deles antes de formularem uma frase.

Mestiço oculto 

O vira-lata de Giannetti é o mestiço oculto na expressão de Nelson e que virou a figura rejeitada pelas novas ondas políticas de origem anglo-americana, as quais enfatizam o confronto de raças e o multiculturalismo em detrimento de luso-tropicalismos e de homens cordiais. 

Perdi o livro mas retive as ideias contidas em Terrible Honesty, de Ann Douglas (1995), onde o epíteto “mongrel” é aplicado à criação cultural na Nova York dos anos 1920. Giannetti, aliás, faz questão de mencionar a forma inglesa do conceito de vira-lata, mongrel, anotando que a palavra é dicionarizada como dog of no definable type or breed e, sobretudo, que é considerada offensive

Pois bem, Douglas não apenas usa o termo em conotação positiva como o estende à inteireza dos Estados Unidos. Sendo americana, ela transforma a ofensa em elogio sem precisar detalhar nem justificar muito os caminhos da virada: em larga medida, seu país já o fez por ela. Mas é muito significativo que uma autora americana tenha aplicado ao povo dos Estados Unidos a mesma tipificação que Nelson escolheu para os brasileiros. E Douglas não o faz apenas porque quer englobar, na sua Manhattan anos 1920, criadores brancos e negros — e reconhecer a mestiçagem estilística que nasce daí: ela também refere-se ao sentimento de inferioridade cultural dos americanos face à Europa. 

Eduardo Giannetti, brasileiro, necessariamente teria que esmiuçar a história do nome e, em vez de, como ela, louvar as duradouras superações, lamentar nossa incapacidade de virar o jogo. Ele parte de uma realidade em que a alta taxa de mestiçagem já se deu na vida comum e a fugacidade dos esboços de superação é recorrente. Juscelino, a quem Nelson dedica odes dostoievskianas, e Lula (sendo seu próprio Dostoiévski) foram episódios de euforia seguidos de depressão. Enquanto escrevo, o Museu Nacional arde em chamas e revela-se que Juscelino foi nosso último presidente a visitá-lo. Lula está na cadeia, prendendo a si energias que talvez nos livrassem da opressão.

O texto do romancista russo citado por Giannetti merece ser resumido: “Se um grande povo não crer que apenas ele está apto e destinado a se erguer, redimindo a todos por meio de sua verdade, ele se rebaixa à condição de material etnográfico. Um povo realmente grande jamais poderá aceitar uma parte secundária na história da humanidade, mas fará questão da primazia. Uma nação que perde essa crença deixa de ser uma nação.” 

Num outro livro (que também perdi), o gênio descreve o sentimento vira-lata de um russo diante do soldado alemão que guarda a ponte de Colônia. Mais do que o abatimento que Giannetti ressalta nos personagens do conto de Lima Barreto, brasileiros pobres que se deparam com um casal inglês, Dostoiévski experimenta o fundo do poço da humilhação e entra em intimidade com o ressentimento, que quer tornar-se combustível para um contra-ataque. 

Lula está na cadeia, prendendo a si energias que talvez nos livrassem da opressão

Do outro lado espreita Eugênio Gudin, que aconselha aos países latino-americanos a mera reprodução do que já é vitorioso nos países ricos do Ocidente. Gudin opôs-se à criação da Petrobras. Quando ministro, aplicou um projeto de austeridade nos gastos públicos e de abertura ao capital estrangeiro. A tensão entre a prática monetarista e o sonho nacional está por trás de forças políticas que se movem hoje no Brasil. 

A formação intelectual de Giannetti se deu ao longo do desenrolar dessa história. E, além de textos sobre músicos, professores e pensadores, em O elogio do vira-lata ele publica série de artigos sobre mestres da filosofia econômica que ilustram bem os caminhos dessa formação.

Rigor crítico

A atenção dada à crítica de Amartya Sen ao racionalismo de Jevons e Edgeworth em sua conceitualização do “homem econômico” exibe o rigor crítico com que Giannetti acolheu o liberalismo. E a frase de Alfred Marshall sobre os seguidores de Ricardo representa o posicionamento espiritual de Giannetti sobre o tema: [os ricardianos se baseavam] “na suposição tácita de que o mundo era constituído de gente da City [de Londres]”.

