Divulgação Científica,

O futuro é multiespécie

Expoente dos estudos feministas da ciência, Donna Haraway escreve sobre como nossa vida foi definida por nossa relação com os animais

01dez2022 - 05h51 | Edição #64

Quando as espécies se encontram pode ser lido como uma história de amor. Amor incomum, sem dúvidas, pois trata da relação de Donna Haraway com sua cachorra Cayenne Pepper, pastora australiana que foi sua companheira por mais de uma década. O relacionamento, que de acordo com a autora se estende até as profundezas de seu DNA, é o gatilho para uma longa reflexão sobre as práticas de intimidade que criamos com os bichos, sejam elas de carinho e cuidado ou de poder e dominação.


Quando as espécies se encontram, de Danna Haraway, pode ser lido como uma história de amor

Bióloga molecular de formação, Haraway é uma das principais figuras da geração que introduziu de maneira definitiva questões de gênero na reflexão filosófica sobre as práticas científicas. O trabalho que a notabilizou foi o célebre “Manifesto ciborgue”, de 1985, que discutia a forma pela qual determinadas tecnologias de informação e manipulação genética colocavam em xeque uma pretensa pureza da categoria do humano. Ao usar essa figura híbrida tomada dos romances de ficção científica, Haraway postula que já estamos imbricados em um emaranhado de carbono e silício e aquilo que consideramos natural já é, de maneira irreversível, artificial. O exterior havia invadido a nossa interioridade.

Lançado em 2008, Quando as espécies se encontram dá continuidade às reflexões de Haraway sobre primatologia e encontram uma primeira elaboração em 2003, no Manifesto das espécies companheiras (Bazar do Tempo, 2021). Para quem via Haraway como uma profeta da tecnociência que anunciava um futuro de corpos híbridos, a guinada em direção ao estudo de animais pode parecer esquisita. Teria ela dado um passo atrás e, ao voltar o olhar aos animais, promovido uma espécie de retorno à natureza? Por mais que o tom dos livros seja distinto, é clara a continuidade de abordagem.

Podemos compreender toda a obra de Haraway como uma longa problematização sobre as fronteiras entre o próprio e o alheio, o eu e o outro. Ela parece ter descoberto, a partir da figura do ciborgue, que nós humanos somos invariavelmente definidos pelas relações que somos capazes de constituir com aquilo que nos é alheio. E se a tecnologia parecia ser o grande outro que estava prestes a invadir nossa humanidade nos anos 80, Haraway afirma que sempre fomos constituídos pelos encontros com entidades não humanas: “Jamais fomos humanos”.

No caso da relação com os animais, trata-se de uma história profunda. Tanto do ponto de vista da temporalidade em que os domesticamos para alimento, proteção, pesquisa e moradia, mas também de que nossos próprios corpos são povoados por uma miríade de não humanos, como fungos e bactérias. Para além da noção invasão, passamos a uma retórica do companheirismo.

O bestiário composto por Haraway ilustra a forma pela qual nossa vida foi de fato definida por nossa relação com os animais. Há um foco pronunciado nos encontros que mantemos com os cães, mas a autora também conta histórias sobre o trabalho não remunerado de porquinhos-da-índia em laboratórios, a clonagem de material genético de tigres e o uso de câmeras em animais marinhos. Histórias que testemunham a profundidade dos enredamentos necessários para que o ser humano contemporâneo seja possível.

Ética do cuidado

Não é por acaso que a autora vem recebendo atenção no Brasil. Seus livros expressam a necessidade de uma reconfiguração do nosso modo de vida frente às mudanças climáticas e a catástrofe ecológica que já estão em nosso horizonte. Haraway reconhece que a situação presente não se deve apenas a práticas extrativistas e violentas contra a Terra, mas também a uma forma de pensamento que nos tornou distantes e insensíveis — o modo como nos relacionamos e falamos dos animais é um indicativo. Ela propõe uma ética do cuidado e da atenção aos encontros, a valorização das conexões significativas e o reconhecimento de que toda relação que se estabeleça seja sempre de via dupla, algo de que aparentemente nos esquecemos.

