Economia,

Uma travessia em compasso de 3 por 4

Reflexão sobre os últimos 20 anos da economia brasileira mostra que certas avaliações de campos ideológicos opostos são convergentes

21nov2018 - 12h03 | Edição #13 jul.2018

A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho. Acertasse eu com o que depois sabendo fiquei, para de lá de tantos assombros… Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.
Guimarães Rosa,
Grande sertão: veredas

A valsa é uma grande repetição: executa-se um passo para a frente, par de meios passos para o lado, alternando os pés e girando o par, e finalmente o passo para trás. Pouco importa se o primeiro passo para a frente inicia-se com o pé esquerdo ou com o pé direito, tampouco interessa se o passo para trás vem de qualquer dos lados. Repete-se, repete-se, até que, em algum momento, chega-se ao outro lado do salão completando a travessia. 

A realidade, entretanto, não está na saída nem na chegada. A realidade se abre aos poucos, no meio da travessia. Assim li Valsa brasileira, de Laura Carvalho, sobre o repetido e o escorregável, os avanços e retrocessos da economia brasileira ao longo das últimas quase duas décadas. A conclusão a que cheguei é que para lá de tantos assombros, a boa reflexão sempre nos trará senão para o mesmo galho, para galhos muito próximos.

Três movimentos

Como diz o título, o livro está estruturado em três partes: o primeiro passo para a frente dado pelos avanços do governo Lula no combate às desigualdades sob o pano de fundo do quadro externo excepcional que abençoou o Brasil durante boa parte dos anos 2000; em seguida, os dois meios passos para o lado, no início dos anos Dilma; por fim, o grande passo para trás iniciado por Dilma e, em certa medida, aprofundado por Temer. Não é heresia dizer que Temer aprofundou o retrocesso, tampouco é razoável associar tal visão a qualquer preferência política. 

Se o governo que sucedeu ao de Dilma foi capaz de restaurar alguma frágil estabilidade econômica, o mesmo não pode ser dito da credibilidade institucional do país. Ler o livro de Laura é entender que muitas visões pretensamente antagônicas são, no fundo, paralelas e complementares, quando não convergentes.

O diagnóstico de Valsa brasileira sobre os graves erros da política econômica de Dilma Rousseff é o mesmo traçado e esmiuçado por diversos economistas. A falsa política industrial, fundamentada em desonerações e crédito público barato para atender a interesses específicos, está lá, desnudada. Os erros na condução da política fiscal e da política monetária foram igualmente apontados como responsáveis pelos desequilíbrios macroeconômicos que fizeram da valsa um tropeço. 

A Nova Matriz Econômica — com suas desonerações de impostos concedidas aos setores e classes empresariais mais próximas do governo, a insistência em reduzir a taxa de juros enquanto jorravam do BNDES e de outras instituições públicas empréstimos a um custo camarada, prejudicando o combate à inflação, as tentativas de fingir que nada disso traria consequências graves para as contas públicas, para o crescimento, para o aumento da desigualdade — não foi exaltada por Laura, mas duramente criticada pela autora, por ter levado o país aos desacertos que culminaram no fim do crescimento, somente visível após as eleições de 2014. O Brasil que sobreveio de tudo o que ocorreu depois de 2014 lá está, derradeiro.

Do mesmo modo, detalhadas estão as políticas e medidas que levaram o país a construir um legado que não foi totalmente desfeito, nem mesmo após os abusos sofridos desde 2014, nem mesmo após a profunda recessão que assolou o Brasil no assombroso biênio 2015-16. Goste-se ou não de Lula, a transformação social do país, sobretudo na base da pirâmide de renda, ocorreu durante seu governo. 

A Nova Matriz Econômica é duramente criticada pela autora por ter levado o país aos desacertos que culminaram no fim do crescimento

É curioso que alguns dos críticos de Laura Carvalho, que ela própria cita ao longo da obra, tenham trabalhado no governo Lula durante a época em que os principais programas que fomentaram o legado foram lançados. Reconhecer isso não é respaldar Lula ou qualquer ocupante do cargo máximo da República. Trata-se apenas de reconhecer o óbvio: todos os governos, não importa o suposto lado ideológico, fazem coisas boas e coisas ruins. Portanto, analisar toda a travessia, não apenas a partida ou a chegada, é importante.

No Brasil maniqueísta de hoje, com seus lados e disputas, picuinhas e ataques, imagino que possa acontecer com o livro de Laura o mesmo que aconteceu com o meu — Como matar a borboleta-azul (Intrínseca, 2016). Lido e elogiado por muita gente que se identifica com os rótulos a ele associados, talvez desprezado por pessoas que não vão lê-lo por princípio, no pior estilo “não li e não gostei”.

Para leitores e não leitores, apenas posso reafirmar o que já havia dito em poucas palavras na contracapa da obra: Valsa brasileira é leitura fundamental para quem quer se aprofundar sobre a história econômica recente do país e entender por que tem sido tão amarga nossa travessia. Há os que no escuro permanecerão por escolha própria. Que ao menos se contentem com os eternos rodopios de uma valsa, ou com as palavras certeiras de Guimarães Rosa. 

Quem escreveu esse texto

Monica Baumgarten de Bolle

É autora de Como matar a borboleta-azul: uma crônica da era Dilma (Intrínseca).

Matéria publicada na edição impressa #13 jul.2018 em junho de 2018.