Sentimentos morais

O apreço de Giannetti por John Stuart Mill (“é preferível ser um Sócrates insatisfeito do que um porco satisfeito”) já diz muito. E Smith não poderia ganhar apreciação mais redentora de sua grandeza: o leitor interessado e honesto deve debruçar-se sobre o artigo intitulado “Os sentimentos morais de Adam Smith” para reconhecer com justiça o lugar do liberalismo na história das ideias. 

O texto sobre Marshall, no entanto, é o que mais empolga. É a história de um economista que enfrentou os ataques dos chamados marginalistas, mormente Jevons, que confrontavam os clássicos. Alvejando Ricardo e Mill, esses pensadores se fizeram iconoclastas. Marshall retoma Smith, Mill e Ricardo e dá à sua própria teoria um tom conciliatório que a coloca acima da dos seus combativos contemporâneos. 

Sei que é gozado eu estar escrevendo sobre textos complexos de teoria econômica: sou um boêmio enrustido e não conto dinheiro. Mas saco as conversas humanas. Sinceramente, nem conhecia os nomes de Jevons e Edgeworth. Talvez nem os retenha por muito tempo. Mas entendi o que Giannetti conta sobre eles à luz da crítica de Marshall. 

Incomoda-me na argumentação de Giannetti a negação do imperialismo e a blindagem do mundo financeiro

O livro de Giannetti deveria ser lido por todo brasileiro que sabe ler. Mas sobretudo pelos economistas. Na TV, depois de um possível futuro ministro da Fazenda desfiar uma cartilha liberal facilitada (o que levou o espectador a ver elo entre a simplificação do credo liberal e o poder autoritário, como foi o caso no Chile de Pinochet), foi um bálsamo ouvir Giannetti dizer algumas vezes (como nenhum outro dos entrevistados na série) “não sei”, e tentar equilibrar liberdades individuais com responsabilidades do Estado por causas sociais e ambientais (estas, um problema fulcral para o capitalismo, embora sejam tantas vezes usadas como fuga da luta pela superação de problemas da sociedade). 

Há muito em O elogio do vira-lata. O curto artigo desancando o livrinho de Mangabeira sobre deveres da esquerda é sagaz, mas some diante da publicação, por Giannetti, aqui nesta revista, de texto sobre Depois do colonialismo mental, novo livro de Mangabeira. Nele, Giannetti, diferentemente do que faz a maioria da intelectualidade nacional, traz para o centro das discussões as ideias ousadas do professor. 

Noutro capítulo, um retrato de Hayek sugere alguém bem diferente do “neoliberal” que se imagina ao tomar-se este termo como ofensa. Giannetti, já entusiasta da ênfase no “capital humano” de Marshall, ressalta o que Hayek diz sobre “conhecimento” e mercado. Não é incoerente que ele encontre elementos positivos num ensaio de Mangabeira que propõe uma “economia do conhecimento” distribuída na sociedade brasileira (que hoje mal capacita gente para a leitura e a tabuada) e não apenas em grupos pequenos tipo Vale do Silício. 

O momento Agostinho da Silva é o mais tocante de todos. Agostinho é um pilar de minha formação e o Brasil de hoje precisa conversar com ele. Que tenha sido Giannetti o eleito para apresentá-lo ao público leitor é mais do que significativo. A recusa da economia liberal é ponto dogmático no sistema do professor português. Há décadas isso provoca discussões dentro de mim. Incomoda-me na argumentação de Giannetti a negação do imperialismo e a blindagem do mundo financeiro. Claro que a questão riqueza/pobreza das nações não é conta de soma zero. O fantasma da opressão, superstição que alimentamos por sabermo-nos incapazes de admitir a responsabilidade por nossas falhas, não aparece apenas do lado do oprimido. O país com poderes imperiais mantém a contrapartida em sua mente. 

Quem vê um filme como A grande aposta entende quando se diz que “o capital financeiro deixa de ser um bom servo para ser um mau senhor”. Giannetti faz crescer nossa inteligência, mas não pode matar o profeta que há em nós, inclusive nele. Lúcido, ele avisa: é preciso ser moderado até na moderação.

Quem escreveu esse texto

Caetano Veloso

Músico, é autor de Verdade tropical (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #16 out.2018 em outubro de 2018.