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O V da questão

Manual de instruções de médicas norueguesas explica com didatismo e bom-humor os persistentes mistérios que a vagina esconde

13nov2018 - 15h05 | Edição #7 nov.2017

Xoxotas não são novidade para ninguém. Mesmo a parcela da população que não nasceu com uma certamente já viu um exemplar, seja ao vivo, seja em revistas, filmes, fotos, vídeos, sites e quadros (quiçá performances?) de museus. Só que, mesmo com todos assim tão cientes de sua existência, carregar uma vagina por aí pode não ser tarefa simples. Há lugares em que sua mera presença causa desconforto, cochichos, embaraço.

A quem duvida, basta fazer um passeio pelo bairro com um exemplar de Viva a vagina debaixo do braço. Ao que parece, o título-exaltação e o singelo desenho estilizado da capa são de fazer corar toda sorte de transeuntes, até mesmo em redutos femininos como salões de cabeleireiro ou salas de espera de ginecologistas.

Não que eu tenha submetido a publicação a intencionais testes de aceitação. Foi tudo muito espontâneo. No entanto, a acolhida emocionada que o livro recebeu nos compromissos pessoais de uma mulher talvez confirme algo que as autoras comentam já na apresentação: ainda que nunca tenhamos tido acesso a tanto material sobre o corpo feminino, saúde e sexo quanto temos hoje, persistem dúvidas atrozes. Muitas vezes, por causa desse desconhecimento, a curiosidade se transforma em vergonha.

A obra das médicas norueguesas Nina Brochmann e Ellen Støkken Dahl é um desdobramento do blog Underlivet (algo como “partes baixas”), no ar desde 2015. Ali, elas se acostumaram a responder dúvidas elementares de leitoras, todas com uma aflição em comum: a necessidade de confirmar se a questão pela qual estavam passando era “normal”. 

É essa busca pela normalidade que norteia o livro. Nina e Ellen vão das primeiras lições de anatomia aos mais complexos pormenores, nivelando conscientemente a audiência pelo mais baixo grau de informação. Com isso, por mais versado que seja o leitor ou a leitora, por mais intimidade que tenha com a própria vagina ou as de outras pessoas, ler um manual de instruções pode proporcionar um uso mais eficiente de suas instalações. 

Ilustrações minuciosas seriam bem-vindas, em especial nos trechos com detalhes médicos. Viva a vagina, no entanto, traz ilustrações pobres, que por vezes lembram as figuras jocosas rascunhadas no caderno de adolescentes entediados. Considerando que são minoria as mulheres que já tiveram a sorte de ver a si mesmas com o auxílio de espelhinhos, infográficos mais caprichados seriam de imensa valia. Quando se fala nos órgãos genitais internos, por exemplo, há menção às fímbrias, espécie de franjas responsáveis por capturar os óvulos que deixam os ovários, mas a ilustração adjacente não demonstra onde especificamente elas ficam. O capítulo sobre contracepção, embora traga ótimas tabelas com resumos sobre cada método, de novo peca pela ausência de desenhos não só mais eficazes, mas também mais chamativos (embora os pênis desenhados com bigodinhos sejam fofos, há que se registrar).

Sem caretice

A descontração, aliás, é constante. Ellen e Nina são divertidas sem serem superficiais, e mantêm a gravidade necessária ao tratar de temas delicados, mas sem conferir uma seriedade careta. O segundo esfíncter anal, por exemplo, nas teclas delas vira “trava de segurança adicional” — o que é sensacional. Ah, sim, “bumbum” também é algo que não existe para elas — falam “bunda”, sem rodeios. 

Uma pegada feminista se esconde nas entrelinhas e fica mais transparente sempre que necessário, ao questionar a importância dada até hoje à virgindade e ao mostrar que a menstruação e a TPM são usadas de forma machista para diminuir as mulheres. As autoras revelam curiosidades — por exemplo, ao contrário do que se ensina na escola, não são os espermatozoides que nadam rumo ao óvulo: ele é que vai boiando até eles. Assim, questionam a passividade que se atribui às mulheres, que nos faz coadjuvantes até na hora da fecundação.

Ao contrário do que se ensina na escola, não são os espermatozoides que nadam em direção ao óvulo: ele é que vai boiando até eles

Há o cuidado de não encerrar a vida sexual das mulheres na heterossexualidade. Nina e Ellen deixam o tempo todo muito claro que não é só com os homens que as mulheres experienciam o sexo. Ao falarem do hímen, por exemplo, explicam que ele precisa “abrir espaço para o pênis ou os dedos [de outra mulher]”. 

Quando o assunto são os teoricamente diversos tipos de orgasmo possíveis a uma mulher, desmistificam a diferença (e sobretudo a soberania de um sobre o outro) entre o clímax clitoriano e o vaginal. Não vamos estragar a surpresa, mas fica aqui um spoiler: culpem Freud. Um dos maiores serviços prestados às leitoras está neste capítulo: a revelação de que 5% a 10% das mulheres nunca tiveram orgasmo, seja sozinhas, seja com alguém — ou seja, algo “normal” e que acontece em todo o mundo. 

Também é normal que se note a incompatibilidade entre o sexo entre quatro paredes, realizado por amadores, e aquele que brilha e se contorce nas produções pornográficas. “Não importa o que você fizer, não vai ser igual a um filme pornô”, avisam. “Nem todas as transas terminam em orgasmos, embora a pornografia possa dar essa impressão”, apaziguam.

Livre-arbítrio

O aborto, tema cercado de zelos quando abordado em publicações de autoria de médicos, aqui é escancarado sem constrangimento. É quando falam da interrupção voluntária da gravidez que Ellen e Nina deixam clara sua opinião em relação ao livre-arbítrio feminino. Num mundo em que 50 mil mulheres morrem anualmente por causa de abortos inseguros, talvez alguns tapas na cara sejam necessários. “Não importando o que você sente em relação à questão do aborto, é fato incontestável que não ajuda proibi-lo ou dificultar o acesso a ele se quer reduzir seus números.”

Viva a vagina fala, ainda, das doenças mais comuns, incluindo aquelas sobre as quais ainda falta informação. A medicina vem tentando desvendar os mistérios da endometriose, por exemplo, que acomete uma em dez mulheres do planeta, trazendo dores incapacitantes durante a menstruação e o sexo, bem como altas taxas de infertilidade. O livro em si não traz nenhuma novidade sobre o assunto, e poderia talvez ter se aprofundado um pouco mais. No entanto, o simples fato de jogar luz sobre esta e outras doenças já é o início de uma conversa entre paciente e ginecologista.  

O que falta em profundidade em alguns de seus tópicos, Viva a vagina traz de sobra em abrangência de temas. Vivemos num país em que não há educação sexual decente nas escolas — nem dentro de casa. Por isso, o livro é um excelente manual indicado para leitoras (e leitores) de todas as idades. Afinal, falar um pouco da xoxota é melhor do que não falar nada sobre ela. 

Quem escreveu esse texto

Marcella Franco

É jornalista e escritora.

Matéria publicada na edição impressa #7 nov.2017 em junho de 2018.