Economia,

A loucura como sistema

O impulso infinito para levar a acumulação do capital além de qualquer limite levou ao endividamento em massa e a cidades vazias

01ago2018 - 04h51 | Edição #14 ago.2018

Bianca Tavolari

O geógrafo americano David Harvey [Ana Yumi Kajiki]

Desde Os limites do capital (Boitempo, 2013), sua obra-prima publicada originalmente em 1982, David Harvey vem desenvolvendo uma das leituras mais relevantes e influentes dos três livros de O capital de Karl Marx. Seu esforço teórico é de múltiplas ordens.

Em primeiro lugar, trata-se de reconstruir os principais conceitos do pensamento tardio de Marx, mostrando como eles se articulam entre si, numa leitura rente ao texto original. É, portanto, uma tarefa de compreender e explicar as ideias-chave de Marx a um público mais amplo. Foi, ao mesmo tempo, a maneira que Harvey encontrou para aprofundar e consolidar sua posição teórica desde sua “virada marxista” em Social justice and the city, de 1973. Seus primeiros escritos relacionavam formas espaciais com conceitos normativos, tomando categorias emprestadas de autores como John Rawls ou de teorias econômicas da localização, numa fase chamada por ele próprio de “liberal”.

Em segundo lugar, é um esforço de atualização. Harvey quer mostrar quais conceitos ainda são indispensáveis para que possamos entender por que o capitalismo ainda é tão propenso a crises. No entanto, o autor não se furta a indicar limites ao pensamento de Marx, sejam eles decorrentes de tendências do século 19 que não se confirmaram ou de lacunas inerentes a uma obra que ficou inacabada. Mas não é um esforço sem mais.

Chegamos, portanto, ao terceiro ponto. Olhando a partir da geografia, sua perspectiva pretende dar dimensão espacial aos diferentes movimentos do capital. Uma de suas contribuições mais originais é mostrar como a construção constante de ruas, pontes e cidades inteiras conforma uma das principais maneiras de conter crises recentes de sobreacumulação.

O conceito de capital fixo ganha centralidade, além de localização determinada no espaço: a urbanização incessante é um processo contínuo de criação e de destruição de valor. Harvey chama isso de spatial fix, em que “fix” significa tanto fixar no território quanto resolver uma crise de acumulação por meio do espaço urbano construído. As duas ações implicadas no termo são apenas temporárias.

Esse esforço múltiplo é renovado em A loucura da razão econômica, seu mais novo livro. Harvey volta a passagens centrais de O capital e também dos Grundrisse (0s rascunhos do que viria a ser O capital). Explora, num novo arranjo, os conceitos fundamentais de valor e mais-valor; capital fictício e financeirização; dinheiro, crédito e antivalor. Mostra como estes momentos integram a circulação, a valorização e distribuição do valor em suas várias formas. E mostra como todo esse processo não linear e cheio de contradições gera insanidades.

Capital contra todos

A loucura da razão econômica tem sua principal matriz no capital portador de juros, em que o dinheiro aparece como se tivesse o poder mágico de criar mais dinheiro por si só, sem a intermediação de qualquer tipo de trabalho. O impulso infinito para levar a acumulação para além de qualquer limite não é uma falha ocasional, mas é inerente ao processo de acumulação capitalista. A loucura não fica restrita à esfera econômica, faz também a vida cotidiana de refém.

Cidades-fantasma produzidas pela urbanização sem precedentes na China, prédios vazios nos centros de grandes metrópoles com a única finalidade de esperar pela valorização, endividamentos em massa de todos os tipos, passando por taxas de cartão de crédito, fundos de pensão, créditos estudantis até chegar às hipotecas.

A loucura está na criação de uma nova forma de hiperexploração por meio do endividamento

Se as teorias econômicas tradicionais consideram estes cenários racionais, Harvey aponta para a insanidade de louvar uma infinitude virtuosa fictícia. A loucura está na desconexão com as necessidades sociais mais básicas. Mas está também na criação de uma nova forma de hiperexploração, com o aprisionamento do futuro de milhões de pessoas por meio do endividamento. “Não se trata de capital contra trabalho, e sim de capital contra todo mundo”, escreve Harvey.

O livro ainda dá um passo a mais. Harvey relaciona as diferentes tensões e contradições do processo de valorização com lutas políticas recentes. Como essas passagens são feitas de maneira pontual e um pouco apressada, acabam por gerar muitas dúvidas. Numa delas, ele trata o trabalho doméstico não remunerado realizado na esfera familiar como um “espaço de não valor e de trabalho não alienado”.

Harvey defende que o não pagamento representa uma ausência de mercantilização, o que transformaria o trabalho doméstico “num poderoso antídoto ao domínio da produção capitalista de mercadorias”. Aqui, parece desconsiderar a imbricação intrínseca entre trabalho doméstico não pago e o desenvolvimento do capitalismo. Ao tratá-lo como não alienado, esquece de outras formas de opressão.

Harvey também critica as propostas de renda básica defendidas pelo democrata Bernie Sanders e pelo movimento Black Lives Matter. Para o autor, aumentar o poder de compra dos cidadãos — ou especificamente da população negra e pobre — não adiantaria, já que os preços de bens e serviços também aumentariam. Mas, ao sugerir que parte da esquerda não teria entendido corretamente a relação entre circulação e realização do capital, levando-a a concordar em tese com os capitalistas do Vale do Silício, não consegue explicar por que tal proposta sofre tanta resistência nos EUA.

Por fim, Harvey afirma que a loucura da razão econômica “parece estar produzindo uma loucura paralela — raiva, nesse caso — na esfera política”. A Primavera Árabe, os protestos de 2013 no Brasil e na Turquia, o Occupy Wall Street e as manifestações de extrema direita são todos considerados exemplos de novas alienações, expressões de ira e desespero. Não resta qualquer dúvida de que Harvey apoia os protestos democráticos e vê o surgimento da nova direita com preocupação. Mas ao tratá-los como um bloco único e como expressão de uma loucura política derivada diretamente de uma loucura econômica, as especificidades se esfumam. Sem um critério para diferenciar loucura e razão, bem como para identificar suas diferentes fontes, corre-se o risco de diagnosticar apenas patologias sem maiores distinções.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Matéria publicada na edição impressa #14 ago.2018 em agosto de 2018.