O fato de que estamos entrando em um novo regime climático cujo principal fator de transformação é justamente a ação humana sobre os indicadores biogeoquímicos do planeta, o chamado Antropoceno, é testemunha disso. Ignoramos que a Terra é uma entidade que responde ativamente às nossas ações por tempo demais. Assim, não surpreende que o livro de Haraway seja acompanhado de diversos outros que enfrentam de modo semelhante a questão. A abordagem que vem sendo tratada como multiespécie tem tido reverberações na literatura mundial, de não ficção e ficção.

A pesquisadora Juliana Fausto, que traduziu essa desafiadora obra de Haraway, é também autora de A cosmopolítica dos animais (n-1). A seu lado, Alyne Costa e Fernando Silva e Silva, além de serem pesquisadores da obra de Haraway, também coordenam a coleção Desnaturadas, da Bazar do Tempo, cujo primeiro título é o recém-lançado Autobiografia de um polvo, de Vinciane Despret, autora também publicada recentemente pela Ubu com O que diriam os animais?. Na ficção, romances como Escute as feras, de Nastassja Martin, e A cachorra, de Pilar Quintana, além dos brasileiros A extinção das abelhas, de Natália Borges Polesso, e O deus das avencas, de Daniel Galera, sugerem que o futuro é multiespécie.

A catástrofe ecológica se deve também a uma forma de pensamento que nos tornou distantes e insensíveis

No livro de Haraway, a “questão animal” nunca é tratada de forma abstrata. O “animal” dificilmente aparece como categoria genérica, como se suas questões pudessem ser tomadas de maneira coletiva e indiferenciada. Haraway escolhe animais específicos, nomeados. Não são meras categorias, mas existentes concretos, que se relacionam com humanos também concretos. Trata-se de contar histórias cruzadas entre humanos e animais, em suas particularidades. Se Haraway escreve sobre animais domésticos, ela não se furta em nomear sua própria cachorra, destacando as dinâmicas de companheirismo, mas também de poder. Da mesma forma, coloca-se em uma dimensão de vulnerabilidade ao admitir que ela mesma, quando treina sua cachorra para as competições de agility, também é treinada por ela.

Esse deslocamento em direção ao particular tem suas implicações. Para Haraway, não se trata de tomar os animais como objeto, mas como sujeitos em uma história coletiva, ativos na construção do mundo. Ao nomear e diferenciar os bichos, ela resguarda uma singularidade àquele existente em particular, sua história, sua personalidade e as histórias que criou. Estamos em um emaranhado com nossos bichos, domésticos ou não, cujas fronteiras são difíceis de distinguir.

Vemos, com certa curiosidade, um estilo de escrita incomum para cientistas, com foco pronunciado na primeira pessoa. Haraway se implica diretamente nas histórias que conta, seja ao dar destaque às relações pessoais que tem com pesquisadores de diversas áreas, ao expor os e-mails que troca com outros competidores de agility ou ao relatar de maneira honesta a relação com seu pai. Ecoando um de seus mais célebres textos, em que discute os saberes situados, Haraway parece sempre querer deixar claro que não há um ponto de vista exterior capaz de observar um fenômeno. É sempre preciso lembrar de onde falamos, para quem e o que falamos, de quem e com quem falamos.

Haraway se esforça em contar histórias onde não há um protagonismo declarado do humano, mas sim um processo de transformação mútua entre aqueles que participam delas. É o que ela chama de um devir-com, conceito filosófico declarado como chave de leitura para o livro. Interessa menos à autora o que são os bichos que discute e mais as formas pelas quais eles se transformam — e nos transformam — a partir dos modos de relação. Diferentemente de chips de computador inseridos sob a pele, no caso do ciborgue, os animais são agentes de nossa transformação capazes de resposta, de reação. Por isso a insistência de Haraway em uma espécie de polidez dos encontros, de um cuidado com o outro, em uma ética da responsabilidade. Se somos transformados, também estamos transformando.

Quem escreveu esse texto

André Araujo

É doutor em comunicação pela UFRGS

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.